Infelizmente, ainda não consegui reorganizar muitos documentos desde a minha última mudança. Naquela confusão está um livro que comprei há cerca de cinquenta anos, de cujo autor não consigo agora recordar o nome, mas cujo tema os tempos que vivemos me têm feito recordar. Tem por título “crescimento zero”, situação que sendo para os economistas a “estagnação” que não desejam era, para quem o escreveu, a atitude que poderia ter salvo o Homem de muitos dos problemas que agora o atormentam.
Então, para um jovem engenheiro convencido das virtudes do quanto mais e mais moderno melhor, o título era, no mínimo, intrigante. Por isso o comprei, pois sempre me seduziram ideias diferentes por saber que é com elas que posso corrigir ou fortalecer as minhas. Defendia o autor, ao contrário do que eu pensava, que a pretensão de “crescer” indefinidamente iria produzir desequilíbrios dos quais resultaria, a prazo, uma situação descontrolada e difícil de resolver. Era um visionário lúcido em contra-ciclo com as ideias em voga e de cuja intuição o tempo tem revelado a sensatez. Naquela época de grande euforia do crescimento económico, não acredito que, sequer, a primeira edição do livro se tenha esgotado e, talvez por isso, nunca o vi referenciado em parte alguma. Porém, a sua leitura fez nascer em mim uma inquietação profunda, um receio enorme pela harmonia natural que a ambição humana poderia destruir.
Hoje pergunto-me como, perante a clarividência de alguém que, há tantas dezenas de anos, previu que este tipo de crise aconteceria, ainda possa haver quem corra a comprar o último êxito de vendas do “único economista que previu a crise”, na esperança de mais rapidamente a superar ou dela tirar proveitos. A verdade, porem, é que os economistas não prevêem nem resolvem as crises. Provocam-nas, porque a escassez e a exaustão dos recursos naturais, a degradação ambiental e a exclusão de milhares de milhões de seres humanos do direito à fruição dos bens do mundo não fazem parte dos parâmetros que estruturam os “modelos futurológicos” em que baseiam as suas previsões nem dos princípios de “justiça social” que regulam as decisões que tomam. Ao contrário, considerar que sempre haverá o necessário para crescer mais e mais é, para eles, uma verdade axiomática que a Natureza desmente nas rupturas dos ciclos naturais que, há tempo demais, estão a ser excedidos. Tivemos professores que nos ensinaram – ou obrigaram a saber de cor – os ciclos do azoto, do carbono, da água e outros, conhecimentos que se perderam naquele “ligar à terra” após os exames porque, por mal esclarecidos, os julgámos inúteis. Poucos, se alguns, os relacionaram com o “ciclo global da vida” que, por mais que o queiramos desdizer, é o que está em causa neste Século XXI que, tudo o indica, será da maior importância para o futuro da Humanidade, em consequência dos fenómenos perturbadores que teremos de enfrentar. Problemas climáticos e energéticos, rápido acréscimo da população mundial, escassez de alimentos e aumento da fome e de doenças nas regiões mais populosas, poluição generalizada, redução drástica da biodiversidade, destruição da camada de ozono, entre outros, poderão atingir dimensões difíceis de conter pacificamente num futuro relativamente próximo.
Mal avisados ou insensíveis às suas responsabilidades sociais, também alguns engenheiros, aqueles para quem quanto mais e maior melhor, acompanham de perto os economistas na sua ânsia de crescimento sem limites. Que melhor prova dos excessos que cometem do que o moderníssimo e insustentável Dubai com a sua gigantesca Torre Khalifa, o mais alto edifício do mundo com 828 metros de altura e uma vista espectacular sobre um deserto escaldante? Toda esta grandiosidade, inútil perante as necessidades reais da Humanidade, faz lembrar a “fase barroca” que prenuncia o fim do “estilo” que já nada mais permite inovar.
Apesar de todo o optimismo dos que persistem na recuperação do actual modelo económico da crise em que mergulhou, cada vez se torna mais evidente a sua insustentabilidade e, em consequência, a necessidade de um outro que acautele os equilíbrios naturais que garantem a vida. Adoptar um modelo que não provoque rupturas, um modelo sustentável, será o grande desafio deste século do qual, em atitudes estéreis, já se perdeu mais de uma década.
