ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

domingo, 15 de julho de 2012

DOUTOR DE AVIÁRIO?


Já falei deste incidente estranho que fez de Miguel Relvas doutor de aviário. Digo assim pela semelhança com a rapidez com que se fazem crescer e engordar os frangos naquelas unidades de produção que alimentam a voracidade do mercado!
A Declaração de Bolonha e, ao que parece, despachos de um ex-ministro da Educação, tornaram a responsabilidade de garantir a qualificação de alguém perante a sociedade numa atitude que, dependendo de quem a assume, é quase uma irresponsabilidade pelos muitos parâmetros subjectivos que quase permitem justificar qualquer coisa que se queira.
Não vou entrar na polémica de julgar o que se tenha passado. Conheço demasiadamente bem o peso da responsabilidade de garantir a qualificação de alguém, a qual sempre assumi com o rigor e a verdade que o respeito pela sociedade a que pertenço me exigem. Durante muito tempo tive de o fazer e, na dúvida, sempre julguei a favor da sociedade, como entendo que deve ser feito.
Também nunca me apareceu alguém com tantos "créditos" como os que, em poucos anos de actividade, perante alguém Relvas justificou. Mas, por vezes, aparecem prodígios!
Apesar de tudo, pensei que o caso se ficaria por aqui, por uma por uma situação estranha que a “legalidade” consente. Mas não ficou…
Afinal, aquelas apreciações minuciosas do currículo profissional de Miguel Relvas não existem, pelo menos na forma detalhada que justifique os créditos que lhe foram atribuídos.
Colegas da turma a que se diz Miguel Relvas pertenceu dizem nunca o ter visto por lá, nem sequer nos testes das cadeiras que se diz ter feito!
Pelo menos metade dos membros do Conselho Científico da Universidade afirma não ter participado na reunião que apreciou o processo de atribuição de créditos ao candidato a doutor.
Levantam-se cada vez mais vozes que pedem a Miguel Relvas para tomar a atitude própria em circunstâncias como esta em que a credibilidade em alguém que, em princípio, deveria ser um exemplo, se esgotou, sobretudo depois dos repetidos protestos de “consciência tranquila” que o que agora já é sabido não consente.
Até agora, tenho considerado a actuação deste governo como adequada às circunstâncias em que “herdou” o país, o modo como tem enfrentado adversidades que o exterior lhe impõe e, por isso, terei dificuldade em aceitar que, por uma questão de princípios correntes de ética social, se deixe prejudicar por uma atitude em que um dos seus ministros não terá dado o melhor dos exemplos…
Penso que Miguel Relvas deveria demitir-se já porque não haverá inspecção do Ministério da Educação que consiga limpar ou sujar mais ainda a imagem das circunstâncias estranhas e, aparentemente, de favorecimento discriminatório, nas quais Relvas conseguiu o bacharelato que permite chamar-lhe doutor!
Portugal necessita de tranquilidade para fazer as coisas difíceis que a recuperação da sua credibilidade exige, entre as quais mostrarmos ser pessoas credíveis!

sábado, 14 de julho de 2012

A INSEGURANÇA DE SEGURO


É evidente a insegurança de Seguro nesta altura de grandes dificuldades para o país e para ele próprio. O seu coração balança entre duas preocupações, a de ajudar o país e o medo das consequências de poder perder as eleições autárquicas que se aproximam.
Um patriota de verdade, um político preocupado com o povo em nome do qual diz trabalhar, não hesitaria um segundo na escolha a fazer, pois escolheria o seu país, o seu povo martirizado para quem as divisões sobejam. Mas não acredito que, deliberadamente, faça o que sabe ser melhor para o seu país porque teria de enfrentar os que, dentro do PS, não se cansam de lhe fazer a vida negra e para os quais o país é coisa que talvez nem saibam muito bem o que seja senão para a concretização dos seus projectos de poder.
É uma má nota que dão de si quer o PS quer o seu Secretário Geral, o que, aliás, não é de estranhar vindo de quem insiste em criticar nos outros o que eles próprios fizeram.
Tempos maus que se aproximam quando de melhores tempos já estávamos a esperar, poderão ser piores ainda se os políticos portugueses não assumirem, totalmente, as responsabilidades que são suas, de tudo fazerem para sairmos desta fogueira ardente que ameaça consumir-nos.
Há no espetro político português figuras que deveriam ser banidas de uma vez por todas, figuras ridículas e mesquinhas que não merecem representar nem as pedrinhas da calçada.
Ressabiados uns, enraivecidos outros e outros, ainda, para os quais uma grande confusão poderá evitar aborrecimentos maiores nos julgamentos que, se as coisas correrem bem, não poderão deixar de ser feitos a tantas coisas por que são responsáveis, em vez de contribuírem para o esforço comum de que Portugal necessita para ressurgir, parecem apostados em gerar a confusão que, em vez disso, o perderá.
Assim, em vez dos filhos tais que, um dia, fizeram ditosa a Pátria, como o Poeta cantou, restar-nos-á lamentar estes filhos que desditosa a Pátria fazem!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O QUE É A DEMOCRACIA AFINAL?


