ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

PORQUE O DINHEIRO NÃO SE COME…



Ontem fiquei a saber, num programa de tv em que opina Manuela Ferreira Leite, ex-ministro das finanças de Portugal, que um estudo do FMI concluiu que a dívida mundial era já dupla do rendimento global de um ano inteiro!
Se bem escutei, terá sido, até, o departamento chefiado por outro ex-ministro das finanças português, o que chegou a tão brilhante conclusão!
Até aqui falamos de dinheiro que tanto podemos mandar imprimir como mandar queimar, sem que disso decorra qualquer transtorno pois o dinheiro para nada mais serve do que para comprar algo que exista e corresponda ao seu valor.
Mas a questão resultante, aquela que deve surpreender, é para que servirá tanto dinheiro que não tenha o que comprar!
Existe o dinheiro que não se come, mas cada vez menos existe o que lhe dá valor.
Há muito que esta situação era inevitável, desde quando os cientistas alertaram, por volta da década de 70 do século passado, que se consumia mais do que a Terra pode produzir e introduziram o conceito de “pegada ecológica”, baseado no impacto que a actividade humana tem sobre os ciclos de reprodução dos recursos naturais, sobre a capacidade regenerativa da Natureza que explora.
Estando bem determinado que a “pegada humana” excede já em mais de 50% a biocapacidade do nosso Planeta, não vejo como será possível aumentar o rendimento que pagará a dívida que é, já, o dobro do valor do que o nosso Planeta pode produzir!
Mas igualmente importante é ter a noção de quem comprou, com a dívida que contraiu, o que exaure as reservas que a Natureza não pode repor ao ritmo a que se pretende continuar a explorá-las para que o famigerado crescimento continue.
Foi aquele mundo rico que pilhou as riquezas naturais dos mais pobres e em suas terras depositou os lixos, incluindo os tóxicos, que produziu, o mundo rico que lhes vende as armas com que se matam e obriga tanta gente a procura-lo, mas é escorraçada!
São as famigeradas migrações que não estamos a saber resolver e menos ainda saberemos no futuro, quando assumirem a forma de assalto desesperado!
Esta conclusão do estudo do FMI não é mais do que a descoberta de mais um factor a juntar a tantos que já sufocam a economia que os gerou, como a poluição, a toxicidade, a virulência, as super-bactérias, a ilhas de plástico, as mudanças climáticas o excesso de raios UV e tanto mais.
Cada vez me parece haver menos escapatória para a “tempestade perfeita!” que se está a gerar e que pode destruir a Humanidade.
É por isto que a minha maior surpresa é ter ouvido, no programa que comecei por referir, esta pergunta sem sentido “e porque não diz o FMI ou alguém o que devemos fazer para repor o crescimento de que necessitamos?”
Eu respondo: porque não sabe e porque não é possível.
Quando muito continuarão a fingir que não vêem e, durante algum tempo ainda, fingem que a economia cresce até que a borrasca nos caia em cima.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

REORGANIZAR A ONU, REORGANIZAR O MUNDO!



É certo que o apoio de um país a um compatriota que se candidatura a um cargo como o de Secretário Geral da ONU é importante. Seria, até, anormal não acontecer.
Mas tal atitude insere-se mais no anterior processo de influências do que na decisão acertada de dar à competência o valor que tem e ser por ela que a escolha se faça.
Independentemente de qualquer valia que a diplomacia portuguesa possa ter tido, incluindo os discursos de Costa e de Marcelo na ONU, não poderá ter passado da insistência num processo de escolha claro e transparente em vez dos “cozinhados” ou das rotações regionais que, antes, conduziam à escolha do que não seria, necessariamente, o melhor.
Mas, na hora da escolha, o mérito foi todo de Guterres que, nas suas intervenções, não deu azo a quaisquer dúvidas àcerca ser o mais capaz de conduzir uma organização da maior importância para a estabilidade do mundo, reformando-a, modernizando o seu modo de actuar, repondo a credibilidade que foi perdendo, impondo a força moral que deve ter, não deixando para o que possa acontecer a solução dos problemas que, como cogumelos, nascem por todo o mundo.
Não pertenço ao grupo dos crédulos para quem “tudo se há-de arranjar”. Sou dos que sabem que não acontece o que nos convém que aconteça se deixarmos, simplesmente, acontecer!
Os resquícios dos antigos hábitos de conluio notaram-se bem na escolha mais do que inoportuna de Merkel que convence uma tal  Kristalina Georgieva, búlgara e Comissária da ONU a fazer a triste figura de, como disse Marcelo, querer ganhar a maratona começando a correr a 100m da meta.
E o resultado foi um patético 8º lugar para quem aparece a dizer “atenção, por que eu sou a melhor”, com 8 desencorajamentos, contra nenhuns para Guterres!
Mas é enorme a tarefa que Guterres terá pela frente, desde a reorganização da própria organização que vai chefiar até questões como a guerra na Síria e outras guerras regionais, a crescente actividade terrorista a vaga de refugiados, a intensa degradação ambiental, as alterações climáticas, etc, para o que os procedimentos tradicionais da ONU não encontraram soluções.
O embaixador russo Vitaly Churkin, na declaração que fez quando, em nome do Conselho Geral que lidera e depois de indicar a inequívoca escolha feita, afirmou esperar que o organismo recomende o nome de António Guterres "por aclamação".
Neste momento faltarão 2 horas para que aconteça.
E, assim, as minhas preocupações ficam minoradas pela esperança de que alguém em quem deposito confiança, as possa sossegar.