Parece-me oportuno relembrar os “limites do crescimento” a que já aqui me referi, o Relatório do Clube de Roma que, no início da década de setenta do século passado, chamou a atenção para possíveis e próximas situações de ruptura a que o excesso de consumo conduziria. Apesar do esforço dos defensores do consumismo para as desacreditar, as conclusões a que Forrester, Meadows e outros chegaram, embora quase silenciadas ao longo de décadas, continuam válidas. Assim o comprovam análises recentes como a publicada na “Scientific American” - Maio/Junho de 2009 - “Revisitando os Limites do Crescimento”. A proximidade entre a evolução da realidade e as previsões feitas mostram que o perigo é real e vai conduzindo às rupturas então previstas.
Uma coisa a investigação do Clube de Roma não considerou: a influência no clima que é uma das preocupações maiores dos tempos que correm. Mas a sua relação com o excesso de consumo parece ser evidente e as suas consequências desastrosas são cada vez mais difíceis de reverter. Porém, tal não foi bastante para evitar o fracasso da Cimeira de Copenhaga tal como o de outras antes dela e, mais recentemente, da Cimeira de Cancun sobre as mudanças climáticas onde, de novo, decisões urgentíssimas foram adiadas em prol de um crescimento económico que ninguém se atreve a conter. Há sempre uns quantos “sábios” infelizmente capazes de compromissos com interesses que não são, de modo algum, os que a Ciência mostra serem os de salvaguarda e de dignificação da Humanidade.
Sem consciência de ser o “elo mais fraco” na cadeia natural, o Homem será quem mais perderá com a “revolta” que a Natureza já iniciou. Ou será que ainda nos não demos conta das mudanças que estão a acontecer?
Rui de Carvalho
11 de Janeiro, 2011
Publicado no Notícias de Manteigas, em Fevereiro 2011
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ACORDO ORTOGRÁFICO
O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
COMO CUIDA A SOCIEDADE DOS SEUS IDOSOS?
Idosos que morrem em incêndios em lares sem as necessárias condições, idosos que passam o dia na rua, idosa que morre sozinha em casa e só é encontrada 8 anos depois…
É para isto que aumentou a esperança de vida?
Como pode dizer-se que a sociedade cuida dos seus idosos se os trata assim?
É para isto que aumentou a esperança de vida?
Como pode dizer-se que a sociedade cuida dos seus idosos se os trata assim?
sábado, 22 de janeiro de 2011
AMANHÃ TENHO DE IR VOTAR, MAS…
Obviamente que irei cumprir o meu dever de cidadão consciente dos seus deveres, mas gostaria de poder ter outras opções que, sinceramente, não esperava que aparecessem. Mas, se é esta a política e os políticos que temos, será dentre eles que terei de escolher e não adianta votar em branco, abster-me de votar ou, como alguns fazem, riscar ou escrever coisas que ninguém vai ler e não terá qualquer influência nestas eleições ou no futuro.
Não gostei do primeiro mandato de Cavaco Silva. De todo, pois penso que poderia e deveria ter feito muito mais para travar os disparates de um governo de minoria que insistiu em arrogantes erros sucessivos que muito prejudicaram o país.
Sei que o Presidente da República Portuguesa tem muito poucos poderes, mas tem voz que pode esclarecer os portugueses sobre o que se passa de importante na política nacional. Cavaco Silva foi demasiadamente permissivo e não soube evitar as “fintas” de Sócrates que o deixou sem possibilidade de agir quando mais era necessário.
Sócrates manobrou como quis para influenciar o resultado das últimas eleições legislativas que lhe deram uma maioria relativa e lhe permitiu formar novo governo, assim como conseguiu que o tempo passasse até que o Presidente nada pudesse fazer para impedir que continuasse os seus desvarios.
Apesar de tudo isto também não votaria Alegre e nem vou dizer porque!
Aplaudo o Dr Fernando Nobre pela sua determinação mas, quem sabe, nas próximas eleições presidenciais, mais apoiado e melhor preparado, poderá ser a opção.
Quanto aos demais, não chegam a ser opções.
Resta-me uma noite para conversar com o travesseiro e… que Deus ajude Portugal!
Não gostei do primeiro mandato de Cavaco Silva. De todo, pois penso que poderia e deveria ter feito muito mais para travar os disparates de um governo de minoria que insistiu em arrogantes erros sucessivos que muito prejudicaram o país.
