ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

domingo, 6 de novembro de 2016

QUANDO…



Deve ser “andaço”, como antigamente se dizia dos males que se propagavam rapidamente. E deve propagar-se através do ar, para onde a verborreia que tomou conta deste país expele os perdigotos que transportam os vírus que o provocam.
Uma sessão na Assembleia da República tornou-se o reflexo de um país sem rei nem roque, de um reino de abencerragens à beira de ser engolido por um poder maior que é a realidade da qual não dão grandes provas de saber qual seja, ou de uma coutada da qual vários querem ser o patrão!
Tudo parece muito engraçado enquanto o é, mas veremos até quando, porque um dia e como é das normas que aconteça, as comadres zangam-se…
E sucedem-se as perdas de tempo que não servem para coisa alguma, não resolvem qualquer dos graves problemas que temos e apenas adornam esta guerra de poderes idiota em que caímos!
Fazem contas para um banquete para o qual a despensa vazia não terá grande contribuição, disfarçam-se as fraquezas com passe de magia que não passam de impostos toscos que fingem não o ser e põe-se a tónica num défice conseguido com a redução drástica das condições em que são prestados aqueles serviços que apenas ao Estado compete prestar, em vez de na produção de bens que façam o país ser auto-suficiente na satisfação das suas necessidades básicas. Que continua a não ser.
E até já chegou a altura de fazer decretos-lei inconstitucionais que o Presidente aprova e publicamente contesta, como aquele sobre a nova administração da Caixa geral de Depósitos que fica isenta daquilo de que não pode ficar, a publicação dos seus rendimentos, como compete a todos os gestores públicos.
O Governo legisla que os administradores da CGD ficam dispensados do estatuto de gestores públicos, o Presidente promulga a decisão, toda a gente contesta esta aberração e o Primeiro-Ministro responde dizendo que o Governo apenas fez o que está na lei e o Presidente da República diz que os novos gestores da Caixa não podem ficar isentos porque são gestores públicos.
Até pode nem ser exactamente como digo, mas não anda longe e será de qualquer outra maneira tão caricata como esta porque muita coisa deixou de fazer sentido neste país onde é cada vez mais difícil saber exactamente o que se passa.
Eu creio que isto está a ficar demasiadamente confuso para ser compreendido.
Dizia-se que a regra era “dividir para reinar”, mas como o tempo dos reis aqui já passou, parece que a regra passou a ser “confunde-o para o dominares”.


(*) Parlamentar e Primeiro-Ministro britânico no tempo da Raínha Vitória, Disraeli foi um ilustre pensador.
O brilho do seu discurso ofuscava os que se lhe opunham e foi, por isso, um dos parlamentares mais brilhantes de todos os tempos.
Então, era assim. Agora os tempos são outros e a argúcia parlamentar não basta.
 


    

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O ORÇAMENTO DA ESPERANÇA



Será hoje aprovado na generalidade o Orçamento de Estado para 2017, aquele em que quero depositar toda a minha esperança, ou não seja, como diz o povo, esta a última a morrer.
Assim me agarro, com unhas e dentes, à minha ignorância nestas coisas de orçamentos de Estado, pois apenas nela pode estar a minha incapacidade de entender o mistério de poder gastar mais com o menos que se produz.
Uma coisa, porém, eu entendi, é que o nosso défice vai ficar controlado e será muito baixinho, apesar da dívida continuar a crescer até valores que só com muito trabalho e alguma austeridade poderemos suportar. Mas trabalho vejo muito pouco e quanto à austeridade, querem acabar com ela.
Mas devo ter-me distraído em algum momento em que se tornou regra pagar o défice e não a dívida e até daquele em que para produzir menos se emprega mais gente, mesmo quando a nossa productividade é das mais baixas, já que o desemprego baixa muito mais do que a economia cresce, se é que cresce!
Mas não sei onde se empregou tanta gente quando os médicos, os enfermeiros, os polícias, os auxiliares de educação e sei lá quem mais, continuadamente atribuem o mau estado dos nossos serviços à falta de recursos humanos que, dizem, são cada vez menos!
Assim como não percebo que continue a haver desempregados quando há tantas ofertas de emprego que ninguém aceita.
Não entendo que haja subsídios seja para o que for sem que lhes corresponda uma retribuição qualquer em trabalhos de que a comunidade tem necessidade.
Enfim, eu pensei que este orçamento seria aquele que nunca vi, com ideia novas que equilibrassem o país com seu orçamento e não os “quadros” do orçamento uns com os outros.
É verdade que nunca ninguém pergunta ao ilusionista de onde vem o coelho que tira da cartola vazia ou a pomba que, saída do nada, aparece na sua mão. Venham de onde vierem aparecem e pronto!
Então, por que haverei eu de perguntar a Centeno de onde virão os meios que nos farão ter mais dinheiro no bolso e faz a economia crescer, mesmo que sinta, no final do mês, os bolsos mais vazios?
Esta é a arte do ilusionismo.
Não me parece que seja assim que se acaba com a austeridade, dando mais dinheiro a alguns para comprarem o que, pelos impostos indirectos que se inventam, fica mais caro.
Cada qual terá o seu modo de fazer as coisas, mas que a austeridade continua, continua!
É uma questão de deixar assentar a poeira.
Mas com esperança eu continuo, não quero deixar que morra.