DO ATOLEIRO À ONU



Lembro-me do Engenheiro Guterres ainda um simples deputado do PS cujas intervenções me seduziam.
Pouco fugia à sensatez que eu sempre esperei ver nos políticos que, esperava eu, deveriam ser sérios e bem informados para poderem governar, em vez de “guerrilheiros” do poder, indiferentes ao que, na realidade, se passa no mundo.
Guterres aprendeu ao longo da carreira que fez, e que é, afinal, a forma como os verdadeiros sabedores aprendem.
Soube argumentar e ganhar o poder, primeiro como Secretário Geral do PS (1992-2002) e, dpois, como Primeiro-Ministro (1995-2002), cargo que, depois, abandonou, creio eu por verificar que as promessas que o permitem agarrar são incumpríveis e que as “manobras” a que obrigam podem levar ao “atoleiro político” pelo qual não quis ser responsável.
Quem sabe, não se deu conta da incapacidade de vencer as forças dos ambiciosos que, na verdade, são o poder que explora o mundo que, como pode verificar nas funções que exerceu na ONU, aprofundam as desigualdades cruéis que resultam dessas ambições que o dominam.
Num mundo em que os verdadeiros políticos são raros, muito raros até, o que eles próprios começam a reconhecer, a ONU decidiu, desta vez, seguir uma caminho diferente para escolher o seu Secretário Geral. Não o das conveniências geo-políticas, mas o da competência, aquilo de que o mundo mais necessita.
E de nada valeram as interferências do actual e quase inútil secretário geral que quis influenciar as regras da sua substituição, nem as monobras Merkelianas que a Europa começa a conhecer melhor e a precaver-se contra elas.
Sinceramente, julgo a tarefa de Guterres extremamente difícil, quase insuperável no mundo desorganizado em que vivemos.
Um relatório da ONU que Guterres vai chefiar diz: “confrontando a desigualdade nos países em desenvolvimento mostra que 1% da população mais rica concentra mais de 40% da riqueza global, e que mais da metade da população pobre detém apenas 1% dos recursos. Os dados do Banco Mundial mostram que 20,6% da população mundial era pobre em 2010 – ou seja, 1,2 bilhão de pessoas. Essa realidade é reflexo da manutenção da desigualdade e da população pobre no mundo”.
É evidente que este é um mundo sem futuro, uma situação que não poderá perpetuar-se e, por isso, a curto prazo criará sérios problemas, do que as migrações para a Europa são uma primeira e pálida amostra.
De que será Guterres capaz?
Que Deus e o seu saber e experiência o ajudem na difícil tarefa a que foi chamado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

BASTA DE MENTIRAS A LINGUAGEM DURA DO FUTURO. POBREZA EXTREMA OU MORTE LENTA?



Uns contam tostões, talvez imaginando o que poderão fazer com eles
Outros encontram no caixote do lixo aquele baixo rendimento que caracteriza a "pobreza extrema"
Também há quem, aproveitando em lugares públicos a luz que em sua casa não têm, tentam lutar contra a pobreza.





