ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O ASSÉDIO



Toda a vida ouvi dizer, desculpem-me o excesso, que “subir na horizontal” era o modo mais fácil de alcançar o sucesso, de fazer carreira, mesmo sem os talentos que a arte requer, mas com outros que melhor satisfazem certos desejos de quem a pode facilitar.
Seria assim e, muitas vezes ou em certas profissões, paga-se a ambição com a satisfação das taras de outros.
Infelizmente é assim. Tudo tem um preço, afinal.
Poucas vezes as coisas se passam como a naturalidade o faria supor, mas do modo como, à boca pequena, se dizia e se diz que alguns sucessos foram alcançados.
Tornou-se natural ser assim e, por isso, poucos mais comentários merecem os sucessos dos que para eles não contribuíram com o mérito mais adequado.
As coisas eram assim e… pronto! Era pegar ou largar.
Era uma situação vulgar, um assunto encerrado, até que alguém a quem a fama já permitia devaneios, se lembrou, e vá-se lá saber por que, que era altura de fazer saber dos assédios, há tanto passados, dos que podiam abrir as portas do sucesso.
E não tardou muito para que a denúncia se tornasse moda.
Depois, as denúncias foram à desfilada, como se ninguém quisesse ficar atrás neste corrupio que, de algum modo, trás fama também.
A lista de quem foi assediado cresceu a cada dia que passava e a dos assediantes também.
E os assédios sexuais, fossem as circunstâncias quais fossem, tornaram-se notícias constantes.
Mas o que nunca esperei foi ler um título bem destacado, a dizer que “António Lobo Antunes revela ter sido assediado por professor de Religião e Moral”, como se tal tivesse alguma importância na vida de um tão excelente escritor!
E quase me senti defraudado nesta corrida de famosos porque nunca fui assediado. 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

VAMOS CONTINUAR A USAR SACOS DE PLÁSTICO?



Tenho ouvido falar na intenção de proibir os sacos de plástico não biodegradáveis, daqueles que, a cada dia, se consomem aos milhões para transportar as compras feitas nos supermercados e outras coisas.
É verdade que o plástico dá muito jeito, é de uma utilidade enorme, mas há muito que se tornou numa praga que faz do mundo um verdadeiro e perigoso caixote do lixo.
Leve, barato, adaptável a variadíssimas utilizações, o plástico tornou-se praticamente indispensável e é, por isso, dos materiais mais utilizados no dia a dia.
Ocupa, pois, um lugar cimeiro no lixo que produzimos e do qual, depois, temos de nos desembaraçar, simplesmente deitando-o no chão, nos rios, nos lagos, no mar ou depositando-o em lixeiras a maioria sem controlo.
Porque a sua decomposição necessita de um longo período de tempo, centenas de anos, é fácil encontrar restos de plástico em qualquer lado. Como o mar acaba por ser o depósito final de tudo que as escorrências sobre os continentes arrastam, a quantidade de plástico que nele se acumula é já imensa, formando enormes ilhas flutuantes nos vários oceanos, cuja área se mede já por milhões de quilómetros quadrados.
Os plásticos vão endurecendo, dividindo-se em partículas menores, algumas tão pequenas que se misturam com o plâncton de que os peixes se alimentam, assim originando problemas directos que afectam e vão destruindo o seu aparelho digestivo e indirectos que derivam da toxicidade que acumulam no seu corpo que, mais tarde, pode fazer parte da nossa alimentação.
Os seres vivos aquáticos encontram-se, pois, vulneráveis aos plásticos, sobretudo o de menores dimensões que se acumulam nos seus corpos com a água que aspiram para respirar ou engolem quando se alimentam de peixes menores.
Até os peixes e em outros seres vivos marinhos de grandes dimensões que acumulam, nos seus corpos, quantidades enormes de plásticos, medindo-se por muitas centenas de quilogramas a quantidade de plástico que tem sido encontrada e carcaças de baleias, por exemplo.
Os cientistas investigam os riscos dos microplásticos que são graves, desde a redução nutricional que a destruição do sistema digestivo dos animais provoca, assim como a acumulação de toxinas que afecta a reprodução das espécies.
Já são graves e muito bem visíveis os problemas causados pela redução das quantidades pescadas pela redução das populações aquáticas, a qual não resulta apenas das quantidades crescentes de pesca imposta pelas necessidades alimentares de uma população cada vez mais numerosa, mas também pelos efeitos da toxicidade dos plásticos que afecta os processos biológicos do crescimento e da reprodução destes animais.
A enorme acumulação de plásticos nos oceanos não tem apenas estes efeitos referidos mas contribui, também, para a redução da sua capacidade de absorção de dióxido de carbónico que, conjuntamente com a excessiva redução das florestas húmidas, faz crescer a sua concentração na atmosférica, o que aumenta o efeito de estufa que é causa das alterações climáticas que já tantos danos nos causam.
Estou certo, porém, que não será ainda durante a minha vida que, apesar dos riscos sérios que dela resultam, se acabará com a utilização dos sacos de plástico.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

