ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

sábado, 26 de março de 2016

OS TIM-TIM DE AGORA



Quando era miúdo havia, por semana, um dia em que, religiosamente e ao fim da tarde, subia as escadas até àquele terceiro andar onde se instalavam os “correios” lá da terra e, em bicos de pés para que o “ti” Zé Gaspar, o distribuidor do correio, me pudesse ver, esperava, ansioso, o “Papagaio”.
Eram as aventuras do Tim-Tim a causa da minha ansiedade. Tinha pressa para saber como ia continuar aquela história com personagens tão interessantes como, para além do próprio herói e o seu caozinho rom-rom (há quem lhe chame Milu), o capitão Adhhoc, os gémeos Dupond e muitos outros.
Personagens e histórias que o velho Hergé inventava para os mais novos.
Qual dos rapazes daquele tempo não tentou, alguma vez, imitar o inimitável penteado do Tim-Tim?
Não era fácil de fazer aquela popa, mas, obviamente, vesti calças como as que ele usava e, nos sonhos que tinha, quantas vezes o acompanhei nas suas aventuras, pois o grande sonho era ser como o Tim-Tim e praticar aqueles actos de bravura que ele praticava quando resolvia os pequenos/grandes problemas que se lhe deparavam.
Hoje, na terra de Hergé as histórias são outras.
Parece que os personagens enlouqueceram e que, até, o diabo anda à solta.
Gente que se faz explodir para que outros morram, “mártires” a quem convencem que no céu os esperam 12 virgens para satisfazerem todos os seus caprichos, como prémio dos horrores que praticaram na Terra.
Como tanta coisa mudou ao longo de uma simples vida como a minha, quando desde andar, à noite, em ruas tenuemente iluminadas por umas poucas lâmpadas esparsas, as ruas patrulhadas por ninguém e as portas das casas abertas eram a prova de um modo tranquilo como se vivia.
Apenas me preocupavam as “bruxas” que, diziam, por vezes apareciam para fazer as suas picardias e lançar maus olhados.
Encher o peito de ar, acreditar na força que tínhamos, semelhante à do Tim-Tim e, mesmo assim, evitar passar em certos lugares considerados mais perigosos, eram a solução.
Mas nunca vi nenhuma “bruxa”, então.
Vejo-as agora e a “bruxos” também, que me apoquentam muito a vida e aos quais não vejo como evitar.
E fico a pensar como reagiria o meu heróis de então nestas situações vulgares e de “bom tom” que a “civilização” inventou para tornar o mundo na confusão que é e onde nem fechar a porta a sete chaves nos livra dos assaltos que sofremos! Decerto nem saberia o que fazer.
A única semelhança que encontro nos "heróis" de agora é o penteado que eu nunca consegui fazer. É mais parecido com o que Tim-Tim usava, com aqueles tufos de cabelo lá no alto da cabeça. Nestes, talvez em vez de miolos…
As histórias, agora, também são outras.
Não as escrevem homens como o saudoso Hergé. São mentes maquiavélicas e desprovidas de humanidade quem as planeia, gente sem norte e para quem o gozo será arrastar os demais para o buraco em que se meteram…

quarta-feira, 23 de março de 2016

E QUANDO O MEDO SE INSTALA...