Sei que o Presidente da República Portuguesa tem muito poucos poderes, mas tem voz que pode esclarecer os portugueses sobre o que se passa de importante na política nacional. Cavaco Silva foi demasiadamente permissivo e não soube evitar as “fintas” de Sócrates que o deixou sem possibilidade de agir quando mais era necessário.
Sócrates manobrou como quis para influenciar o resultado das últimas eleições legislativas que lhe deram uma maioria relativa e lhe permitiu formar novo governo, assim como conseguiu que o tempo passasse até que o Presidente nada pudesse fazer para impedir que continuasse os seus desvarios.
Apesar de tudo isto também não votaria Alegre e nem vou dizer porque!
Aplaudo o Dr Fernando Nobre pela sua determinação mas, quem sabe, nas próximas eleições presidenciais, mais apoiado e melhor preparado, poderá ser a opção.
Quanto aos demais, não chegam a ser opções.
Resta-me uma noite para conversar com o travesseiro e… que Deus ajude Portugal!
A FORMIGA E A CIGARRA
São angustiantes as notícias que nos chegam, dando conta das grandes dificuldades de muitas famílias portuguesas por via da situação financeira degradada a que Portugal chegou.
Pessoas que, outrora, foram contribuintes de instituições de auxílio social, recorrem agora a elas para pedir ajuda depois de esgotada toda a sua capacidade para sobreviver sem auxílio.
Dezenas de milhar de crianças que sofrem de fome, muita gente que ainda não conseguiu ultrapassar a barreira da “vergonha” que as faz sofrer as suas mínguas sem queixumes e uma cada vez maior população em miséria extrema, são desgraças que não nos podem deixar indiferentes.
Os portugueses comuns são gente de causas às quais afoitamente se entregam quando confiam em quem as promove e, por isso, têm dado resposta generosa às necessidades de ajuda. Quais formiguinhas, as Instituições de Ajuda Social vão recolhendo as dádivas que atenuarão a fome dos cada vez mais portugueses que a sofrem.
Mau é saber que muito se pode agravar numa situação grave que parece não comover o governo que não reconhece os erros das suas opções já que nelas insiste. Falhou nas suas políticas de modernização que não soube pautar pelas reais capacidades e necessidades do país; Falhou nas políticas de saúde, de educação e de justiça que sacrificou a decisões que privilegiaram o investimento excessivo em infra-estruturas e equipamentos cujos custos arrastarão os encargos financeiros por anos e anos, dificultando o desenvolvimento seguro do país; Falha num “Estado Social” que consagra direitos para cuja garantia não teve o cuidado de, oportunamente, assegurar os meios necessários; Falha quando, mesmo avisado, faz “ouvidos de mercador” e insiste na bondade de projectos excessivamente onerosos e sem proveito oportuno na resolução dos problemas mais prementes dos portugueses.
O crescimento excessivo da dívida externa portuguesa (já referido em outra crónica) a que tanto desnorte conduziu e o excessivo défice orçamental são as razões de ser de um Orçamento de Estado que nos fará “apertar o cinto” como nunca.
Aumenta impostos e corta na despesa, mas fá-lo, sobretudo, penalizando os rendimentos de trabalho, mantendo quase intocáveis os gastos não reprodutivos em estruturas, organismos, benesses e remunerações injustificadas que os contribuintes suportam.
Em quaisquer circunstâncias mas, sobretudo, em tempo de sacrifícios, tornam-se escandalosas as reformas precoces e generosas dos políticos que as vão acumulando e acrescentam com outras remunerações em cargos que facilmente conseguem, os subsídios, as ajudas de custo, as mordomias e outros “extras” que os privilegiados têm, os numerosos institutos e fundações que as suas conveniências foram criando, as incontáveis empresas públicas que inventam sem fins sociais ou económicos que se compreendam e a ridícula e inoportuna insistência do Ministro das Obras Públicas na extravagância do TGV cujo contrato de adjudicação o Tribunal de Contas questionou.
Além disso, a notícia da criação de um organismo, mais um, para controlar as “grandes obras públicas” que a nossa capacidade financeira não comporta e as ruinosas “parcerias público-privadas” que deveriam ser eliminadas ou profundamente corrigidas, soa a irresponsabilidade difícil de aceitar.
