ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O CASO SNOWDEN, ATITUDE PATRIÓTICA OU TRAIÇÃO?


Tenho reflectido muito sobre a atitude de um jovem de nome Edward Snowden que se escapou dos Estados Unidos para denunciar o programa de vigilância das comunicações de telefone e Internet por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA).
Começo por pensar que tipo de vigilância fará aquela agência que, quase por certo, é aquela que, nos Estados Unidos, mal eu coloco um texto no meu blog logo a ele acede. Sempre em primeiro lugar e tão rápido quanto um foguete. Mas duvido que alguém leia o que escrevo, assim como o que tantos escrevem sobre os mais diversos assuntos, públicos ou privados, depois de uma primeira identificação. Obviamente, não me sinto nada controlado por isso, até porque se escrevo e publico, é porque desejo que leiam. Além disso, também não exponho a minha vida na internet. Portanto, não será este o aspecto que me preocupa nesta questão complicada que tem, por um lado, a privacidade das pessoas e, do outro lado, os elevados riscos a que estão expostas em operações combinadas e controladas por telefone ou pela internet, como foram as que mataram e mutilaram muitos milhares de pessoas em Nova Iorque, em Madrid e noutros lugares, deixando inconsoláveis talvez milhões de pessoas que perderam os seus amigos e entes queridos.
Pelo que a “agência” diz, deduzo que o controlo não envolve, pelo menos em princípio e pela quantidade de meios que seriam necessários, os conteúdos das comunicações mas apenas as suas origens e destinos, as frequências com que acontecem e outros parâmetros que possam evidenciar a necessidade de ir mais longe na procura de indícios de preparação de atentados, dos quais é tanto dever dos Estados defender as pessoas como a de respeitar a sua privacidade.
É evidente que, a cada instante, as contradições se multiplicam neste mundo cheio de interesses cada vez mais numerosos e estranhos e que dúvidas essenciais se colocarão quanto a este tipo de acções em que se confrontam os valores que protegem e os direitos que desrespeitem.
São coisas típicas destes tempos que vivemos, problemas que se juntam a tantos outros que nos afectam também e tornam o futuro da Humanidade cada vez mais incerto. Como típicos são os aproveitamentos que destas coisas se fazem, num mundo de política que tem tudo menos de limpa.
O facto de Baltazar Garzon ter decidido não intervir na defesa dos interesses de Snowden depois de estudar o dossier é, também, uma informação que não desprezo na avaliação da bondade ou da maldade de um acto cujo alcance ainda não atingi.
(desta vez leram, pois foi?)

terça-feira, 25 de junho de 2013

O VALOR DE MERCADO!

A notícia de que alguém “…vai regressar à comissão executiva da Caixa Geral de Depósitos, de onde saiu há dez anos com uma indemnização de mais de meio milhão de euros, por indicação do Governo” faz-me acreditar, por muitas coisas que vi ao longo da minha vida que, ao contrário do que é costume dizer, não são as moscas que mudam. Sempre as mesmas, vão e vêm, poisando na caca que mais lhes dê jeito.
Como é possível, no todo de um país que, embora pequeno, ainda tem cerca de dez milhões de habitantes, se restrinja a um número tão reduzido o dos únicos que são julgados capazes de desempenhar certas funções, precisamente as mais lucrativas? Sobretudo naquele tempo em que, como dizia uma amiga minha “o melhor emprego era mudar de emprego”, sair e receber uma indemnização era normal fazer isso para aumentar os rendimentos. Agora as indemnizações são menores e desencorajam a prática ao comum mortal que, depois, nem teria emprego alternativo. Mas para quem pertence ao grupo dos “únicos capazes”, ganha elevados salários e não tem qualquer dificuldade em recomeçar a trabalhar ainda melhor remunerado depois de umas merecidas férias, saltar daqui para ali continua a ser um bom negócio.
Quando cada vez maior se torna o fosso entre os salários milionários, os que são parcamente remunerados para não desequilibrar os orçamentos e, ainda mais, os que nem sequer ganham para comer, coloca-se a questão do “valor de mercado” que, não há ainda muito tempo, vi alguém invocar para justificar o salário “pornográfico” que lhe iriam pagar por mais um tacho que juntou ao seu “trem de cozinha”.
Não viverei o bastante para ver o que vai acontecer neste mundo em que há gente “cotada na bolsa” como outra mercadoria qualquer e não sente o menor remorso em amealhar no cofre tanto que a outros falta para, ao menos, matar a fome! Mas que não irá ser nada de agradável… penso que não será.
Já vivi muito para ver caca demais. É natural que deixe para outros a oportunidade de a ver também. Mas a verdade é que preferia que vissem um mundo mais limpo…   

domingo, 23 de junho de 2013

O QUE ESTÁ EM CAUSA, A DEMOCRACIA OU O FUTURO?