Desde os atentados terroristas de Paris que ouvia dizer que Bruxelas seria um coio dos terroristas do ISIS, porventura um dos quarteis-generais onde, na Europa, se preparam atentados e para onde teria fugido o cabecilha e mentor dos que aconteceram na capital francesa.
Oiço, agora, dizer que a Turquia teria avisado a Bélgica das acções de terror que ali estariam a ser preparadas.
E não posso deixar de me recordar de outras ocasiões em que grandes desastres aconteceram por falta de atenção aos avisos recebidos ou aos sinais que deveriam ter sido bem interpretados como, por exemplo, no ataque a Pearl Harbour que destruiu quase toda a armada americana do Pacífico e matou muitos milhares de pessoas.
A História está cheia de casos em que mais atenção aos avisos e às circunstâncias teria evitado danos a muitos inocentes.
Aquele bairro de Bruxelas, Molenbeek, é, desde há muitíssimo tempo, conhecido pela insegurança e pelo perigo, por isso um lugar propício aos aliciamentos que o ISIS faz.
Então, por que só agora esta acção que, se levada a cabo antes, evitaria mais umas dezenas de mortes e centenas de feridos?
Mas pouco interessará agora lamentar tudo isto porque mais não seria do que chorar sobre o leite derramado.
Importante me parece desmascarar os hipócritas que, fingindo lamentar as desgraças que acontecem, alimentam os que as provocam, fornecendo-lhes os meios de que necessitam para sobreviver, comprando-lhes o petróleo que lhes não pertence e lhes vendem os equipamentos bélicos com que fazem a sua guerra.
É por isso que será longa esta guerra, são centenas de milhares ou milhões os afectados por toda esta bagunça, a Síria não passa já de um montão de escombros e alguns lugares na Europa se tornaram em enormes campos de refugiados ou de escorraçados, não sei bem.
Quanto acordará o mundo deste pesadelo indigno de seres humanos? 
Quando será este o mundo da PAZ pela qual tantos aspiram em vez de ser o mundo assustado que é, tanto que uma simples mala esquecida na zona de Entrecampos perturbou, hoje, a vida de Lisboa ao longo de horas. 
Porque o medo está já por todo o lado.

segunda-feira, 21 de março de 2016

CONTINUAMOS A VIVER COMO NO PASSADO, NUM FUTURO QUE JÁ CHEGOU!



Passei oitenta anos da minha vida a ver a evolução que parecia levar-nos, sem a menor dúvida, de volta ao paraíso de onde, diz a Bíblia, havíamos sido expulsos.
A evolução científica e tecnológica era, ninguém o duvidava, o caminho de um regresso triunfal depois de um longo e penoso tempo a comer o pão amassado com o suor do rosto. Era a vitória da inteligência do Homem.
Porém, parece que num processo cada vez melhor dominado, ao ponto de, como diz Stephen Hawking, o Homem já não precisar de Deus para explicar seja o que for do mundo em que vive e do universo em que se integra, alguma coisa deixou de correr como corria.
É, por isso, que procuro uma razão de ser para tanta coisa quase inexplicável que se passa nesta crise que os costumeiros remédios já não curam e para estes tempos que, aos poucos, mas cada vez mais de pressa, se vão tornando muito diferentes e fogem, cada vez mais, ao controlo.
Fomos tomando as mudanças como coisas que rapidamente passariam, voltando tudo “ao normal” porque é assim que as coisas sempre foram, acreditando no poder do Homem para resolver, como sempre tinha acontecido, todos os problemas com que se deparasse!
Esqueceu-se o Homem de reparar no curtíssimo instante em que tais coisas se passaram, de o comparar com o tempo infinito, do qual não passa de um pequeno nada.
O Homem tornou-se num deus sobranceiro que ignora os avisos da Natureza da qual julgou ter-se desvinculado para a dominar em seu proveito.
Estranha forma de pensar e leviano modo de proceder pois, pela mudança natural e continuada que a nossa ambição acelera, nada voltará a ser como era e, por não lhe prestarmos atenção, nem ideia fazemos de como é o futuro em que já vivemos.
Por exemplo, achei curiosa uma pequena reportagem que uma televisão mostrou de uma iniciativa do Instituto Ricardo Jorge, na qual pedia que lhe enviássemos mosquitos que encontrássemos e nos parecessem diferentes dos habituais, por ser bem possível que alguns, transmissores de doenças que já havíamos erradicado, voltem a aparecer por aqui ou até já cá se encontrem, trazendo, com eles, os males que outrora tantos danos nos causaram. O que, em saúde, será mais um problema a acrescentar àquele que os antibióticos permitiram resolver mas cada vez menos resolvem.
O mesmo acontecerá em outros domínios onde, quase por certo, em consequência das mudanças climáticas, ocorrerão transtornos profundos na agricultura, na pecuária e nas pescas pelas transformações de habitats que alterarão a localização das espécies e, porventura, eliminarão algumas, alterarão a temporização dos seus ciclos de reprodução, além de outras consequências ainda mal conhecidas ou desconhecidas de todo.
O Homem está a fazer do seu mundo um mundo diferente ao qual se não habituará facilmente nem depressa e menos ainda se continuar a preparar o futuro à semelhança do que acontecia num passado que se não repetirá.
É nisto que não entendo os políticos aos quais competiria preparar os caminhos do futuro, perscrutando-o nos sinais que a Natureza envia a cada instante mas que, em vez disso, se confrontam ainda como nos tempos da Revolução francesa, em lutas entre direita e esquerda, sem se darem conta de que os problemas são hoje bem diferentes e a luta é outra. 