Depois de tantos anos de uma revolução que a implantou em Portugal, parece-me, por tanta coisa que leio e vejo, ainda haver quem não saiba bem o que é Democracia.
O mais frequente é ser confundida com uma liberdade sem limites, a qual tudo consente sem que possa ser impedido ou recriminado.
Não me parece que seja isso a democracia, como não é tantas outras coisas com as quais é confundida, no que os políticos são hábeis manipuladores de “realidades” que da realidade não fazem parte.
Ninguém pode apelar a uma liberdade total porque há limites naturais e democráticos impostos pela liberdade dos demais. Não é democrata, pois, aquele que a reclama, o que julga ser seu direito fazer seja o que for, mesmo se contrário ao bem comum. E este bem não há como interpretá-lo de modos diferentes porque se trata de uma noção clara que a sociedade há muito interiorizou.
A democracia exige cada vez mais conhecimentos que nos impeçam de atitudes contrárias ao objectivo de qualquer sociedade, o qual só pode ser a felicidade possível. A democracia tem, pois, uma moral própria de respeito pelos direitos dos outros.
Não me sinto muito surpreendido com algumas coisas que vejo porque jamais esqueci o que vi no dia 26 de Abril de 1974.
Encontrava-me em Lourenço Marques para onde desloquei a minha actividade profissional para evitar uma terceira chamada ao serviço militar quando já era pai de três filhos. Era professor na Universidade Local.
No dia 26 de Abril de 1974, ao deixar a minha mulher junto ao local onde trabalhava, dei conta de alguém que estacionava o carro com as rodas em cima do passeio, o que naquela bem ordenada e ordeira cidade era coisa jamais vista.
Ao ser-lhe feito o reparo por um polícia que o ia multar pelo erro cometido, escutei do infractor esta explicação extraordinária: “Óh amigo, isso era ontem. Hoje estamos em democracia”!
Francamente, o meu entusiasmo pela revolução esfriou bastante.

AS LIÇÕES DO PASSADO


Quando muita gente, cada vez mais gente já reconhece que o consumismo é responsável pelos maiores problemas da Humanidade em que as alterações climáticas, a degradação ambiental e a escassez de alimentos, além da cada vez maior falta de recursos naturais indispensáveis para o manter, questões que deveriam balizar as nossas atitudes com vista a um futuro equilibrado, como pode ainda haver quem o louve, dizendo-o a causa da expansão do Bem-Estar da Humanidade que não parou de crescer desde 1946?
Assim pareceu de facto, ainda que, perante as dificuldades que agora vivemos, apenas lhes possa restar a esperança de regresso a um passado que não tem condições para voltar a ser realidade.
Olhar o passado é uma atitude importante para dele extrairmos as lições indispensáveis para não cometermos no futuro os erros que antes cometemos porque, se o não fizermos, estamos, com certeza, condenados a repeti-los.
Mas é indispensável saber interpretar as coisas, colher os ensinamentos certos dos resultados das análises e das experiências que fizermos.
Na actividade de investigação, na qual passei diversos anos da minha vida profissional, era costume contarmos aos mais novos uma anedota que tinha como objectivo lembrar-lhes a importância das interpretações que fazemos.
“Se arrancarmos uma pata a um gafanhoto, o colocarmos no chão e lhe pedirmos para saltar, ele salta! Se o mesmo fizermos arrancando, sucessivamente, mais patas, ele continuará a saltar, ainda que fazendo saltos menores. Mas se ao arrancarmos a última pata lhe pedirmos para saltar, ele não salta. Conclusão possível: sem patas, o gafanhoto fica surdo!”
Esta anedota patética é difícil de esquecer e, por isso, obrigar-nos-á, sempre, a ponderar as conclusões que tiramos das experiências que vivemos ou dos factos que conhecemos.
Olhar para a abastança do passado que, como sabemos, a necessidade de crescimento continuado para manter a economia cada vez mais aumentou, poderemos pensar que este Planeta tem recursos infinitos e, por isso, nada impedirá a continuação deste modo de vida regalado. Porém, parece mais razoável pensar que, neste sistema finito que é o Planeta que habitamos, acabaremos, um dia, por exaurir os recursos de que o consumismo necessita para se manter e que da abastança passaremos a uma vida de míngua.
Mas nem sequer necessitaremos de invocar a razoabilidade para tirar as conclusões mais certas depois de termos visto como cresceram e estoiraram os maiores bancos e as enormes empresas americanas que acenderam o rastilho desta crise que incendeia o mundo. Poderemos, perante estas realidades que a Economia Devoradora tenta disfarçar, continuar a pensar que as “bolhas” podem crescer indefinidamente sem estoirar?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CEGO MESMO É O QUE NÃO QUER VER


