ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

sexta-feira, 4 de março de 2016

35 HORAS, O ESTRANO LIMITE



Continuam as críticas e os louvores ao Orçamento de Estado do novo governo no qual, pessoalmente, encontro motivos para umas e para outros.
Ideias diferentes são sempre de louvar, mas julgar que, só por isso, são melhores do que outras quaisquer é uma leviandade temível, por isso digna de crítica negativa. Costuma ser o caminho para o disparate.
É por isto que as críticas acontecem quando, para demonstrar a bondade das alterações que se façam, se dão razões que nem a estupidez aceita!
Por exemplo, a propósito do horário da função pública que o novo governo quer que seja de 35 horas semanais em vez das anteriores 40h que os sindicalistas consideram corresponder a um esforço excessivo e sobrehumano, a par da reposição dos cortes salariais a que a austeridade que se seguiu à folia de gastos excessivos deu sentido, é natural pensar que disso resultem custos que desequilibrem o balanço orçamental cuidadoso que a nossa fragilidade financeira exige.
De facto, reduzir o horário de trabalho quando se clama a falta de meios humanos bastantes para executar todo o trabalho necessário, obrigará, por certo, a horas extraordinárias que os trabalhadores existentes não poderão fazer por motivos de exaustão ou a contratação de novos funcionários, do que resultará uma maior quantidade de trabalho que será paga pelos salários que a redução dos cortes tornou mais elevados.
Como poderá não haver, no cômputo final, um significativo acréscimo de despesa? Só em contas de uma aritmética diferente daquela que me ensinaram.
Já um ministro contabilizou em várias dezenas de milhões de euros o acréscimo da despesa que tal medida provoca no seu ministério, o que levou alguém, no Parlamento, a colocar a questão ao ministro das finanças que se comprometera a reduzir o horário de trabalho se, da sua aplicação, resultasse neutra a influência na despesa. Ao que o Ministro respondeu que este era o resultado da verificação feita em apenas um ministério, que a de outros poderia equilibrar!
Não vejo como. Mas também nada me diz que Centeno não possua uma varinha mágica como nunca se viu outra ou use uma tabuada diferente. E se for assim…
Mas a propósito deste horário de trabalho de 35 horas semanais em vez das 40h que os trabalhadores não aguentam, eu recordei-me do meu horário de trabalho enquanto ainda jovem estudante de engenharia no Instituto Superior Técnico.
Às 34 horas do horário escolar de então, acrescente-se um mínimo de uma hora de estudo por dia, o que perfará as tais 35 h que alguém considera o limite máximo das capacidades dos adultos trabalhadores da Função Pública.
Mas estão a gozar comigo?

A PONTE – UMA TERRÍVEL EFEMÉRIDE



Há 15 anos caiu a ponte Hintze Ribeiro sobre o Rio Douro, lançando nas águas revoltas da sua enchente e atirando para a morte dezenas de seres humanos que, confiadamente, por ela transitavam.
Ao Estado compete garantir a segurança das infra-estrutras que constrói, o que deveria ser penhor de segurança.
Tanto já escrevi sobre este infausto acontecimento que mal ficaria insistir para dizer o mesmo quanto às razões que levaram a uma tragédia que ainda hoje me comove!
A Engenharia Portuguesa não ficará bem no retrato que a história fará deste acontecimento pelo modo como procurou as suas razões, como também a política portuguesa não ficará bem recordada, pela ridícula demissão de um ministro das Obras Públicas que, possivelmente, jamais fez ideia do que realmente seja uma ponte para além do que dela possa ver e menos ideia faria, ainda, das razões que a fizeram ruir.
Num aparecimento patético na televisão, com um discurso sem sentido e com a única razão de que “a culpa não pode morrer solteira”, o ministro demitiu-se! E lavou as mãos do assunto.
Talvez por isso, alguém que me pareceu ansioso por sair do lugar incómodo que ocupava, resolveu “casar com a culpa”
E nunca mais a culpa foi encontrada.
Assim, uma razão de ser não muito difícil de explicar, tornou-se num quebra cabeças ridículo que a engenharia portuguesa não soube esclarecer.
Afinal, o que fez cair a ponte Hintze Ribeiro?
Já dei a minha opinião por diversas vezes, até mesmo neste blogue.
Por isso não o farei de novo.
Apenas presto a minha homenagem às vítimas de um acontecimento evitável e que, por isso, jamais deveria ter acontecido.
A minha simpatia vai, também, para as famílias e para os amigos que os perderam e que, tal como eu, os não esquecem.

quinta-feira, 3 de março de 2016

ENTRE MARIDO E MULHER…



Ler ou ouvir esta notícia, “No ano 2015 foram assassinadas 29 mulheres em Portugal e houve 39 tentativas de homicídio, sendo que a esmagadora maioria dos crimes - 87% - foram cometidos “pelas mãos daqueles com quem mantinham ou tinham mantido relações de intimidade”, lê-se no Relatório Anual Final do Observatório de Mulheres Assassinadas, da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR)”, só pode deixar-nos, para além de horrorizados, cheios de indignação que a observação de certos casos extremos torna ainda maior.
Em Inglaterra, uma mulher, mãe de três filhos, farta de tanto terror e sofrimento ao longo de muito tempo, decidiu acabar com o silêncio e mostrar fotografias que que revelam uma violência brutal a que os filhos, também eles, eram expostos.
Mais conta a notícia que o marido, de 56 anos, autor das agressões e que até usou uma tesoura para violentá-la sexualmente dentro de sua própria casa, está preso e condenado a 10 anos de cadeia.
Perante isto, pergunto-me se, tal como nos casos de pedofilia, haverá pena que castigue o mal feito.
Dez anos de prisão será pena adequada a muito mais tempo de violência que magoou malvadamente a mulher e os filhos e destruiu as suas vidas?
Para além destes crimes que considero tão suavemente castigados, mesmo quando a violência conduz à morte, quantas mortes acontecerão em “suicídios libertadores” de quem já não consegue suportar mais as dores da agressão?
São crimes públicos que, parece, ninguém denuncia quando deles se apercebe, talvez porque continua vivo o velho princípio de “entre marido e mulher não metas a colher”.
Não defendo o castigo público que tamanhos horrores poderiam justificar, mas também não concordo com o tratamento frouxo que a Justiça dá a situações desumanas que tornam a vida de alguém num inferno que durará para toda a vida.
Parece que, neste domínio, haverá muito que não está ainda feito!