Não sei muito bem do que me falam quando me afirmam que mais de 800 milhões de pessoas ainda vivem, no mundo, em “pobreza extrema” e me apontam 1,9 US dólar (cerca de 1,7 Euro) como o valor máximo de que essas pessoas dispõem, por dia, para viver. Será pouco mais de 50 euros por mês!
É assim que o Banco Mundial define a pobreza extrema que, afirma, atingia 1,1 mil milhões de pessoas em 1990, há cerca de 30 anos.
Numa linguagem apropriada para atenuar o horror que é a pobreza, o BM afirma que “É notável que os países tenham continuado a reduzir a pobreza e a impulsionar a prosperidade partilhada numa altura em que a economia global tem um fraco desempenho, mas ainda há muitas pessoas a viver com demasiado pouco».
Que parcela de prosperidade partilharão os países ricos com aqueles em que o BM considera viver com muito pouco, aquela situação em que de fome e de sede se morre a todas as horas?
E fazem-no a troco de que? Das agressões ambientais que provocam com a extracção das riquezas que lhes pilham?
Com quanto viverão, agora, os 330 milhões que, desde 1990, o BM conseguiu tirar da pobreza extrema? Dois ou três euros por dia?
Conclui o BM, no seu último relatório, que “a menos que se retome um crescimento global mais rápido e que se reduza a desigualdade, poderá falhar o objectivo do Banco Mundial de eliminar a pobreza extrema até 2030”.
Tudo isto quando, tarde e a más horas, os patrões do mundo descobrem o buraco em que estão metidos e querem apressar medidas de contenção que não sei como vão impor e vêm com muito mais de meio século de atraso perante os avisos que os que se dedicam a estudar o mundo em que vivemos lhes fizeram?
E é neste momento que penso ser mais do que a hora para falar a dura verdade do futuro que o mundo enfrenta pois, enquanto a realidade nos dá conta de que a economia global dia a dia mais se fragiliza, fazer depender um projecto de eliminação da pobreza extrema de um crescimento global mais rápido e da redução das desigualdades, não passa de uma utopia inultrapassável, perante o acumular das limitações naturais que o próprio crescimento gerou.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A MORTE DO PLANETA AZUL?



Agora que alguns dos países signatários do Acordo de Paris sobre aquecimento global resolveram empenhar-se na sua ratificação para que, o mais depressa possível, possa ser posto em prática, agravam-se as perspectivas de um aquecimento mais intenso, porventura impossível de conter dentro de limites razoáveis.
A Assembleia da República Portuguesa tratou o assunto e o que escutei a alguns deputados é a prova da sua ignorância sobre este problema seriíssimo que põe em causa o futuro da Humanidade.
Na realidade, os efeitos do aquecimento global que, ainda há bem poucos anos eram postos em causa por pseudo-cientistas, porventura “aliciados” para desvalorizar o fenómeno que tantos problemas cria à economia consumista, são agora bem evidentes nas elevadas temperaturas que, quase decerto, levarão a terra a bater, pelo terceiro ano consecutivo, o seu record anual de temperatura média global desde que há registos de temperatura comparáveis, iniciados em 1880.
A cada ano que passa, sentem-se bem os acréscimos de temperatura que equipas de cientistas analisam cuidadosamente, incluindo o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, da ONU, que afirma que, afinal, o aquecimento global está a acontecer a um ritmo mais elevado do que o previsto. A afirmação é de Robert Watson, antigo presidente do Painel.
Na conferência de Paris, realizada em Dezembro de 2015, foi fixado o objectivo de limitar a 1,5ºC o acréscimo de temperatura média global desde a época pré-industrial.
Mas em 2015, cerca de 200 anos depois, a diferença era já de 1ºC, quando em 2012 era de apenas 0,85ºC, o que corresponde a 0,25ºC em 3 anos, um ritmo muitíssimo superior ao anterior.
Além disso, o número de fenómenos com valores extremos aumentou nos últimos anos, tendo duplicado desde 1990, alterando profundamente as estatísticas habituais e as características climáticas ao longo do ano.
Conforme um relatório das Nações Unidas de 2015, crêem os cientistas que, mesmo que todos os países signatários do Acordo de Paris cumpram os compromissos fixados para limitar a subida da temperatura ao valor fixado, as emissões de gases com efeito de estufa não diminuirão o suficiente durante os próximos 15 anos.
Sendo assim, o objectivo de limitar a 1,5ºC o acréscimo médio global da temperatura desde a era pré-industrial afigura-se praticamente impossível e já estará, provavelmente, superado já em 2030!
O degelo que fará subir demasiado o nível dos oceanos, a temperatura que se tornará dificilmente suportável e até mortal para muita gente, os incêndios florestais, a destruição de ambientes naturais preciosos e tantos outros efeitos, serão as consequências das leviandades de uma sociedade egoísta e ambiciosa que nem perante a realidade se convence dos perigos fatais que está a correr.
Oiço demais falar em combater o capitalismo sem que me digam o que o substituirá, aumentar o consumo sem me dizerem como fazê-lo sem agravar a situação ambiental já tão grave que o seu crescimento gerou, de direita e de esquerda que querem lá saber destas desgraças mas apenas do poder que disputam e jamais oiço os políticos discutir o futuro da Humanidade que está em risco.