Ainda não percebi se são menos dotados de entendimento ou mal intencionados, mas ouvindo estes analistas que logo se empertigam para criticar seja o que for e para debitar palpites que, afinal, não são nada, fico com a impressão de que nem sabem bem do que falam.
Mas piores do que eles me parecem ser os "moderadores" que lhes sugerem os temas e, mesmo até, os espicaçam com perguntas em que fazem renascer ideias ou casos que já deviam estar mais do que esclarecidos e sanados. Sei que é função deles a provocação que cria “casos” que são a sua razão de ser, a causa da sua existência, mas, não raras vezes, dão provas de uma pobreza de imaginação que só nos pode deixar estarrecidos.
Passos Coelho, conscientemente ou não, disse há tempos que teríamos de “empobrecer”, o que, se ele pensou em baixar o nível de vida que levámos sem poder, até níveis compatíveis com as nossas capacidades, lhe dá toda a razão. Mas se o disse na esperança de um dia os voltarmos a recuperar, então estará tão equivocado como tantos que tardam em ver a realidade de um mundo que, longe de equilibrado, está a cair na mais profunda agonia económica alguma vez sentida. É a situação característica de um fim de ciclo!
Andamos há muito tempo a falar dos graves problemas da Grécia, da Irlanda e de Portugal sem nos recordarmos já da origem de todos os seus males, dos crimes económicos cometidos nessa enorme economia que os gerou mas os encobre, os Estados Unidos da América!
Para além disso não reparam, sequer, neste mal do qual ninguém se cura e que alastra nesta Europa onde nem só os “periféricos” dele sofrem.
A Espanha começa a seguir um caminho que todos já por aqui conhecemos, com medidas nas quais deposita esperanças de alívio rápido que, sabemo-lo bem, não irá acontecer.
Outros países se seguem e seguirão, o Chipre, a Itália, a França e mais outros também, sucessivamente, numa progressão que nada nem ninguém conseguirá evitar, ainda que alguns países a consigam retardar pelas enormes potencialidades de grandes mercados internos que ainda podem explorar, como são os casos da China, da India, e um pouco o Brasil onde os crescimentos económicos já se ressentem fortemente do drama mundial em que todos participamos.