ENTRE A FÉ E A DÚVIDA



Parece que o Natal ainda foi ontem e já aí está a Quaresma que nos convida para uma reflexão profunda sobre nós próprios, a nossa razão de ser, a nossa origem e o nosso destino, a menos que à nossa sensibilidade baste sentir que somos meras coisas sem antes nem depois, sem razão de ser ou sentido.
É certo que cada vez menos nos basta acreditar no que esteja escrito, na Bíblia, no Corão, seja em que livro for porque a curiosidade científica não pára de querer saber o que, realmente, se passou.
Por outro lado, há vários modos de dizer as coisas, de interpretar o que se vê, dependendo do conhecimento que tenhamos para o fazer. Daí a necessidade de ter em conta o tempo em que foi escrito.
A Ciência tudo põe em causa. É por isso que investiga, procura, analisa e estuda, mesmo o que, até ali, se considere a maior verdade, para que o conhecimento avance, seja pela confirmação ou pela alteração da verdade que deixou de ser como era.
E, por ser este um caminho que bem conheço, não me deixa surpreendido que a existência de Cristo seja posta em causa e, mesmo até, a sua divindade.
Mas a Ciência não é fantasiosa porque a seriedade é a sua base, o que me não parece ser o que suporta tanta conclusão a que, por aí, se chega por caminhos estranhos onde não encontro razões que me convençam.
Por isso me vou ficando por dúvidas que, aos poucos, tento esclarecer porque não encontrei, ainda, maneira de me satisfazer com o tradicional “porque é assim”!
Tenho de sentir as coisas para as aceitar, mesmo quando não sou capaz de as explicar totalmente.
De uma coisa eu sei na minha ignorância do que sejam o infinito e a eternidade, é que do nada nada pode resultar e, por isso, algo haverá que seja a razão de ser de tudo quanto exista.
Aceito o princípio que me faz nascer da cinza e em cinza me vai tornar. Mas nunca aceitaria o de não ser mais do que isso, porque, como é costume dizer-se, "não nasci das tristes ervas" e sinto que tenho uma razão de ser, a força da qual resultou tudo aquilo de que me dou conta.
Chamem-lhe Deus ou o que seja! Mas existe. 
Se não existisse, para que serviriam as preocupações que tenho, as causas que defendo, os princípios que aceito e os comportamentos que adopto? 


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

E SE OS POLÍTICOS OLHASSEM PARA A REALIDADE?



Procuro razões para me sentir feliz com as alterações políticas que aconteceram em Portugal nos últimos tempos. Mas não as encontro porque não acredito nos faz-de-conta por que me dizem que Portugal irá mudar para melhor porque a austeridade vai acabar, em vez de me darem razões sérias e bem fundamentadas que me fizessem acreditar nos benefícios de uma política realista em vez de voluntarista como é esta que resulta de uma estranha mistura de ideias onde parece não caber a realidade que, por mais cegos que queiramos ser, está bem visível diante de nós.
Não me fazia feliz a política austera que o anterior governo adoptou para recuperar o país dos danos causados pelas políticas levianas antes adoptadas que a tornaram inevitável em consequência da situação financeira muito desequilibrada a que conduziram.
Foi um caminho duro que, como tantos outros, tive de percorrer mas que ainda não havia chegado ao seu fim, como a elevada dívida pública e o défice orçamental o demonstram.
Não cheguei a perceber qual seria o caminho que o governo a que chamam de direita nos levaria a percorrer depois de normalizada uma situação que se tornou incomportável. Seria aquele que a realidade do mundo em que vivemos consentiria ou seria o da mesma ilusão que esta esquerda persegue num mundo onde as coisas tanto mudaram sem que a política disso se desse conta!
Simplesmente, penso que se acabaram os tempos de tais distinções e confrontos esquerda-direita quando, perante as dificuldades que cada vez mais são maiores, é indispensável uma cooperação profunda e um total bom senso, sem os quais as dificuldades serão ainda maiores até, um dia, se tornarem insuperáveis.
Ensinou-me a vida que são as contas simples as mais fiáveis, as que mais rapidamente nos mostram a realidade que as complexas contas que vejo fazer apenas momentaneamente encobrem.
É por isso que me preocupo e não acredito nas contas de faz-de-conta que me impingem.
Tudo me diz que a desilusão virá depois quando, ignorando os sinais de uma realidade que cada vez se torna tão preocupante como um furacão, tivermos de enfrentá-la e sofrer os efeitos nefastos do mal que fizemos e que, possivelmente, nos pode merecer o mesmo destino de outras espécies que também fizeram parte da mesma Natureza a que pertencemos.
Continuaremos a seguir ao encontro do furacão que nos pode destruir?