ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

NO TEMPO EM QUE OS ANIMAIS FALAVAM

Nas cada vez mais chatas, repetitivas e pouco imaginativas discussões na Assembleia da República é mais do que certo, quando o governo é acusado por ter feito (ou não ter feito) isto ou aquilo, ouvir-se uma resposta que, de tão velha, já tem barbas: O senhor não se lembra de, quando o seu partido era governo, ter feito (ou não ter feito), ter dito (ou não ter dito) isto ou aquilo?
Logo me vem à lembrança aquela cena de uma fábula em que o lobo mau, já sem outros argumentos, acaba por acusar o inocente cordeiro: se não foste tu foi o teu pai!
E eu que pensava que já não vivíamos nos tempos em que os animais falavam… ou vivemos?
Que doloroso é ter de escutar estes desagradáveis diálogos de surdos para no fim ficarmos a saber que vamos ter de pagar mais impostos!
Será que estes senhores não sabem, mesmo, fazer melhor?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

QUEM É CULPADO DA CRISE QUE FAZ AUMENTAR O DESEMPREGO, QUE FAZ AUMENTAR A POBREZA, QUE...

É mais do que óbvio que o desemprego vai continuar a aumentar, como diz a Senhora Ministra do Trabalho; E vão continuar as falências de empresas, como poderia dizer o Senhor Ministro da Economia; Como vai aumentar o número dos que a cada dia vão sentindo mais e mais dificuldade em satisfazer as suas necessidades mais básicas, como poderia dizer, também, a Senhora Ministra da Solidariedade Social; Como tantas outras coisas desagradáveis vão acontecer e das quais a “crise” será sempre culpada. E, sendo assim, de quem poderemos queixar-nos? Da Senhora Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social? Do Senhor Ministro da Economia? Do Senhor Ministro das Finanças? Do próprio Senhor Primeiro-Ministro?
Deixem-me pensar… quem será que origina as crises? Os milhões que se deixam seduzir pela publicidade agressiva e enganadora que é consentida e consomem, consomem, consomem, mesmo que disso não tenham necessidade ou aqueles que têm por obrigação estar atentos e não deixar a economia resvalar por caminhos perigosos mas que, por palavras e por obras, até a incentivam a ir por aí?
Portugal, o país com maior densidade de auto-estradas da Europa, quiçá do mundo (!), onde há mais telemóveis a funcionar do que habitantes, que outras estatísticas de grandeza consumista colocam nos topos, está a ficar de tanga.
Por culpa da crise? Obviamente, dirão os Senhores Ministros da Economia, das Finanças, do Trabalho e da Solidariedade Social, o Primeiro-Ministro!
Quem será o “sacristão” que diz “amen”?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

É NO APROVEITAR QUE ESTÁ O GANHO...

Um dito que tantas vezes ouvi à minha avó nos tempos difíceis da minha infância, mas que hoje, tanto ou mais do que então, se justifica.
Li que o Presidente da República havia afirmado que "um país que não consegue explorar(*), sustentavelmente, os seus recursos naturais é um país que tem um futuro limitado e que se arrisca a acabar por ver esses recursos serem explorados por terceiros". E não posso estar mais de acordo porque, afinal, num mundo tão carenciado ninguém tem o direito de ser perdulário ou esbanjador.
A verdade, porém, é que desperdiçamos demasiado e, pior do que isso, adquirimos, sem o sermos, hábitos de ricos que nos levaram a esta situação de penúria em que nos encontramos.
Desde há muito tempo que deixamos certas actividades para os outros, para os imigrantes, talvez convencidos de que somos bons demais para fazer certos trabalhos que consideramos menores. Há muito que abandonamos os campos porque é duro o trabalho de arrancar o sustento da terra. Há muito que…
Vai ser um esforço árduo para arrepiar caminho e voltar aos velhos hábitos de trabalho e de poupança, ao aproveitamento do que temos, incluindo uma vasta parte do território continental e do mar que temos abandonados.
Portugal é um país a precisar de um povo que o saiba engrandecer, que seja capaz de, aproveitando o que o seu país tem para lhe dar, criar boas condições de vida.
Todos nós precisamos de perder o mau hábito de pensar nas “obrigações” que julgamos que todos têm para connosco, de superar com trabalho as ajudas que recebamos e de acabar com as lamúrias ridículas com que, por tudo e por nada, reclamamos apoios para fazer seja o que for!
A grande verdade é que é do fruto do nosso trabalho que teremos de viver e não das ajudas que, por esmola ou solidariedade, nos possam dar.
É fácil compreender porque estamos em crise e porque continuaremos em crise, apesar de o governo se ver forçado, pelas circunstâncias, a perder as atitudes de novo-riquismo que têm caracterizado a sua governação.
(*) prefiro, por mais adequado, o termo aproveitar. Porém, o “sustentavelmente” que se lhe segue, reencaminha para o aproveitamento.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