Faleceu há poucos dias Errnâni Lopes que, em outros tempos de quase “bancarrota”, foi chamado para gerir as finanças nacionais que recuperou com a ajuda do FMI. Não há muito tempo, ele que conhecia bem as nossas forças e fraquezas considerou Portugal um país em risco de definhar.
Porém, o governo tem dificuldade em conter a sua ânsia de euforia como a demonstrada pelos “grandes feitos” que encheram o país de auto-estradas, de urbanizações e de edificações que ultrapassaram as necessidades, pelos negócios ruinosos em parcerias que apenas foram boas para os seus parceiros, pelo consumo desenfreado que nos tornou esbanjadores, sem cuidar de prevenir as dificuldades que o amanhã poderia trazer.
Sucessivos desvarios de quem governa mas que encantaram muitos eleitores e as “oposições” não tiveram competência para denunciar e travar, são a causa das desventuras que vivemos. Agora, quando a poupança seria útil, apenas há uma dívida monstruosa que obriga, num gesto cada vez mais oneroso, a estender a mão aos agiotas que vão cobrando mais e mais, porque às “cigarras” não se ajuda. Cantaram? Dancem agora!
Por isso, não será 2011 um ano fácil para a maioria de nós mas, se Deus quiser, superá-lo-emos com a força daqueles para quem as dificuldades são estímulos, como outrora o foram.
Um Ano Novo venturoso para todos, são os meus votos.
Rui de Carvalho
Lisboa 9 Dezembro 2010
Publicado no Notícias de Manteigas de Janeiro 2011
Pessoas que, outrora, foram contribuintes de instituições de auxílio social, recorrem agora a elas para pedir ajuda depois de esgotada toda a sua capacidade para sobreviver sem auxílio.
Dezenas de milhar de crianças que sofrem de fome, muita gente que ainda não conseguiu ultrapassar a barreira da “vergonha” que as faz sofrer as suas mínguas sem queixumes e uma cada vez maior população em miséria extrema, são desgraças que não nos podem deixar indiferentes.
Os portugueses comuns são gente de causas às quais afoitamente se entregam quando confiam em quem as promove e, por isso, têm dado resposta generosa às necessidades de ajuda. Quais formiguinhas, as Instituições de Ajuda Social vão recolhendo as dádivas que atenuarão a fome dos cada vez mais portugueses que a sofrem.
Mau é saber que muito se pode agravar numa situação grave que parece não comover o governo que não reconhece os erros das suas opções já que nelas insiste. Falhou nas suas políticas de modernização que não soube pautar pelas reais capacidades e necessidades do país; Falhou nas políticas de saúde, de educação e de justiça que sacrificou a decisões que privilegiaram o investimento excessivo em infra-estruturas e equipamentos cujos custos arrastarão os encargos financeiros por anos e anos, dificultando o desenvolvimento seguro do país; Falha num “Estado Social” que consagra direitos para cuja garantia não teve o cuidado de, oportunamente, assegurar os meios necessários; Falha quando, mesmo avisado, faz “ouvidos de mercador” e insiste na bondade de projectos excessivamente onerosos e sem proveito oportuno na resolução dos problemas mais prementes dos portugueses.
O crescimento excessivo da dívida externa portuguesa (já referido em outra crónica) a que tanto desnorte conduziu e o excessivo défice orçamental são as razões de ser de um Orçamento de Estado que nos fará “apertar o cinto” como nunca.
Aumenta impostos e corta na despesa, mas fá-lo, sobretudo, penalizando os rendimentos de trabalho, mantendo quase intocáveis os gastos não reprodutivos em estruturas, organismos, benesses e remunerações injustificadas que os contribuintes suportam.
Em quaisquer circunstâncias mas, sobretudo, em tempo de sacrifícios, tornam-se escandalosas as reformas precoces e generosas dos políticos que as vão acumulando e acrescentam com outras remunerações em cargos que facilmente conseguem, os subsídios, as ajudas de custo, as mordomias e outros “extras” que os privilegiados têm, os numerosos institutos e fundações que as suas conveniências foram criando, as incontáveis empresas públicas que inventam sem fins sociais ou económicos que se compreendam e a ridícula e inoportuna insistência do Ministro das Obras Públicas na extravagância do TGV cujo contrato de adjudicação o Tribunal de Contas questionou.