É URGENTE RECUPERAR O TEJO, CUSTE O QUE CUSTAR



Mesmo sem a certeza absoluta que só as análises podem determinar, a influência da rejeição de águas residuais das celuloses, quer porque são cerca de 90% das que são feitas naquele troço do rio, além da muito elevada carga orgânica que contêm, era a causa mais provável da poluição elevadíssima que se verificou no rio Tejo.
E foi isso que ouvi no vídeo que o Sr Arlindo Marques colocou na net, o que lhe valeu a reclamação de uma elevadíssima indemnização – dizem-me que de 650.000 euros – por levantar falsos testemunhos, já que a celulose não era, de todo, a causa do que acontecia na “morte do Tejo”.
Há dezenas de anos, quando o meu caminho para “casa” por ali passava, já a poluição produzida por aquela indústria era bem notória no ar e na água, com uma população conformada pelos empregos que proporcionava e com uma floresta onde o eucaliptal ganhava espaço a olhos vistos.
Estas coisas podem diluir-se ao longo de algum tempo, mas sempre chegará um dia em que os limites são atingidos e as consequências impossíveis de continuar a aguentar.
Numa notícia que agora leio, a Celtejo abriu as portas à comunicação social para dar conta da nova estação de tratamento de águas residuais que melhorará a qualidade dos efluentes rejeitados no Tejo, com isso demonstrando os seus cuidados com o Ambiente e, ao mesmo tempo, fazer uma demonstração da sua inocência no drama que o Tejo e as gentes que dele vivem suportam com a situação de elevada poluição criada.
Curiosamente, a Agência Portuguesa do Ambiente, em consequência de análises químicas a que procedeu, foi muito clara na afirmação de serem os efluentes das fábricas de celulose os responsáveis, pelo menos maiores, na situação verificada, apesar de outras análises ainda a fazer a utilizadores menores do Tejo como receptor final, dada a enormíssima quantidade de caudais descarregados.
A indústria da pasta de papel tem sido influente na economia portuguesa, mas, pelas consequências que têm, tanto na floresta como no meio hídrico, não sei se ela é positiva ou negativa no que aos interesses de todos nós diz respeito.
Finalmente, é quando uma nova estação de tratamento está para começar a funcionar, a qual, acredito que ainda que tarde e a más horas pudesse minimizar os efeitos das descargas, que as condições de emissão impostas deverão ser alteradas, tendo em vista as variações de caudais que as alterações climáticas estão a causar.
Também no que diz respeito à floresta, as extensas áreas de eucaliptal são prejudiciais à estabilidade das camadas freáticas que afectam de modo excessivo, tornando mais graves as consequências das secas que, porventura, serão cada vez mais severas.
Finalmente, as consequências na vida do Tejo e na economia de tanta gente que dele vivia.