 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A TRAGÉDIA HUMANA



Tendo em vista a 22ª Reunião anual do clima que vai ter lugar em Marraquexe a partir da próxima Segunda-Feira e tem por objectivo definir disposições importantes para que seja aplicado o recente “Acordo de Paris”, a ONU alerta para a necessidade de atitudes urgentes e radicais que evitem uma “tragédia Humana”.
Depois de muitos anos de descuidos, de contradições intencionais e, até, de argumentos supostamente científicos de que a acumulação dos gases com efeitos de estufa na atmosfera era tão insignificante que não poderia ser a causa de quaisquer efeitos de elevação significativa da temperatura, são cada vez maiores as evidências de que a actividade económica humana tem consequências que podem por em risco a própria Humanidade.
É o tão desejado “crescimento económico”, com base no qual todos os orçamentos se fazem, que não é apenas causa das alterações climáticas que põem em causa a espécie humana porque também afecta o Ambiente de modo a torna-lo cada vez menos adequado às suas necessidades de vida.
No seu mais recente relatório o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), revela-se alarmado com o aumento continuado das emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE), que, apesar de todas as decisões já tomadas, sempre são contrariadas por interesses económicos muito fortes e não creio que até as já mais do que evidentes possibilidades de uma tragédia humana consigam dominar.
Diz o relatório que os esforços feitos se revelam insuficientes para que seja alcançado o objectivo de um aumento não superior a 2ºC em relação aos valores médios da temperatura na era pré-industrial.
Ao ritmo dos acréscimos da temperatura média global que se registam, o mundo caminha para valores bem superiores no final deste século, superiores a 3ºC, a que corresponderão impactes difíceis de suportar.
Efeitos graves se verificam já no acréscimo acelerado da desertificação de vastas áreas, o que tem e terá por consequência deslocações maciças de povos que, para além das guerras que os obrigam a fugir, procurarão a sobrevivência em outros locais.
O PNUMA realça o papel das cidades, das empresas, da agricultura, dos transportes e de cada um de nós no movimento determinante de uma mudança radical no modo de viver para que a tragédia temida não aconteça.
Porém, não vejo nas atitudes nem no discurso dos políticos, por uma vez que seja e fora das “cimeiras” onde todos são hipócritas, qualquer motivo para ter esperança de que mude um trajecto que se encontra cada vez mais próximo do ponto de não retorno se, porventura, o não alcançou já!
Como exemplo cito o caso do OE português em que tudo apela ao crescimento económico como única saída para o buraco em que nos encontramos.
Não haverá aqui alguma contradição?
Na perspectiva do egoísmo humano não há, porque enquanto os mais ricos não estão dispostos a perder a hegemonia que esta situação lhes dá, os que pretendem enriquecer não estão dispostos a abdicar do seu direito de serem ricos também!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

LISBOA E OS SISMOS



A série de sismos intensos que têm acontecido no centro de Itália, o último dos quais esta madrugada, leva a extrapolações para além das simples notícias como uma que acabo de ler de que poderá haver um sismo assim em Lisboa, semelhante ao que a destruiu em 1755, quando ocorreu um maremoto tabém, e costuma acontecer com a periodicidade de 200 anos!
Há quem atribua ao maremoto (tsunami) as maiores destruições então verificadas.
Os especialistas não devem dizer banalidades. Existe a tal falha de subdcção entre o Algarve e o Norte de África que vai acumulando tensões que, periodicanente, se libertam.
Talvez se tenham libertado no sismo de Agadir (1960), ou de Benavente (1909), ambos muito destruidores e dentro do tal ciclo de cerca de 200 anos de que se fala, ainda que estabelecido sem base, numa estatística que não existe.
E os maremotos não acompanham sempre os simos. Porque acontecem os maremotos é outra questão..
Além disso, os efeitos não terão de sentir-se, necessariamente, em Lisboa, ainda que seja uma verdade Lapalisseana afirmar que o terramoto de Lisboa pode repetir-se. Ou já se repetiu em 1969?: “Eram 03:41 quando o sismo de magnitude 8 na escala de Richter, com epicentro no mar, a sudoeste do cabo de S. Vicente, na planície da Ferradura, se fez sentir em Portugal, Espanha e Marrocos.
Os maiores danos foram registados na Costa Vicentina e no Algarve, onde uma aldeia praticamente desapareceu, mas também causou estragos em Lisboa, nomeadamente queda de chaminés e paredes, falhas de energia e de comunicações.
Há ainda a registar no país, oficialmente, 11 mortos e dezenas de feridos, 58 dos quais em Lisboa”.
Eu morava, então num 10º andar onde a amplitude das oscilações foi enorme, ouvindo-se alguns ruídos verdadeiramente assustadores que pareciam vir do centro da terra.
Não vale, pois, a pena invocar ciclo algum. Bastará dizer que, em virtude de diversos factores, na Região de Lisboa podem ocorrer sismos violentos. E têm ocorrido. Ninguém pode predizer quando e, muito menos, estabelecer uma periodicidade.
Outros afirmam que um sismo como o ocorrido hoje em Itália destruiria quase toda a Lisboa!
Ou serão os jornalistas que majoram e tornam sensionalista o que os vulcanologistas digam com naturalidade. Sei lá.
Lisboa teve o primeiro regulamento anti-sísmico do mundo depois de 1755 e o que agora está em vigor data de 1958. Trabalhava eu no LNEC quando tal regulamento, ali estudado, foi estabelecido.
É certo que, de início terá sido aplicado de um modo tosco por muitos estruturalistas. O que já não acontece agora, felizmente.
Mas existe uma cidade antiga mais vulnerável e outra que o não será tanto porque as famosas “ gaiolas” poderão funcionar bem!
São as autoridade competentes que devem tratar destas assuntos e preparar a população para as eventualidades que possam ocorrer, sabe-se lá quando!
Agora, andarem a sobressaltar os lisboetas com verdades de La Palisse é que me não parece bem!