sábado, 19 de março de 2016

UMA OUTRA RENASCENÇA



Pouco se me dá que seja o Sócrates, o Vara, o Lula ou a Dilma ou, ainda, outro qualquer, pois só me interessa que, de uma vez por todas, a Justiça, aqui ou seja onde for, deixe de se entreter apenas com coisas vulgares para se ocupar dos ídolos com pés de barro, pessoas como outras quaisquer, entre as quais vigaristas ou bandidos como outros quaisquer pode haver, ou bem piores até, pelas vantagens que as condições que criam lhes consentem.
Poderemos nós, os cidadãos que pagam os impostos que alimentam o Estado, continuar à mercê de quem decida gastá-los também em seu proveito?
Já é demais o tempo em que dura o medieval hábito de sacar dinheiro ao povo para encher os cofres dos senhores, mas tal tem de acabar.
Basta de tretas, a Justiça tem de renascer com a coragem de enfrentar os que a dominavam, os que, com seus poderes, a amestravam nas práticas de subserviência que os deixava à solta.
Começa a Justiça nobre a irromper pelos “impérios” dos que dela se julgavam senhores, levando em boa conta o que eles próprios disseram na argumentação que faziam na luta pelo poder, nas razões pelas quais convenceram tantos a entregar-lhes as chaves do cofre da fortuna, permitindo-lhes usá-lo como bem entendessem.
Mas a democracia tem regras a cumprir, pelas quais todos devemos zelar em vez de nos deixarmos seduzir pelas migalhas que nos atiram para nos calar. E uma delas é exigir daqueles a quem confiámos a nossa quota parte de poder que dele faça bom uso em nosso proveito e não em proveito próprio, como os factos mostram que muitos fazem ou terão feito.
Depois não me digam que não há coincidências…

terça-feira, 15 de março de 2016

A IMAGINAÇÃO BARALHADA



(yronikamente)
Parece que os governantes portugueses ainda não entenderam que não estão sós no mundo e que o que se passa neste cantinho pouco ou nenhum efeito terá no futuro que aí vem e nos mostrará como, de facto, as coisas são mais difíceis quando temos a veleidade de corrigir erros com erros ou como fazemos figura de idiotas chapados quando nos convencemos de que descobrimos a pólvora!
Estranho é, também, que as novidades não passem de reposições requentadas de outras que não foram felizes como esta da diferença de preço dos combustíveis em relação a Espanha, um erro crasso que teve de ser corrigido.
Mas será que nunca aprendemos nada com os erros que cometemos? Como será possível se é com os erros que mais se aprende?
Será por falta de inteligência? Não me parece porque, tantas vezes o demonstrámos, não somos menos do que quaisquer outros.
Por que será então? Imaginação baralhada... 
E quem diria que seria por um pedido patético de “sejam patriotas não vão meter gasolina a Espanha” que não sairá muito dinheiro do país e os impostos que os demais pagam não chegarão para compensar as perdas que de tal resultam?
Portugal tornou-se na forma acabada e incurável da “doença da pele curta”, quando não adianta puxar daqui pois logo a pele falta num outro lado qualquer.
E está prestes a tornar-se na anedota da Europa quando o ministro da agricultura pensa que as manifestações de quem sente a sua vida acabar, crê ser em seu apoio que acontecem. Não sei se pelo que outrora já fez se pelo que agora tenta fazer e não passará de deixar morrer os que menos resistência têm, se alguém a tiver, para sobreviver à concorrência dos refugos de leite e de carne que nos impingem a preços que não podem, de modo algum, pagar a produção.
Não gostaria de voltar a um novo resgate que obrigará a mais austeridade do que aquela que vivemos pois redução alguma aconteceu ainda e, para mal dos nossos pecados, não acontecerá.