POUCA-TERRA, POUCA-CABEÇA...

Sou beirão e gosto da minha Terra como de nenhuma outra.
Mas gosto muito do Alentejo, também.
Gosto daquela terra imensa ensolarada de que um poeta disse um dia “não tem sombra senão a que vem do Céu”.
Ali me deliciei apreciando pedaços de maravilhas em Évora, em Monsaraz em Marvão… ; Extasiei-me com as revelações de passados mais ou menos distantes em dolmans, menhires e ruínas romanas;
Vi, no Badocha, animais selvagens um tanto fora de contexto, mas...;
Em Serpa comi queijo que me fez lembrar o da minha Serra, gosto de migas e até como gaspacho se não tiver pepino;
Adoçam-me a alma os cantares daquelas gentes a quem uma simples rama de oliveira tão artisticamente inspira!
Mas a serenidade desta terra será, em breve, sacudida pela velocidade estonteante de um TGV em cuja construção urgente alguém insistiu porque a aparência de sucesso a isso obrigava. Ou talvez não, porque o troço que já constroem pode não ligar, tão cedo, a coisa nenhuma.
Mesmo assim, o Alentejo ganhará um novo motivo de atracção, um lugar extenso onde, como em miúdos, poderemos correr ao longo dos carris gritando: pouca-terra, pouca-terra, pouca-cabeça, pouca-cabeça… talvez para esquecermos as dores de um “orçamento” de cortes profundos e impostos violentos que, por estes "pequenos luxos", as famosas empresas de “rating” nos impõem para não tornarem ainda mais caro o dinheiro que cada vez menos temos.

sábado, 18 de setembro de 2010

ORGIAS DE TEMPO PERDIDO

Pergunto-me, muitas vezes, quantos prejuízos, para o país, resultam das casmurrices dos políticos para quem tudo se avalia em termos de vitória ou de derrota pessoal, pelo que se envolvem em disputadas batalhas verbais, sem cuidar de saber dos danos que, pelas confusões que geram e pelo tempo que desperdiçam, todos possamos sofrer.
Na maioria dos discursos em que é evidente a preocupação de mostrar que o outro ainda é pior, raramente alguém se afirma pela positiva e ninguém se dispõe a ceder às exigências de um esforço para alcançar o bem comum que, apesar disso, todos dizem ser seu propósito alcançar.
É quase hilariante assistir a uma discussão política que, aconteça onde acontecer, não raras vezes mais parece uma conversa de surdos ou de tontos, com as questões envolvidas por floreados que as deturpam, as respostas iludidas com despropositadas afirmações que não consentem refutação e conclusões que a nada conduzem. Não passa, por isso, de verborreia estéril, de tempo precioso perdido em desatinos, de distracção dos problemas reais que o país necessita ver urgentemente encarados e resolvidos, porque o futuro não espera.
É, algumas vezes, uma “malhação” idiota que substitui a discussão séria de ideias e de problemas sérios que os deviam preocupar.
É este o grande problema da herança do parlamentarismo disraeliano, quando o grande político era aquele que conseguia provar o impossível de provar, defender o indefensável e, assim, alcançar o objectivo pessoal ou partidário pretendido, muito aplaudido por uma multidão descuidada que vibra com estas diatribes que a distraem dos problemas reais.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O HOMEM DO PÍFARO!