Além disso, a notícia da criação de um organismo, mais um, para controlar as “grandes obras públicas” que a nossa capacidade financeira não comporta e as ruinosas “parcerias público-privadas” que deveriam ser eliminadas ou profundamente corrigidas, soa a irresponsabilidade difícil de aceitar.
Faleceu há poucos dias Errnâni Lopes que, em outros tempos de quase “bancarrota”, foi chamado para gerir as finanças nacionais que recuperou com a ajuda do FMI. Não há muito tempo, ele que conhecia bem as nossas forças e fraquezas considerou Portugal um país em risco de definhar.
Porém, o governo tem dificuldade em conter a sua ânsia de euforia como a demonstrada pelos “grandes feitos” que encheram o país de auto-estradas, de urbanizações e de edificações que ultrapassaram as necessidades, pelos negócios ruinosos em parcerias que apenas foram boas para os seus parceiros, pelo consumo desenfreado que nos tornou esbanjadores, sem cuidar de prevenir as dificuldades que o amanhã poderia trazer.
Sucessivos desvarios de quem governa mas que encantaram muitos eleitores e as “oposições” não tiveram competência para denunciar e travar, são a causa das desventuras que vivemos. Agora, quando a poupança seria útil, apenas há uma dívida monstruosa que obriga, num gesto cada vez mais oneroso, a estender a mão aos agiotas que vão cobrando mais e mais, porque às “cigarras” não se ajuda. Cantaram? Dancem agora!
Por isso, não será 2011 um ano fácil para a maioria de nós mas, se Deus quiser, superá-lo-emos com a força daqueles para quem as dificuldades são estímulos, como outrora o foram.
Um Ano Novo venturoso para todos, são os meus votos.
Rui de Carvalho
Lisboa 9 Dezembro 2010
Publicado no Notícias de Manteigas de Janeiro 2011
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
ANO EUROPEU DE COMBATE À POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL
A pobreza é um problema mundial crescente, traduzido em estatísticas revoltantes que dizem que mais de 24.000 pessoas morrem de fome em cada dia que passa e que outras mais de mil milhões vivem na pobreza extrema. Mas, neste Ano Europeu do Combate à Pobreza e Exclusão Social que vai terminar e integrou o Dia Internacional para Erradicação da Pobreza, para além de meritórias iniciativas privadas, de pouco mais me dei conta do que de belas palavras e boas intenções sem evidentes resultados práticos na minimização das inumeráveis tragédias que, por esse Mundo, acontecem.
Nem podia deixar de ser assim porque não é com “boa vontade” que se combate a pobreza e, muito menos, se erradica. A pobreza é um problema grave do Mundo que as circunstâncias vão tornando cada vez maior, sendo necessária uma mudança profunda do nosso modo de viver para que os limitados recursos naturais, que são de todos, possam proporcionar as condições satisfatórias de vida a que qualquer ser humano tem direito.
Nunca foi preocupação primeira do Homem a repartição a que a “caridade cristã” apela falando aos corações dos que mais têm mas que preferem ter cada vez mais porque nenhum mais é bastante, nem a que o “comunismo” teorizou e prometeu mas da qual apenas resultaram novas elites favorecidas, uma pobreza cada vez maior e um estrondoso fracasso. Mas também não será o capitalismo desenfreado, desrespeitador dos equilíbrios naturais indispensáveis à vida e indiferente à justiça social que preencherá o fosso que separa ricos e pobres.
Por isso a pobreza continua a ser a realidade que tenta encontrar, nas sobras dos que têm demais, aquilo de que necessita para sobreviver, numa proximidade de que foram resultando áreas cada vez mais extensas de barracas, bairros de lata, favelas, muceques, caniço, ou seja lá o que for que se lhes chame, a envolver cidades.
Mas o problema assume dimensões maiores, passando das cidades aos continentes e ao mundo inteiro, acompanhando a globalização que realça os desequilíbrios dentre os quais este é o mais desumano.
Para os que tentam escapar do inferno das zonas mais degradadas e pobres do mundo, a envelhecida Europa é um destino muito desejado, apesar de todos os seus problemas. São milhares, muitos milhares os que arriscam a vida para a alcançar e, quando o conseguem, por aqui se vão mantendo como podem, longe das vistas dos que têm a seu cargo controlar tais migrações. Apesar das más condições em que, tantas vezes, vivem, preferem-nas às que tinham no seu lugar de origem.
