ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A BOMBA DE HIROSHIMA


Era, eu, muito jovem ainda.
Como, naquelas terras de pouca gente onde vivia, poderia fazer ideia do que fossem 150.000 pessoas a quem apenas uma bomba, de uma só vez, tirou a vida, deixando em cacos a enorme cidade onde viviam?
Era, para mim, qualquer coisa tão fantasiosa e irreal como as que aconteciam nas histórias de Júlio Verne que, perdido em projectos de grandioso futuro, passava horas e horas a ler, imaginando-me o herói de grandes proezas.
Mas eram as notícias que chegavam lá de longe porque ali, no meio daquelas montanhas que me aconchegavam, graças a Deus a guerra não chegara.
Mesmo assim, foram enormes as dificuldades que tempos muito duros nos fizeram viver, que um quase imenso espírito de solidariedade conseguiu vencer, aquele que, depois, vi perder-se nos caminhos mal traçados desta vida que, desde então, dia a dia percorro.
Está de resto a geração que sentiu na pele aquela dureza da vida e com ela aprendeu que é cada um responsável por si próprio, sem esperar que outros façam por si o que apenas a si compete fazer.
Passaram 70 anos, dos quais já poucos viveram os tormentos e outros só conhecem a fantasia de uma vida que não é como crêem que seja, porque será sempre dura como é.
Hoje apetece-me pensar o que a Humanidade terá aprendido com a tragédia que viveu. Talvez nada ou muito pouco, tão levianamente a vejo correr para outra ou outras que não gostará de viver.


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DESEMPREGO, UM MOMENTO HISTÓRICO?


 Que pode interessar a um desempregado, sem condições para ganhar a vida, que a taxa de desemprego seja esta ou aquela? Aparentemente nada, porque continua desempregado!
Porém, não é indiferente se a taxa é alta ou é baixa, se aumenta ou se decresce porque o bem-estar de cada um também depende do bem-estar geral, ao qual o nível de emprego não é indiferente.
Não faz, pois, sentido algum que ao natural regozijo de ver a taxa de desemprego baixar e, até a partir de um valor que permita perspectivar melhores dias, considerar o momento “histórico”, contrapor o sofrimento que sintam os que, mesmo assim, continuam desempregados.
Não passa de demagogia rasteira, pranto de carpideira barata que mostra o incómodo que, em alguns, causa o sucesso que outros possam ter nesta tarefa dura de governar um país cheio de problemas.
O desemprego subiu em Portugal desde o início deste século, quando era da ordem de 4%, sendo já superior a 12% quando, em 2011, o Governo português, chefiado por José Sócrates, solicitou um resgate financeiro internacional que evitasse a bancarrota iminente.
As medidas a que, de seguida, a reversão da situação criada obrigou, explicitamente os cortes profundos na despesa, fez crescer ainda mais o desemprego que, em 2013, atingia valores da ordem dos 16%, após o que teve início uma recuperação do emprego que faz descer a taxa para cerca de 14% em 2014.
Uma boa notícia actual é que “a taxa de desemprego caiu 1,8 pontos percentuais no segundo trimestre de 2015, passando de 13,7% para 11,9%, mostram os dados divulgados hoje pelo Instituto Nacional de Estatística”.
Tal significa que foi atingido um nível de desemprego semelhante ao que se verificava a quando do pedido de resgate, mas desta vez com tendência decrescente, ao invés do que, então, se verificava.
Se é um momento histórico? Com certeza, mesmo que tal não signifique mais do que a esperança de que continue a decrescer porque a economia do país se dinamizou e se inverteu a tendência que nos levou à austeridade da qual queremos libertar-nos.
Seja como for, sinto-me feliz por ver o desemprego baixar.

ESTÁ PROVADO, NÃO HÁ ALMOÇO DE GRAÇA


(Milton Friedman)

Mostrou-me a vida e toda a experiência que me deu que quando a demonstração é complexa, a verdade que pretende revelar é, pelo menos, duvidosa.
O aldrabão de feira é palavroso no modo como que assedia e convence os compradores das suas “mentiras”, o político envolve em raciocínios acrobáticos a demonstração do que pretende que pareça “verdade”, o professor ignorante faz parecer difíceis as coisas simples que não sabe…
É por raciocínios descomplicados que as verdades mais certas se alcançam e, depois, é em afirmações simples também que se transmitem para que sejam, por todos, compreendidas.
Assim é a verdade, Simples e clara!
Não é raro que uma grande verdade comece num despretensioso dito popular que observações sucessivas refinaram. Estou a lembrar-me de um que a própria Ciência adoptou por conter em si uma verdade irrefutável: “não há almoço de graça”.
Foram economistas quem primeiro utilizou esta verdade em suas obras. Foi, mesmo, atribuído a um deles este dito que, pelo que se diz e o célebre Rudyard Keepling confirma, nasceu dos almoços grátis bem salgados que, nos bares do Oeste americano, faziam beber muita cerveja que era bem paga!
De qualquer modo foi Milton Friedman quem popularizou a expressão e lhe deu o sentido que, apesar de bem entendido, ninguém respeita nesta “economia” de ilusão em que preferimos viver.
Friedman terá sido o primeiro e mais incisivo adversário do keynesianismo que outros e mais recentes Prémios Nobel querem ressuscitar agora, numa tentativa patética de reanimar esta economia moribunda que ainda não compreendeu que ultrapassou todos os limites possíveis do equilíbrio que, afinal, seria sua missão garantir: a satisfação bastante das necessidades básicas do Homem, em vez de ser o jogo preferido dos gurus das “bolsas” ou dos aldrabões da banca.
Deveria esta verdade estar bem presente sobretudo em épocas de eleições quando, para ganhar os favores do eleitorado se fazem promessas tão generosas que a realidade não permite que se cumpram. Como baixar a TSU e manter as pensões...
Foi sempre assim. Mas não continuará a ser porque o fundo do tacho já está a descoberto e continuar a rapá-lo não nos dará mais comida.
Se não há almoço de graça, por que insistimos em querer continuar a almoçar de borla?