Não é fácil, olhando para um animal ou para uma planta, vê-los crescer em pouco tempo. Mas com a dívida portuguesa é diferente, pois cresce mais num minuto do que eu consegui amealhar em toda uma longa vida de trabalho.
Por isso, quando leio nos jornais, vejo nas televisões, escuto no café e no barbeiro que a dívida atinge valores exorbitantes, que pagamos os juros mais altos pelo dinheiro de que necessitamos, que o perigo de ruptura é cada vez maior e que a intervenção do FMI já está próxima… confesso que fico preocupado. Preocupado demais, tão preocupado que só me resta uma solução: acreditar em Sócrates e, como ele, ter a certeza de que é assim que Portugal vai crescer, gastando mais e mais, gastando o que não tem, o que não pode gastar e que exorbitam os alarmistas, porque tudo está controlado!
Fico aliviado mas, depois, vem-me à ideia uma “estória” que me contaram há muitos anos.
Há muito tempo, na Grécia antiga, uma enorme multidão assistia a uma peça de teatro quando deflagra um incêndio. A multidão precipita-se para as saídas mas uma voz forte e bem timbrada grita: acalmem-se, eu sou o Homem do pífaro!
A multidão acalmou mas as chamas não paravam de crescer. Uma vez e outra a multidão agita-se e tenta escapar mas sempre se ouve a voz que grita: acalmem-se, não tenham medo, eu sou o Homem do pífaro!
Mas as chamas acabam por provocar a derrocada do teatro de onde ninguém escapou…
Dois mil anos mais tarde, numas escavações e no meio de muita ossada, foram encontradas provas inequívocas de que, afinal, não era o Homem do Pífaro!


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O “ATAQUE” AO ESTADO SOCIAL: REPENSÁ-LO OU DEIXÁ-LO MORRER?

A Srª Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, foi muito clara na sua afirmação das dificuldades que ameaçam o Estado social como “os cortes de despesa pública nos países europeus demonstram…”
Mais diz a Srª Ministra que “os défices públicos estão a obrigar a repensar o financiamento” referindo-se ao Estado social que, sem qualquer dúvida, sentirá cada vez mais dificuldades até se tornar inviável, a menos que sejam encontradas novas formas para o viabilizar.
A comprová-lo está, por exemplo, a iniciativa do Ministério da Saúde que vai decidir mais uma descida administrativa nos preços dos medicamentos, ao mesmo tempo que fará baixar, também, o valor das comparticipações na sua aquisição, o que se somará à anulação dos benefícios fiscais com despesas de saúde que o governo anunciou.
Ana Jorge e o governo confirmam, deste modo, o que Gabriela Canavilhas havia afirmado, bem como tornam ainda mais claras as dificuldades do Serviço Nacional de Saúde que, além de não conseguir alcançar todos os seus propósitos nos cuidados de saúde que lhe compete prestar, não consegue evitar que aumente a sua já enorme dívida a quem o fornece.
Não é preciso ir mais longe para demonstrar como se tornou mais do que óbvia e urgente a necessidade de repensar o Estado Social para o não deixar morrer.
Sendo assim, como culpar os que pretendem repensá-lo de o quererem destruir?
Há muito que me não restam quaisquer dúvidas de que, para os políticos, fazer parecer que é, aquilo que lhes convém que fosse, é o artifício mais imediato perante dificuldades que se lhes apresentem. Por isso, não é essa atitude que me surpreende mas sim o facto de ela continuar a ter o bom acolhimento de um público distraído que não pensa o seu futuro porque só pensa no imediato.