Num futuro não muito distante talvez sejam milhões, muitos milhões os que, seja por qual modo for, na Europa se tentarão instalar também, porque a população nas zonas mais desfavorecidas cresce a um ritmo muito elevado, do que resultam insuportáveis privações a que nenhum ser humano consegue resistir nem merece estar sujeito.
Há por esse mundo fora multidões amarguradas pela fome e pela doença, desejosas de se livrarem das dores a que, pelo nascimento, a sorte as condenou. Existem povos que autênticos carrascos escravizam e exploram em terras que, podendo ser férteis, as perseguições ou a guerra não deixam que nelas se produza o que lhes mataria a fome.
Os que se dizem defensores dos direitos do Homem deixam-se manietar por absurdas regras de conduta de um “Direito Internacional” pouco interventivo ou resguardam-se num conveniente faz-de-conta que não impede que execráveis opressores pratiquem barbaridades que, não raras vezes, atingem a “limpeza étnica”.
Assiste o chamado “mundo evoluído”, sereno, aos horrores que, por não serem seus, lhes não causam grande mossa, sem pensar que, um dia, talvez se veja envolvido na “grande confusão” que a sua falta de intervenção e de solidariedade para com os desfavorecidos originou. E se, alguma vez, eles resolvem reclamar a parte dos bens do mundo que lhes pertence? Como se pára a grande invasão?
A pobreza é um problema global que nenhum país ou continente pode, definitivamente, resolver só por si.
É mais um problema de dimensão mundial que, tal como outros muito sérios para o futuro da Humanidade, a crise financeira parece ter feito esquecer, mostrando bem como ela afastou os valores sociais e morais das preocupações políticas. Porém, os seus efeitos far-se-ão sentir com toda a crueza se, a tempo, o Homem não se der conta do que terá de mudar para poder viver em paz.
(Publicado no Notícias de Manteigas de Dezembro 2010)
Nem podia deixar de ser assim porque não é com “boa vontade” que se combate a pobreza e, muito menos, se erradica. A pobreza é um problema grave do Mundo que as circunstâncias vão tornando cada vez maior, sendo necessária uma mudança profunda do nosso modo de viver para que os limitados recursos naturais, que são de todos, possam proporcionar as condições satisfatórias de vida a que qualquer ser humano tem direito.
Nunca foi preocupação primeira do Homem a repartição a que a “caridade cristã” apela falando aos corações dos que mais têm mas que preferem ter cada vez mais porque nenhum mais é bastante, nem a que o “comunismo” teorizou e prometeu mas da qual apenas resultaram novas elites favorecidas, uma pobreza cada vez maior e um estrondoso fracasso. Mas também não será o capitalismo desenfreado, desrespeitador dos equilíbrios naturais indispensáveis à vida e indiferente à justiça social que preencherá o fosso que separa ricos e pobres.
Por isso a pobreza continua a ser a realidade que tenta encontrar, nas sobras dos que têm demais, aquilo de que necessita para sobreviver, numa proximidade de que foram resultando áreas cada vez mais extensas de barracas, bairros de lata, favelas, muceques, caniço, ou seja lá o que for que se lhes chame, a envolver cidades.
Mas o problema assume dimensões maiores, passando das cidades aos continentes e ao mundo inteiro, acompanhando a globalização que realça os desequilíbrios dentre os quais este é o mais desumano.
Para os que tentam escapar do inferno das zonas mais degradadas e pobres do mundo, a envelhecida Europa é um destino muito desejado, apesar de todos os seus problemas. São milhares, muitos milhares os que arriscam a vida para a alcançar e, quando o conseguem, por aqui se vão mantendo como podem, longe das vistas dos que têm a seu cargo controlar tais migrações. Apesar das más condições em que, tantas vezes, vivem, preferem-nas às que tinham no seu lugar de origem.
Num futuro não muito distante talvez sejam milhões, muitos milhões os que, seja por qual modo for, na Europa se tentarão instalar também, porque a população nas zonas mais desfavorecidas cresce a um ritmo muito elevado, do que resultam insuportáveis privações a que nenhum ser humano consegue resistir nem merece estar sujeito.
