ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

terça-feira, 6 de maio de 2014

O LINGUAJAR POLITIQUEIRO E O TOSSIR DA VACA

Ontem estive a ouvir um programa em que alguém do PS e alguém que o não era se confrontavam acerca do que teria ou não dito a ministra das finanças a propósito de uma “carta de intenções” que, com a saída da troika, o Governo português teria de enviar ao FMI.
Mais memorando para aqui e mais relatório da última avaliação para ali, sem esquecer o já famigerado DEO, o que seria, afinal, aquilo que a ministra disse? A discussão terminou, naturalmente, sem que os dois se entendessem e com a moderadora sem conseguir, a propósito da questão, demonstrar a equidistância que eu esperaria que tivesse.
Eu ouvi o que ministra disse e, como me pareceu que falou em português, entendi que a “carta de intenções” nada conteria para além do que, pelo que fora já dito, os portugueses já conheciam. Mais ainda e como é natural que a “carta” diga o óbvio que um credor quer garantido por quem tem para com ele uma dívida, não me pareceu que ela pudesse ser aquele problema bicudo que o alguém do PS entende que seja e, por isso, o quer esclarecido antes das eleições para o Parlamento europeu.
Será que o alguém do PS tem razão quando diz que o PS não fala por falar, mesmo sem explicar o porque de assim falar, ou apenas pretendeu lançar a dúvida que baralhará os eleitores de modo a beneficiar o seu partido nas eleições que se aproximam? Veremos se a “castanha” lhe não rebenta nas mãos… Sei lá.
Mais uma vez tive de concluir que, em política, o que se diz não é bem o que se quer dizer e lá vêem os “recados” nas entrelinhas que acabarão por ser o que o político discursante efectivamente quer dizer e os vários comentadores políticos traduzem cada qual ao seu modo. É um linguarejar estranho este que, tal como os camaleões, toma a cor que, na oportunidade, mais convier.
Mas, opinem os comentadores como opinarem, confundam os políticos os eleitores como melhor julgarem convir-lhes, a troika não sairá, efectivamente, tão cedo de Portugal porque existe uma dívida enorme que pretendem que seja saldada.
Este é, sem qualquer dúvida e diga Sócrates o que disser, o resultado da necessidade de a troika um dia ter entrado em Portugal porque nos endividámos excessivamente em consequência de uma política levianamente gastadora. E é isso que alguém do PS e alguém que o não é sabem perfeitamente.

Esperar de credores outra coisa é como que esperar que a vaca tussa! Mas a vaca não tosse e como é nisto que se baseia a proposta de governação do PS, melhor será esperar sentado.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A FADIGA DA ECONOMIA E UM POEMA DE AUGUSTO GIL

Ao longo das muitas dezenas de anos que levo vividas, sempre dei conta de fases de reajustamento à realidade que uma economia ávida de crescimento não consegue evitar. São as “crises” cujos intervalos, ao longo do tempo, vi passar de dez anos a cinco, a três, a um e até ao zero que faz esta “crise” parecer eterna.
À semelhança do que acontece com os metais que, submetidos a ciclos de esforço cuja frequência se aumenta, acabam por romper, também à economia deverá acontecer algo semelhante quando os intervalos curtos tornam frequentes demais os inevitáveis reajustamentos.
Mais do que isso, vi a amplitude das “crises” passar de confinadas a um país, a uma região ou a um continente, atingir a dimensão do mundo inteiro, como nesta que agora sentimos e faz lembrar um mal que, difícil de conter, se espalha por todo o corpo até lhe consumir a capacidade de viver.
De resto, porque haveria de ter a economia um comportamento diferente do que seja próprio da lógica natural se, até nas coisas mais vulgares, em muitas das quais pouco ou nem sequer reparamos, podemos encontrar os sinais da “fadiga” que conduz à ruptura?
Na sua “Balada da Neve”, Augusto Gil refere-se às marcas que, ao passar, os caminhantes deixam na neve que cai “do azul cinzento do céu”. Sei bem como é muito fria essa neve que tantas vezes pisei, como enregela os pés e as mãos e torna difíceis os movimentos, causando a dor maior aos mais desprotegidos.
“Por entre os mais”, prendem a atenção do poeta da Guarda os “traços” que “uns pezitos de criança” deixam na neve que se vai acumulando no caminho, “primeiro, bem definidos, depois em sulcos doridos porque não podia erguê-los”!