Não é Mário Soares que me preocupa mas sim a leviandade de quem toma como boas as ideias que ele debita, radicadas num passado que nada tem de comum com o presente, porque entre os dois momentos aconteceram coisas de que Soares dá mostras de se não ter apercebido.
Vida quer dizer mudança e são os desequilíbrios que geram o movimento. Por isso, um segundo apenas e muita coisa mudou, quanto mais nas dezenas de anos que distam da paragem do seu pensamento político!
Só para Soares as coisas deveriam ficar sempre iguais. Pois bem, que viva no seu mundo e abdique daquele que é dos outros, dos que fazem da mudança a sua vida ou, melhor dizendo, ajustam às mudanças do mundo a vida que vivem.
Porventura, nem uma só das razões que ditaram as regras da democracia que Soares gostaria de ver perpetuada ainda persistem. São as que nos levam a crer que as coisas podem ser como quisermos que sejam, mas, na verdade, chegou o momento de serem como a Natureza as impõe, no que apenas uma diferente atitude democrática nos poderá conduzir sensatamente.
Creio eu que não será já na sua vida nem, até mesmo, na minha, que tal verdade será reconhecida, tantos são os interesses, financeiros ou as casmurrices ideológicas, que remam contra a maré do tempo que, depois de várias ondas que foram “ultrapassadas” com esbanjamentos que as foram tornando sucessivamente maiores, envia agora uma em que o mundo poderá enrolar-se, definitivamente. É isto que a história da "economia" nos mostra e a impotência de superação desta crise mais reforça.
Diz Soares que somos uma “pseudodemocracia”. Engana-se na definição porque a realidade mostra que somos uma “democracia desajustada”, fora da realidade das coisas, ignorante de um mundo onde os excessos de meios para satisfação de caprichos acabaram, restando, agora, os bastantes para vivermos com dignidade se, para isso possuirmos inteligência bastante.
A democracia não é o nosso projecto de futuro. O autêntico projecto de futuro só pode ser a sobrevivência da Humanidade ameaçada por crises cada vez mais violentas se não se conformar com a vida que o seu Meio lhe pode proporcionar e a sua inteligência pode tornar melhor, na condição de não cometer mais excessos.

sábado, 22 de junho de 2013

E O SOCILALISTA É SOARES…



Prestei atenção ao que, numa entrevista ao Expresso, disse o ex-Presidente da república Ramalho Eanes e notei uma profundíssima diferença entre o que ele, ponderadamente, afirma e os incitamentos, quase histéricos, implícitos no discurso recente de Soares que clama pela demissão imediata do governo.
Fico-me por aqui na comparação que poderia fazer entre estas duas personalidades, das quais, curiosamente, o “socialista” é Soares!
Obviamente, ninguém poderá sentir-se bem neste estado que as desequilibradas finanças públicas e privadas do país nos obrigam a viver, mas este facto do qual não se poderá culpar o actual governo é uma realidade a que urge dar um fim. Tem sido dolorosa a solução que, como sempre sucede, poderia ter sido melhor. Mas numa “crise” diferente das do passado, para a qual a “ciência económica” ainda não encontrou solução, não serão de estranhar hesitações e erros de previsão como acontece, aliás, por esse mundo fora.
Até em França, onde o ídolo de Seguro governa, acontece o mesmo, erros de previsão e recessão que não estavam nos seus cálculos.
Mais doloroso seria desperdiçar os sacrifícios já feitos em nome de falsas alternativas baseadas em mudanças significativas de um cenário exterior global que não mudará facilmente, o que Soares não consegue ver e Seguro finge não ver porque tal não convém às suas ambições de poder.
Por sua vez, Eanes perfilha a que tem sido a minha exigência de sempre, um esforço regrado pela justiça e pela equidade.
Completamente distintas as posições de dois ex-Presidentes da República que, por certo, se não regem pelos mesmos princípios morais e sociais. E o “socialista” é Soares…

