ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

A TRISTEZA DE RONALDO



Lembrando tantos milhões que o futebol movimenta, pagando por um homem aquilo que os seus méritos humanos não valem, quando uma notícia me diz que tristeza de Ronaldo são os 2,4 milhões de euros que as novas regras do fisco em Espanha lhe vão retirar, porque acima de rendimentos superiores a 600.000 euros por ano a taxa de IRS passa de 23 para 43%, fico com vontade de não ver mais futebol.
Será que as diversas mansões e tudo o mais que conseguiu ainda tão jovem lhe não bastam, mesmo se quiser todas as mulheres fúteis que há no mundo e se degladiam estupidamente no face book ou para se sentir um privilegiado em relação a 99,9% dos mortais deste mundo, muitos dos quais morrem de fome?
Não é que eu esperasse que o Ronaldo tivesse discernimento bastante para entender a distância entre o seu valor e a de um cientista qualquer como, por exemplo, o português que, há muito pouco tempo descobriu como melhorar a eficiência da quimioterapia e pode, com isso, salvar muitas vidas e poupar muito sofrimento e não ganha em 5 anos o que Ronaldo ganha num mês, quanto mais com um Einstein de quem nunca alguém ouviu falar de fortuna!
Depois disto imaginem o que penso dos que endeusam esses craques da bola e até são capazes de privações para lhe permitir que recebam os muitos milhões que recebem.
Carreiras de curta duração? Serão para alguns para os quais os Ronaldos deste mundo se estão nas tintas. Mas para eles, os muito pagos, é mais do que o rendimento das vidas inteiras da imensa maioria, acumulado em poucos anos. Assim com que “pago à cabeça”!
Valerá a pena sermos preocupados se ser fútil dá melhores resultados?

DE NOVO A GESTÃO DO ESTADO



Depois de aqui ter abordado, ainda que ao de leve, a questão da qualidade da gestão de que o Estado é capaz, surge esta notícia perfeitamente brutal neste tempo de vacas magras: “Contas do Sector Empresarial do Estado (SEE) voltaram a derrapar no primeiro semestre, apesar do aumento de 5,3% nas receitas e do corte de 73,8 milhões nos custos com pessoal. E o endividamento disparou para 30,6 mil milhões”.
A notícia diz mais que “as perdas reportadas pelo SEE estão muito concentradas no sector dos transportes, que acumulou até Junho prejuízos de 748,6 milhões de euros. O ranking das empresas com piores resultados é liderado pela Metro de Lisboa, com perdas de 296,9 milhões no semestre. Seguem-se a Metro do Porto (-247,5) e a CP (-125,3)”, enquanto outras geraram lucros, porém de valores menores, como no caso dos CTT (+37,3), da Águas de Portugal (+35,7) e ANA (26,4).
Esta questão do sector dos transportes públicos merece uma análise muito cuidada devido à sua função social que me não parece ter vindo a ser bem assumida com a desorganização bagunceira da qual neles nos damos conta.
Tal como em qualquer dos sectores sociais, como na Educação e na Saúde, também nos transportes a gestão deve ser feita de modo rigoroso e não com a permissividade habitual naquilo que é considerado uma obrigação do Estado. Isto significa que os investimentos devem ser os adequados à satisfação das necessidades, os meios não devem exceder os que a boa qualidade dos serviços prestados requer e a exploração deve ser feita com base nas melhores formas que a tecnologia permitir e a experiência ditar!
Os resultados deverão reflectir, por isso, a melhor relação entre custos e serviços prestados, do que resultarão preços de utilização optimizados mas correctos, os quais deverão servir de guia às comparticipações do Estado para os tornar os transportes acessíveis à generalidade dos cidadãos.
A função social dos transportes não poderá ser desculpa para aligeirar o modo de gerir o sector ou para o tornar o albergue que acolhe afilhados e amigos cujo número aumenta a cada governo que passa!
Este é um dos aspectos negativos da alternância “democrática” de poder que só a transparência e o rigor poderão minorar.
Quanto a mim, os transportes do SEE não devem dar prejuízo, como qualquer empresa bem gerida o não deve dar. Para isso será necessário separar, de modo claro, a sua gestão e as comparticipações do Estado consoante os casos e as circunstâncias.
A bagunça em que têm sido administrados tem como resultados benefícios para alguns e prejuízos para todos nós!
Finalmente e porque a situação plenamente o justifica, é indispensável esclarecer a razão pela qual a situação de prejuízos no SEE tanto se agravou neste primeiro semestre de 2012.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