É a imagem que esta crise económica arrastada frequentemente faz revelar-se no meu espírito. Continua a tentar caminhar, mas as marcas que deixa já são os “sulcos doridos” que prenunciam a sua queda se não for aconchegada.


sábado, 3 de maio de 2014

OS PARADOXOS DO DESEMPREGO

Leio, no Expresso, a notícia de que “há 5737 ofertas de emprego que ninguém quer todos os meses” e, para além disso, da experiência do director executivo de uma empresa que afirma, a propósito das suas necessidades de contratar trabalhadores num centro de emprego no Alentejo: "apresentaram-me 900 pessoas potenciais interessadas. Pedi para fazerem uma triagem e propuseram-me 600. Insisti para que apurassem o processo de selecção e acabaram por me apresentar 90 interessados. Passámos uma semana a fazer entrevistas e só 30 aceitaram. No entanto, só 15 se apresentaram ao trabalho. Foram inventando desculpas e, resultado, ficámos apenas com uma pessoa, ...que era estrangeira”.
Pensando nos ainda mais de 15% de desempregados no país, não é fácil acreditar nisto que acontece quando tantos se queixam das terríveis consequências da falta de emprego e outros se aproveitam dos números de uma terrível estatística para alcançar possíveis vantagens eleitorais.
Como explicar que assim aconteça? Talvez as perspectivas de recuperação de anteriores níveis salariais que a Oposição, em particular o PS, deixa antever nas suas críticas à governação e nas promessas que faz de, ao ter a responsabilidade de governar, tudo passar a ser diferente e bem melhor, com um crescimento económico que, como alguém afirmou já, será muito fácil de alcançar.
Apesar de tudo parecer indicar que as próximas eleições legislativas impedirão a actual maioria de continuar a governar, não acredito que o governo que saia dessas eleições consiga cumprir qualquer das promessas que o PS faz, temendo, até, que o resultado eleitoral origine a crise política que pode travar o caminho que, embora duro, nos pode evitar um falhanço que conduziria, quase por certo, à necessidade de um novo resgate financeiro.

Melhor seria, pois, que nos apercebêssemos das mudanças que estão a acontecer na economia, apesar de toda a resistência de um sistema que teima em não se adaptar às circunstâncias e das promessas eleitorais fantasiosas, aproveitando as oportunidades que a “economia possível” pode dar.   