O CINQUENTENÁRIO DA PONTE DA ARRÁBIDA E O CENTENÁRIO DE EDGAR CARDOSO



Faz hoje cinquenta anos que a Ponte da Arrábida foi inaugurada, poucos dias depois daquele em que se completaram cem anos desde o nascimento de quem a concebeu e projectou, o Professor Edgar Cardoso.
Fui seu aluno e tenho o gosto de haver merecido a sua amizade pessoal que, pela sua vida muito ocupada, não pude usufruir tanto quanto gostaria.
Recordo aquele sexto e último ano do curso de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico quando o Professor tinha como maior preocupação aquela maravilhosa obra de engenharia que era o cimbre do majestoso e elegantíssimo arco de betão armado que foi, então, o de maior vão em todo o mundo! Construí-lo e, depois, ripá-lo para a betonagem do arco paralelo, foi a parte mais delicada e engenhosa de todo o projecto que levou a engenharia portuguesa ao topo da engenharia mundial.
Falou-nos desta sua obra nas aulas, com o entusiasmo próprio de quem falava de um filho muito querido que lhe fazia perder muitas noites de sono. Parecia-me que, de cada vez que falava do projecto lhe surgia uma ideia nova, imaginava uma forma diferente de por em prática o que pensava. Afinal, Edgar Cardoso era assim mesmo pois, tal como de viva voz um dia me disse, cada vez que terminava uma obra sabia, exactamente, como não faria a próxima.
Era um engenheiro muito especial, o mestre de uma engenharia cujo princípio fundamental era não ter princípios invioláveis, não ter preconceitos. Com ele aprendi a por tudo em causa e, apesar de me não ter dedicado a estruturas, pois preferi a hidráulica, foi a sua atitude irreverente, não acomodada e de insatisfação constante que sempre me orientou.
Das vezes que nos encontrámos, uma das últimas foi numa ida ao Porto onde ele ia visitar a obra da ponte do Freixo. Convidou-me a segui-lo e suei as estopinhas para o acompanhar subindo e descendo andaimes, apesar dos mais de vinte anos que separavam as nossas idades. No regresso a Lisboa, no combóio, a nossa conversa foi, tinha de ser, sobre engenharia. Agradável e complicada, como sempre.
Entre muitas coisas que poderia recordar, vou terminar com um episódio que ficou célebre e foi do conhecimento público, o da pala do velho Estádio de Alvalade, no qual a sua opinião divergia da dos que entendiam estar aquela estrutura em más condições de estabilidade. Apesar daqueles “saltos” do velho Professor em cima da pala para mostrar que tudo estava bem, o reforço acabou por ser feito. Na dúvida, pareceu-me sensato, mas seria natural que, quando a pala foi demolida, houvesse interesse em esclarecer se as baínhas e os cabos de pré-esforço da pala estavam em boas condições, como o Professor garantia, ou se o reforço feito era, ou não, necessário.
Eu morava ali ao lado e preocupei-me em verificar se alguém por isso se interessou. Ninguém! Tenho pena porque é assim que o saber progride. O Professor, se ainda fosse vivo, tê-lo-ia feito. Com certeza.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

MAIS UM



As soluções chegam em revoadas. Agora diz-se que a solução é esta para depois se dizer que afinal…
A política de austeridade fez a sua marcha, reconheceu-se a sua bondade na estabilização de uma situação financeira totalmente desequilibrada, mas os seus efeitos negativos, óbvios se a par dela mais nada fosse feito, levam agora os “sábios” a dizer que foi uma política errada.
Alguém, depois da situação em que caímos, saiu à rua a gritar “temos de trabalhar mais” para sair desta crise? Não! Saíram à rua todos os que quiseram dizer que não era a austeridade que queriam mas sim, que queriam de volta o que com ela perderam. Saíram à rua os que sentiram ter perdido os efeitos que “conquistas” democráticas lhes alcançaram, manifestaram-se os que perderam o emprego que tinham por garantido e agora não conseguem recuperar.
Enfim, todos sabemos o que tem acontecido e que tem feito as coisas irem de mal a pior, a ponto de ficarem uma trapalhada que cada vez é mais difícil de compreender.
Aparece agora um académico, Reitor da Universidade de Lisboa, a dizer que “desemprego jovem é a morte a prazo da sociedade”!!! Uma frase bombástica dita por alguém com um título sonante, de nada mais precisa para ser destacada entre o que seja quem for disser.
Mas os académicos não costumam dizer coisas assim. São mais profundos nas suas análises para poderem chegar às raízes das questões, a única forma científica que conheço de chegar á verdade possível.
Um verdadeiro académico não começaria por colocar o desemprego jovem como causa de qualquer coisa. Falaria das causas do desemprego jovem e do fenómeno social do qual provém, esse, sim, causa de problemas graves para o futuro, por isso o mal que se deve combater.
Mas se um académico deseja ser político, é natural que pense como os políticos que nunca são capazes de pensar como os verdadeiros académicos.
É o oito ou o oitenta! E lá está mais um que, pelo que diz, não parece trazer nada de novo, está a ser promovido pelos meios de comunicação social para ter um lugar proeminente na política nacional! Será mais um.
Que miséria!