QUESTÕES DE FORMAÇÃO E DE EXPERIÊNCIA



Um trabalho da jornalista Maria Martins, publicado no Expresso, tem como introdução “Perguntamos a alunos, professores e especialistas se era benéfico fazer uma paragem a meio do curso para ganhar experiência profissional e desenvolver competências que não se aprendem na universidade. A resposta é sim”.
A autora do trabalho cita o caso de alguém que, depois de três anos do curso de Administração e Gestão de Empresas da Universidade Católica, resolveu envolver-se no mercado antes do mestrado, no que foi e está a ser muito bem sucedido.
Depois de “Bolonha” cuja intenção não parece ser mais do que aumentar a “produtividade” das escolas que produzem doutores em vez de melhorar a qualidade da preparação dos futuros profissionais, o “ensino empacotado” apresenta, quanto a mim, diversos inconvenientes que se reflectem na formação final e na qualidade do seu trabalho.
Em primeiro lugar saliento, na maioria dos casos, a excessiva redução do tempo ao fim do qual alguém é dado como apto para o exercício de uma profissão que exige formação superior. A aquisição de saber precisa de tempo de maturação que os cursos comprimidos lhe não proporcionam. Decerto por isso é considerada boa prática “dormir sobre o assunto” quando se trata de tomar decisões mais difíceis. O tempo é indispensável na experiência que do saber também faz parte.
Depois, um drástico empobrecimento dos currículos reduz a área do conhecimento global dos “especialistas” que um dado curso produz, os quais, deste modo, têm à volta do seu conhecimento específico enormes lacunas de saber que lhe não permitem um relacionamento fácil com “especialistas” em outras matérias.
Finalmente, uma total falta de planeamento que torne claros projectos de futuro para que não haja investimentos em formação distorcidos em função das necessidades. Por exemplo, para que não haja cada vez mais professores quando o número de alunos, ano a ano, se reduz!

FUGIR COM O RABO À SERINGA…



A declaração que se atribui a um membro da Troika sobre a não responsabilidade nas políticas de ajustamento adoptadas pelo governo e, por isso, na mais do que provável falha nas previsões feitas para os resultados das medidas de austeridade a que o sobre-endividamento obrigou, é a atitude própria dos não são capazes de assumir responsabilidades que também lhes pertencem.
Se não é co-responsável nas medidas de austeridade adoptadas e nos resultados das que foram por si impostas como condição para a ajuda financeira que lhe foi pedida, o que será que a Troika vem aqui fazer regularmente? Anotar os resultados de experiências em situações que os economistas deixaram de dominar, como se fôssemos cobaias que sacrificam ao esclarecimento de uma crise para a qual não têm explicação?
É evidente a intromissão da Troika na governação dos países que se propõe ajudar, mesmo que seja sob a forma de propostas que as condições de dependência criadas não permitem recusar. Veja-se a mais recente que propõe à já mais do que exausta Grécia que a semana de trabalho passe de cinco para seis dias! Esta, depois de muitas que, aos poucos, reduzem a independência dos “ajudados” pelo seu cínico altruísmo.
Parece evidente que mais um resultado negativo daí resultará numa sociedade onde a falta de empregos é já mais do que aflitiva.
Meu Deus, quanto tempo ainda teremos de esperar ou quantos sacrifícios mais teremos de fazer até que os economistas entendam a situação que vivemos e acertem no caminho a seguir?
Será que não fazem falta outros saberes no esclarecimento desta situação em que os economistas se embrulharam?

sábado, 1 de setembro de 2012

SERÁ A GESTÃO PRIVADA MAIS EFICAZ DO QUE A PÚBLICA?



Francamente, pensei que, com este governo que se propôs restaurar o país deixado em cacos por sucessivas governações incompetentes, não havia lugar para joguinhos como este da RTP que Relvas joga com uma leviandade enervante. Nem sequer entendo por que Relvas, desprestigiado e sem autoridade política, continua a fazer parte do governo que, aos poucos, se está a deixar arrastar para uma descredibilização que, no seu todo, não me parece merecer!
Mas há um outro aspecto sobre o qual prefiro reflectir hoje, ainda que ligado ao da RTP pela afirmação de não ser o Estado tão capaz de fazer uma tão boa gestão como os privados conseguem fazer.
Não conheço razões que façam com que, obrigatoriamente, seja assim. Mas conheço algumas razões que levam a que, muitas vezes, o seja.
Uma razão importante é que a Coisa Pública, sendo de todos, dificilmente permite a autoridade que é indispensável nos diversos níveis das estruturas de gestão, talvez sendo por isso que o povo diz que “o que é de todos não é de ninguém”.
Outra razão será a ambição que gera invejas que geram procedimentos de intriga que o ambiente da função pública favorece.
Finalmente, uma cultura de irresponsabilidade bem transparente no dito corrente nos meios da função pública de que “ninguém pode ser condenado por aquilo que não fez”.
Aliás, as tomadas de decisões na função pública são, em muitos casos, caracteristicamente irresponsáveis como se deduz no tradicional remate “mas V Exa superiormente decidirá”…
O temor da responsabilidade ou a permissividade do que é pouco controlado geram atitudes de alheamento ou de aproveitamento que, de um modo geral, na actividade privada séria não passam sem consequências.
Seja como for, não são estas razões para que, em vez de as eliminar e substituir por procedimentos correctos, se aceitem como justificação para procedimentos que são, eles próprios, a rejeição das responsabilidades que, também na gestão da coisa pública, temos o dever de assumir.