A RAZÃO DE NÃO NASCER

Por mais razões que tenha para me queixar da austeridade em que tenho de viver, tanto mais que, pela vida regrada que sempre fiz, para as suas causas não contribuí, não vejo como possa culpar este Governo do facto de a sofrer. Não terá ele sempre feito o que talvez melhor fosse de fazer mas, pelo que vejo acontecer por todo o mundo, não me parece que os políticos e os economistas que, imprudentemente, levaram a economia ao limiar de uma ruptura mais cedo ou mais tarde inevitável, estivessem preparados para fazer melhor aqui ou em outro lado qualquer. Aliás, continuam a não fazer!
É evidente que a ruptura terá de acontecer com mais ou menos graves consequências, pois não é possível fazer crescer sem limites o que tem um meio fisicamente limitado, efeitos ambientais devastadores e altera a estrutura social de um modo preocupante.
Ainda que a população mundial continue a crescer, triplicando desde que nasci, estabilizou ou decresce já nas sociedades economicamente mais activas onde, na estrutura etária, são cada vez mais notórias as distorções que, além de enfraquecerem a sua sustentabilidade, afectam, também, as condições da solidariedade sem a qual as sociedades não conseguirão sobreviver.
Temos, em Portugal, uma natalidade em declínio, já muito abaixo do mínimo necessário para a renovação. Por isso uma faixa etária jovem cada vez mais estreita, enquanto a dos mais idosos atinge proporções excessivas, resultado de um processo iniciado há longo tempo. Não pode, sendo assim, atribuir-se à austeridade desta governação, como os ambiciosos de poder que a tornaram inevitável querem fazer crer, a razão de ser desta realidade da qual a ânsia de crescimento económico é a verdadeira causa, tal como o é do enfraquecimento da estrutura familiar, o insubstituível núcleo das sociedades estáveis.
É pena que seja assim e que, pelo menos explicitamente, se não reconheça que caminhamos no sentido da uma extinção infeliz e da deseducação cada vez mais sentida como o torna evidente esta anedota de um letreiro supostamente colocado à porta de uma escola “Aqui transmitimos conhecimento. A educação deve vir de casa”.
Mas de qual casa? Das creches, dos infantários, das escolinhas onde se depositam os pequenos seres para os quais os pais deixaram de ter tempo?

Então, mais vale que não nasçam!


sexta-feira, 2 de maio de 2014

QUANDO A VIGARICE INTELECTUAL FAZ CARREIRA

Como pessoa normal e politicamente descomprometida que sou, aborrece-me esta austeridade que más governações causaram e não consigo evitar as críticas que tal me suscita. Por isso penso e digo o que me parece ser justo de pensar e de dizer em cada momento, independentemente de o fazer a propósito dos actos de quem governa ou das atitudes de quem se lhe opõe. E se uns me merecem críticas por algumas coisas que não fazem bem, outros mas merecem pelo que, de todo, não fazem, pelo oportunismo de atitudes que tomam ou pelo aproveitamento safado das inevitabilidades a que um resgate financeiro sempre dá lugar.
Por isso me desagrada ler uma afirmação como esta “O PS considerou hoje que as avaliações positivas do Governo e da 'troika' ao programa de ajustamento têm sempre como consequência mais austeridade em Portugal e acusou o executivo de ter ultrapassado os limites da "dissimulação".
Como não posso, sequer, imaginar que o PS não tenha noção das consequências do protocolo de resgate financeiro que, quando governo, assinou, apenas posso entender aquela afirmação como um aproveitamento perverso quanto à situação que se vive e, com estas afirmações distorcidamente oportunistas, confundir ainda mais  o povo para dele ter o voto que deseja para reassumir o poder por cujo mau uso  quase miserável o tornou.

Não me sinto bem com a perspectiva de inutilizar um esforço enorme que, juntamente com a enorme maioria dos portugueses, fiz ao longo de uns anos para reequilibrar uma situação que a mania das grandezas de alguns desequilibrou. O pior é sentir que a “esperteza saloia” poderá fazer o seu caminho de tentativa de regresso a um passado de ilusão que nos poderá fazer voltar a cair no fosso do qual, com muito esforço, tentamos sair.