Há por esse mundo fora multidões amarguradas pela fome e pela doença, desejosas de se livrarem das dores a que, pelo nascimento, a sorte as condenou. Existem povos que autênticos carrascos escravizam e exploram em terras que, podendo ser férteis, as perseguições ou a guerra não deixam que nelas se produza o que lhes mataria a fome.
Os que se dizem defensores dos direitos do Homem deixam-se manietar por absurdas regras de conduta de um “Direito Internacional” pouco interventivo ou resguardam-se num conveniente faz-de-conta que não impede que execráveis opressores pratiquem barbaridades que, não raras vezes, atingem a “limpeza étnica”.
Assiste o chamado “mundo evoluído”, sereno, aos horrores que, por não serem seus, lhes não causam grande mossa, sem pensar que, um dia, talvez se veja envolvido na “grande confusão” que a sua falta de intervenção e de solidariedade para com os desfavorecidos originou. E se, alguma vez, eles resolvem reclamar a parte dos bens do mundo que lhes pertence? Como se pára a grande invasão?
A pobreza é um problema global que nenhum país ou continente pode, definitivamente, resolver só por si.
É mais um problema de dimensão mundial que, tal como outros muito sérios para o futuro da Humanidade, a crise financeira parece ter feito esquecer, mostrando bem como ela afastou os valores sociais e morais das preocupações políticas. Porém, os seus efeitos far-se-ão sentir com toda a crueza se, a tempo, o Homem não se der conta do que terá de mudar para poder viver em paz.
(Publicado no Notícias de Manteigas de Dezembro 2010)
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
UMA “INCOMPREENSÍVEL FORMA DE JULGAR”
O acórdão do tribunal de Primeira Instância que julgou e, praticamente, absolveu os elementos que constituíram o famoso “gang do Multibanco”, resumindo a sua condenação a dois anos e meio de prisão para um dos seus membros, foi duramente criticado pelo Tribunal da Relação que, por isso, mandou repetir o julgamento dos que, em pouco mais de dois anos, roubaram cerca de dois milhões em caixas ATM.
Apraz-me verificar que, nos seus comentários, o Tribunal da Relação se interroga “onde está, neste caso, a justiça que a Sociedade pretende e ao serviço da qual, supostamente, foram postas as leis?”.
Para além de todas as críticas, o TR considera a anterior decisão como “corrosiva para a imagem da Justiça”.
Poderia transferir o entendimento deste TR para diversos outros casos em que, também, se não terá feito a justiça que se esperaria que o fosse.
Estes juízes da Relação devem sentir bem como a Justiça está desqualificada em Portugal, onde acontecem as coisas mais estranhas que a Sociedade – a tal ao serviço da qual a Justiça supostamente está – não compreende e condena.
Bom seria que esta atitude marcasse uma mudança num estado de coisas alarmante em que a Justiça vezes demais se não faz em nome do Povo, como o deveria ser, mas sim em nome dos que conduzem os julgamentos e ditam as sentenças e, cometam os erros que cometerem, são inimputáveis.
Justiça rápida e confiável, na qual a Sociedade se reveja pelos valores que defende, é aquela de que necessitamos para fazer o país progredir.
Apraz-me verificar que, nos seus comentários, o Tribunal da Relação se interroga “onde está, neste caso, a justiça que a Sociedade pretende e ao serviço da qual, supostamente, foram postas as leis?”.
Para além de todas as críticas, o TR considera a anterior decisão como “corrosiva para a imagem da Justiça”.
Poderia transferir o entendimento deste TR para diversos outros casos em que, também, se não terá feito a justiça que se esperaria que o fosse.
Estes juízes da Relação devem sentir bem como a Justiça está desqualificada em Portugal, onde acontecem as coisas mais estranhas que a Sociedade – a tal ao serviço da qual a Justiça supostamente está – não compreende e condena.
Bom seria que esta atitude marcasse uma mudança num estado de coisas alarmante em que a Justiça vezes demais se não faz em nome do Povo, como o deveria ser, mas sim em nome dos que conduzem os julgamentos e ditam as sentenças e, cometam os erros que cometerem, são inimputáveis.
Justiça rápida e confiável, na qual a Sociedade se reveja pelos valores que defende, é aquela de que necessitamos para fazer o país progredir.
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