O ESTADO DA NAÇÃO


Começo por dizer que, por ter a certeza de um futuro em que os desperdícios de ontem se não poderão repetir porque os recursos são escassos, acato as medidas de austeridade que me são impostas e tento adaptar-me a um tipo de vida que não ultrapasse o que a realidade consente em condições equilibradas. É este o único apoio que posso dar ao governo que, estou certo, sabe, como eu sei, que jamais o passado será recuperado e as leviandades do consumismo não mais serão possíveis, sendo melhor, por isso, que nos preparemos para viver o nível de vida que as circunstâncias permitirem.
O debate de hoje sobre O Estado da Nação não me desiludiu rigorosamente nada! O governo fez o seu papel e as oposições fizeram os seus.
O governo não pode fazer muito diferente daquilo que faz, o PS deu, uma vez mais, uma triste nota daquilo que é e o passado comprovou, o PCP não podia ser diferente do fóssil em que há muito se tornou e a esquerda radical não perdeu o pendor folclórico que lhe é próprio e que, para além de irresponsável, é monótono e chato!
De duas coisas me ficou o medo: daqueles que, pelas dificuldades que sofrem, se possam deixar equivocar pelos chavões dos que ao dizerem defender os seus interesses nada mais fazem do que garantir a sua própria sobrevivência política e do oportunismo de outros que, pela sua força corporativa, insistam nas greves destrutivas que a mais austeridade ainda nos obrigarão.
Por isso, instigados por ideias que, como classe culturalmente evoluída deveriam ter recusado, insistiram os médicos numa greve oportunista que nada tem de hipocrática por ser, apenas, hipócrita porque, em nome dos interesses dos doentes que dizem defender, nada mais fazem do que prejudica-los, defendendo os seus.
Desta oportunidade, saiu enfraquecida uma oposição que o país necessitaria que fosse forte, dando de si uma triste nota de falta de sentido de Estado.
Este é o lado mais escuro e preocupante do Estado da Nação!

domingo, 8 de julho de 2012

ONTEM FUI À FEIRA


Desta vez não deixei a Feira do Artesanato acabar sem ir visitá-la. E fiquei contente por ter ido.
Que excelentes artistas que temos. Vi arte autêntica em todos os domínios e gostei tanto que, não fora esta crise que nos retira tanto poder de compra, teria vindo bem carregado para casa.
Mesmo assim, ainda comprei umas coisitas, uns doces regionais, mais dois leões para a minha colecção e um S. Pedro que, desde que alguém me partiu o que comprei em Portalegre e do qual muito gostava, fazia falta na minha prateleira.
S Pedro é um santo muito especial para mim. Nasci numa Freguesia que tem o seu nome, em Manteigas; é o Homem das chaves do Céu e, por isso, convém ter como amigo, sobretudo se o fogo dos infernos nos assusta; dizem, também, que é quem, lá de cima, manda chover. Como a minha especialidade, em engenharia, foi hidráulica, em particular hidráulica fluvial, dava-me jeito ter por amigo o responsável por aqueles fenómenos aleatórios que tentamos prever e causam as cheias e as secas que nos põem a cabeça à roda! Pois é, aprendi que nunca chove o que se deseja e, por isso, a água é, sempre, de mais ou de menos. Por isso pedia ao santo que mandasse uma chuvinha bem chovida, como dizem as pessoas do campo lá na minha Serra.
Este ano estou farto de lhe pedir que acabe com esta seca que tanto prejuízo está a causar, mas ele não me ouve. Sei lá se a idade, tal como a mim, também a ele o afeta e lhe tornou duro o ouvido…  Ou então será porque o não tinha perto de mim.
Pois bem, já tenho de volta o meu S. Pedro com quem gosto de conversar. Veremos se agora me escuta!
Agradou-me encontrar, no meio de tanta coisa, algo da minha Terra, algo do que de bom por lá se faz e já é bem conhecido por esse mundo. O já famoso Burel de Manteigas que a Microsoft escolheu como um dos materiais para decorar a sua moderníssima sede em Lisboa!
Mas tive pena de não encontrar outras coisas tão boas que por lá há, também. Mas não vi. Quem sabe de uma próxima vez…
Percorri com cuidado a feira e lá no último pavilhão encontrei o Rancho Folclórico de Oliveira de Azemeis, uma Vila simpática da Beira Litoral, próxima de Ovar. Fiquei um bocado a vê-los dançar e a ouvi-los cantar porque me recordaram coisas da minha infância. Aqueles tons e aquelas batidas eram as de então. As cantigas fizeram-me recuar dezenas de anos no tempo. Cantaram a Tirana e, até, outra que me lembro de brincar em danças de roda com os amiguinhos de então. A música ainda me estava no ouvido mas a poesia era diferente. Era assim:
Ó Margarida moleira,
Dá-me da tua farinha,
Que eu a quero peneirar
Com a nova peneirinha…
Em Manteigas, cantávamos assim:
Ó videira dá-me um cacho,
Ó cacho dá-me um baguinho…
Esqueci o resto da quadra. Mas posso completá-la assim:
Como é pr’ó meu amor,
Dá-me o que for mais docinho!