JOGOS OPORTUNISTAS

Quando quarenta anos depois de uma revolução se contestam os seus efeitos do mesmo modo e quase pelas mesmas razões pelas quais ela foi feita, apenas posso pensar em algo de muito errado em tudo isto!
Diz a experiência, até a dos quase a não têm, que toda a causa tem o seu efeito. Obviamente! Assim como se diz que não adianta insistir no que resultou mal, sendo mais inteligente, em sua vez, procurar outras atitudes que, porventura, possam resultar melhor.
Por tudo isso, em vez destas guerrilhas agarotadas em que muitos se empenham, seria preferível uma atitude de cooperação de todos na procura das soluções que resolvessem os problemas persistentes, corrigissem os erros que, por voluntarismo insensato, foram cometidos e procurassem caminhos novos para um futuro que, ficou demonstrado também, não será o das conquistas “fáceis” mas o de trabalho árduo a que poucos parecem dispostos. 
Hoje não falo das propostas idiotas de quem faz do “folclore” os seus argumentos e da ignorância o seu saber, pois mais preocupado estou com as razões pelas quais o Partido Socialista persiste na recusa aos entendimentos que seriam benéficos para todos nós, insistindo em outras atitudes que nos vão manter divididos e estupidamente inactivos nas reformas profundas de que Portugal urgentemente necessita.
Leio esta notícia e pasmo de espanto:
O primeiro-ministro esteve com os TSD a explicar as opções do DEO e a prometer rigor orçamental. O líder do maior partido da oposição encontrou-se com a TSS e prometeu um acordo estratégico para o emprego quando for primeiro-ministro.”
Afinal, andará Seguro a brincar com todos nós quando faz da sua eleição como Primeiro-Ministro a condição para o “acordo estratégico” do qual Portugal urgentemente necessita?
Tem um ar de chantagem mesquinha, de um oportunismo reles, esta atitude que não deixa dúvidas quanto aos objectivos pessoais de alguém para quem o país não é a prioridade.
Falar dos erros que o Governo tem cometido, uns maiores outros com menos expressão que uma Oposição oportuna e séria poderia ter ajudado a minimizar, é falar de coisas que, naturalmente, acontecem a quem aceita a tarefa de fazer. Mas a rejeição de cooperar na tarefa de recuperar Portugal e, sobretudo, a insistência nos méritos de soluções que, de todo, o não são, é falar de ambições oportunistas e, por isso, criticáveis.

Mas em vez do reconhecimento das vantagens de unir forças continuo a ver no empenhamento na luta política o jogo que este país se diverte a jogar, talvez à espera de que lhe saia o “euromilhões”, de um ganho gordo na roleta em que aposta ou de um vómito generoso desta máquina infernal que lhe vai caçando os níqueis que, sem empenhadamente trabalhar, cada vez menos tem.




quinta-feira, 1 de maio de 2014

O OVO E A GALINHA OU A OMELETE QUE SE FAZ SEM OVOS!

Qual dos dois apareceu primeiro, se o ovo se a galinha, é a questão que se invoca quando se reflecte sobre por onde começar a solucionar uma situação complicada.
Mas, pelos vistos, não é o caso deste desastre económico que fez desemprego, emprego mal pago e pobreza porque para Arménio Carlos, a figura cimeira deste 1º de Maio, é muito fácil de ultrapassar. Bastará criar empregos estáveis e bem remunerados para que o desemprego desapareça, a economia cresça e se acabem os problemas que os economistas de todo o mundo não conseguem resolver. Tão simples assim!
É isto que, conforme da sua voz escutei, esta figura destacada da CGTP/PCP vai dizer aos concentrados na Alameda D Afonso Henriques numa jornada que, em vez da tradicional comemoração do reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, se transformou na luta contra este governo e contra as medidas por ele tomadas para que, depois da situação de falência que se atingiu, se criem as condições que permitam os investimentos que criam os empregos que se tornem estáveis e bem remunerados, recuperando a economia destruída.
Não sei se ria se chore por viver num país onde tanta gente, apesar de uns quantos milhares apenas, se deixa seduzir por estes argumentos palavrosos e irrealistas de quem vive da atenção irreflectida que aqueles a quem se dirige lhe possam prestar.
Como é possível que alguém aproxime um microfone para captar as palavras de uma boca que, com uma ignorância total da realidade ou, muito pior do que isso, com uma perfídia atroz, pretende criar um clima de agitação que acabará por prejudicar quem nele participar, embora julgando estar a defender os seus interesses?
Parece-me que, neste caso, em vez da dúvida entre o ovo e a galinha, melhor se entenderá a razão de quem diz não ser possível fazer omeletes sem ovos.
Mas Arménio é de outra opinião.

Mas o pior será se o frágil ovo se partir porque, então, não haverá galinha ou omelete para ninguém!