UM SINDICALISMO VELHO E RELHO…

Continua diferente do habitual este mês de Junho . Fazem-no diferente este tempo estranho que não é Primavera, nem Inverno, nem Verão e mais toda esta agitação que, noutros tempos, se devia, apenas, às festas populares. Desta vez, mal nos apercebemos delas pela pouca cobertura mediática que estão a ter. Foi esta desviada para outros temas mais quentes, onde os notáveis não são o Santo António, o São João ou o São Pedro. São outros os nomes que andam na baila. São os de quem comanda as greves que prometem fazer da memória deste ano lectivo um terror para os muitos milhares de alunos a quem os seus professores proporcionaram uma péssima época de exames e um ainda pior começo de férias.

Como é habitual, há sempre umas contagens que dão ás greves aquele jeito de guerra em que uns ganham e outros perdem, fazendo do número dos que aderiram à greve a medida da “vitória” alcançada pelos sindicatos que sempre “ganham” por muitos.
Mas nunca, como é sabido, a soma dos aderentes e dos não aderentes corresponde a 100%. Nunca! É uma tabuada especial a que usam uns e outros que a aplicam na contagem que façam.
Mas, desta vez, as contas fazem-se de outra maneira. Por exemplo, na greve a um exame terá sido de 90% a adesão dos professores, mas de menos de 20% foram os seus efeitos em número de alunos que não puderam prestar provas. Como se "mede" esta greve? Quem ganhou? Não sei, mas os alunos perderam, com certeza!
Mas se consideramos a greve às avaliações, já as coisas se passam de outra maneira. A percentagem dos aderentes é mínima, direi, até, que residual, mas as consequências quanto ao alcance dos propósitos é de cem por cento! Basta, em cada reunião, um professor grevista para que a reunião não possa acontecer! E, deste modo, por duas horas de greve, as avaliações não são feitas. Estas são como aquelas greves que se fazem nas horas de ponta, em momentos especiais que mais danos causam aos utentes dos serviços, aqueles que nada podem fazer para as evitar, mas que, alegremente, as sofrem porque são democráticas!
São raras, quase inexistentes as greves tradicionais que opõem patrões e funcionários. Mas tornaram-se demasiadamente frequentes as greves no Estado, com atitudes e pormenores do tipo a que habitualmente se chama o “tiro no pé” porque são greves que os sindicatos fazem contra o povo trabalhador que dizem defender, contra todos nós que teremos de pagar os prejuízos que as greves causarem.
Ouso perguntar onde estará a lógica da greve que uma “corporação” qualquer entenda fazer e prejudica todos os demais, à qual se seguirá outra greve de uma outra “corporação” que, por sua vez, inclui nos afectados os que antes tinham feito greve e assim sucessivamente, até todos prejudicarem todos? Afinal, acabarão por ser derrotas para todos, deixando para os líderes sindicalistas as vitórias retumbantes, os motivos de regozijo a que, quer-me parecer, os prejudicados cada vez menos se associam!
Mas são vitórias dos líderes, afinal os únicos a quem a greve não afecta senão na medida em que lhes dê prestígio!
Não me parece que tenham saído muito prestigiados os professores nas greves que fizeram e continuam a fazer, como me parece que, aos poucos, começará a acontecer regularmente quando o povo se der conta do logro em que está a cair, quando todos nos apercebermos de que há outros modos, bem menos penosos para todos, para se conseguir bem mais do que as greves agora podem conseguir.
Tal como entre os políticos, também entre os sindicalistas me parece haver necessidade de um novo ciclo com novos actores!
Há que repensar o futuro, substituir esta “cultura democrática” que alguns mais do que nunca agora invocam e endeusam, quando outros argumentos já não têm para continuar a manter uma forma de vida que os beneficia mas que a sociedade está cada vez menos disposta a sustentar.
Mas um dia aparecerá, pela certa, o tal ingénuo que, por ingenuidade, dirá que o rei vai nu. E, depois, todos verão que vai.