terça-feira, 4 de agosto de 2015

COM PAPAS E BOLOS…


A política portuguesa quase me parece o recreio da escola onde, bem pequeno ainda, aprendi o b-a-bá.
Todos éramos miúdos e tínhamos, da vida, apenas a ideia do momento que passa, tantas vezes esquecendo o que passou e jamais nos preocupando com o que há-de vir.
A verdade era aquela que a cada momento parecia ser, nunca pensando que dela poderia ser apenas uma parte, até um nada sem qualquer importância ou, simplesmente, um equívoco.
Mas, fosse o que fosse, era a verdade pela qual, com a generosidade própria dos verdes anos, seríamos capazes de lutar e chamaríamos mentiroso a quem tivesse a veleidade de a contradizer.
Evidentemente que, para os políticos que por aí andam sempre à procura de um lugar ao sol, se põem em bicos de pés para que lhe vejamos, na cara, aqueles esgares que nem com um sorriso se parecem, esses tempos já passaram há muito e não será por ingenuidade que confundem a árvore com a floresta e têm comportamentos de meninos idiotas quando fazem de um pequeno nada uma monstruosidade, de qualquer pequeno senão uma tragédia ou de alguma melhor oportunidade uma retumbante vitória que nos possa impressionar.
Inventaram um jogo engraçado que consiste em dizer ser mentira o que a outro competirá provar que o não é.
O INE, o Tribunal de Contas, a UTAO, o FMI, o Junker ou seja quem for que, pelo modo ou pela oportunidade, nem sempre me parecem inocentes no que digam, fornecem os dados com os quais, depois, se começa o jogo.
Ontem, a já tão controversa UTAO, informou que a recolha de impostos, no primeiro semestre do ano, estaria abaixo do previsto no OE, o que poderia significar um “rombo” de 660 milhões nos resultados do ano!
Tanto bastou para festejarem e saltarem, quais mastins, os que estão sempre prontos a apontar a mentira com que o governo nos está sempre a enganar.
Atitudes ridículas, impróprias de gente que tem a pretensão de governar um país mas não tem a sensatez de pensar que não é por um miúdo crescer dez centímetros entre os nove e os dez anos que, aos vinte e cinco, terá dois metros e meio!
Mas é a oportunidade que têm e aproveitam-na porque a mentira repetida se transforma numa verdade para aqueles de quem se possa dizer que “com papas e bolos se enganam os tolos”.
É de tolos que querem fazer de nós, porque as contas só se fazem no fim!


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

DEMAGOGIA



Nunca fui um grande apreciador de Cavaco Silva, agora, como primeiro-ministro ou desde que debutou na política num governo de Sá Carneiro. Mesmo assim, está longe de ser dos piores políticos desta vaga e, como PR, tem feito o que as suas competências lhe consentem e uma realidade que recomenda prudência em vez de aventureirismo lhe sugere.
Reparo agora que Henrique Neto, um dos candidatos precoces ao próximo mandato na Presidência da República, o acusa de “preferir um governo de maioria a um bom governo”!
Não aprecio Cavaco Silva mas também não embirro com ele ao ponto de dizer uma bacorada destas.
Senhor Henrique Neto, onde é que na presunção de que a maioria tem razão entra o conceito de qualidade? Como a define a Constituição que o Presidente da República tem de jurar defender?
Pois é, quando se é demagogo diz-se qualquer coisa que se julgue que agrade àqueles dos quais, de algum modo, dependemos, mesmo que seja um rematado disparate.
E fiquei a saber que Henrique Neto, por ser um demagogo, jamais será o candidato em que votarei, a menos que me explique, de um modo muito claro, como é que o PR pode escolher um bom governo.


O ORÁCULO DE SANTORINI


Faz tempo que não existem daquelas notícias que dão para mais de uma semana, se não mesmo para mais de um mês de jornais, de programas de rádio e de televisão e, sobretudo, para os que explicam o que aconteceu, esclarecem o que correu mal e como deveria ter sido feito e, naturalmente, antecipam o que vai acontecer.
Depois de Sócrates, com menos visitas sonantes e com o advogado agora muito mais contido, e da Grécia que deu para fazer do Syrisa o herói de muitos e agora o vilão de todos, tentam os meios de comunicação social fazer do “lavajato” a sua tábua de salvação. Mas ainda não pegou bem. O possível braço nacional do polvo ainda não mostrou que o era.
Nem o “plano B de Tsipras e de Varoufakis deu para grandes novelas, mesmo que tenha sido o que mais imaginação congregou para a saída que todos desejavam mas que, com excepção do ministro das finanças alemão, ninguém teve a coragem de o afirmar.
Os gregos são um empecilho para a moeda única. Pois são! Não têm regras, não se esforçam muito, “contentam-se” com sessenta euros por dia, coitadinhos, e vivem felizes no mercado paralelo que montaram, no qual ninguém lhes exige que tenham contabilidade ou paguem impostos.
Mas vivem felizes assim porque é este o seu modo de viver.
Então, por que razão os chateiam?
E recordo-me daquela vez em Santorini, numa loja de livros e de pinturas, onde descobri o dono bem sossegado lá num canto, a ler uma revista qualquer.
Tentei falar com ele em vésperas de umas eleições sobre as quais os gregos nem falavam muito. Não me dei conta de arruadas nem de cartazes que dessem nas vistas e nos jornais nem consegui, naturalmente, entender o que diziam.
Por isso lhe perguntei quem achava que iria ganhar as eleições no Domingo seguinte.
Eles respondeu-me dizendo “acha que isso interessa alguma coisa? Será um dos do costume, um daqueles que, alternadamente, vão comendo do tacho que, de tão rapado, está quase no fundo. Bonito vai ser depois quando já não houver nada. Então aparecerá um salvador qualquer. É sempre assim. Depois será a tragédia que, mais uma vez, nascerá aqui!”
Lembrei-me desta história quando o Syrisa apareceu e venceu as eleições, tal como aquele homem previra.
Pena não me ter sabido ou querido dizer mais nada. Por isso nem imagino que vai acontecer… A verdade é que também não insisti muito com aquele grego de poucas palavras.
O que sei é que o mundo vai por maus caminhos e que onde tudo parecia bater muito certo, começou a correr mal. O petróleo continua em queda, a “rica” Angola tem os seus problemas que colocam empresas portuguesas em situações delicadas e, agora, o Brasil que começa a atrasar demasiado os pagamentos às empresas que para lá exportam.
A Rússia não teve capacidade financeira para “roubar” a Grécia à Europa, a China teve de tomar “precauções especiais” para segurar a situação financeira, o Brasil continua a sonhar com o futuro e os Estados Unidos vão disfarçando os seus problemas o melhor que podem.
Assim vão as finanças do mundo enquanto o futuro da Humanidade continua ao Deus-dará, sem ninguém que olhe por ele.
Das tragédias naturais que podem acontecer falam os cientistas, publica a comunicação social umas “curiosidades” e clama o Papa que se lhes preste urgente atenção.
Os “inteligentes” nem saberão do que se trata e, por isso, estão calados.
Na Grécia nasceu a “tragédia”. Onde irá ela acabar?


domingo, 2 de agosto de 2015

CHAVÕES OU PONTOS DE VISTA?

Do rio que tudo arrasta, diz-se ser violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem. Bertold Brecht

Há discursos com os quais me parece estar formalmente de acordo, mas com os quais, afinal, não posso concordar! Só estando muito distraído ou tão acomodado que nem pensar me proponha.
Uns, são os discursos de princípios, de ideais, de promessas eleitorais ou de previsões de desgraças que, para além disso, nada mais contêm que possa justificar a mensagem que transmitem, como de Varoufakis em que afirma que Espanha será a “nova Grécia”. Outros são os que, sem se darem conta de como as coisas mudaram, tanto os “artistas” da peça como os próprios cenários e os adereços , tiram conclusões e apontam soluções como se nada tivesse mudado, como acontece com o tão “conceituado” Krugman que, um dia, foi Prémio Nobel da Economia, mas me faz lembrar o que “ganha fama e, depois, goza a sombra da bananeira.
São, ainda, os discursos do “coitadinho”, como que um “catecismo” recitado por quem se queixa de ninguém fazer nada por si, passando, nessas lamúrias, todo o tempo à espera de que alguém faça o que só ele próprio pode fazer por si mesmo.
É desses discursos fáceis de fazer que nascem os “chavões”, aquelas pequenas frases que ficam no ouvido como verdades indesmentíveis que arrebatam os incautos que, para tristeza minha, ainda são demais.
Não creio que a vida nos dê, a partir de agora, as oportunidades quase infinitas que já nos deu, nesta autêntica pilhagem que fazemos do pouco que a natureza disponibiliza para sobrevivermos. Elas serão cada vez menores e, por isso, ai de quem as desperdice.
Continuarão, ainda por muito tempo, a vestir Armani os meninos que jogam “monopólio” na Wall Street, na City ou noutros locais quaisquer, enquanto outros trabalham, se cansam e sujam as mãos para eles terem que “vender”?

Valerá mais a pena reflectirmos ou fazer coro com os que nos sugerem cativantes chavões?