Neste momento em que o apelo à concertação é um estribilho em todos os discursos sobre a recuperação de Portugal, esta é uma das muitas mensagens que Sócrates quer fazer passar como uma verdade que nem na sua cabeça existe:
O primeiro-ministro (J Sócrates) afirmou esta segunda-feira que há muito tempo que anda a apelar à concertação entre todos os políticos e que Portugal poderia ter evitado muitas situações caso tivesse seguido esse espírito de consenso e de diálogo. (Correio da Manhã, 25 Abril 2011)
Reconhecido pelo seu carácter autoritário, pouco dado a admitir ser contrariado e muito convencido da sua verdade, Sócrates apenas aceita como forma de concertação uma fila de seguidores que acatem, sem discussões, as suas ordens, mostrem estar de acordo com os seus desígnios e, portanto, procedam em conformidade com as suas instruções!
As provas públicas de ser assim vêm de tão longe quanto a sua primeira vitória política e são tantas quantas as que comprovam ser ele um mestre na contradição.
Sócrates é, emocionalmente, um homem isolado, socialmente é um ser detestado mas, politicamente, é um dominador.
Como ouvi dizer a Manuel Maria Carrilho num comentário televisivo, Sócrates é tão mau político quanto é bom candidato, o que só pode significar que é mestre a convencer das virtudes dos seus erros.
De facto ele sabe, em cada momento, o que os menos avisados gostam de ouvir, talvez por ser aquilo que todos dizem em contradição com o que ele havia feito mas que, deste modo, se torna uma “verdade” de Sócrates!
Talvez por isto as suas possibilidades de vencer, de novo, as próximas eleições são inversamente proporcionais às pesadas culpas que todos apontam serem as suas na degradação da situação portuguesa (inquéritos e sondagens da Marktest).
Se for assim, para o povo que gosta de ser enganado, um Primeiro-Ministro a condizer para continuar tudo igual num país em que todos sentem a necessidade de uma mudança!
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ACORDO ORTOGRÁFICO
O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
E AGORA… TODOS “À RASCA”!
Até há uns anos atrás, “à rasca” era coisa feia de dizer nem que o ventre rebentasse por uma enorme vontade de fazer xixi! Não se dizia isso, nem “bué”, nem “tá-se”, nem tantas outras palavras com que agora se constroem frases das quais, algumas vezes, me custa perceber o sentido.
Há palavras novas que fazem a linguagem mudar ao longo do tempo, como mudam os juízos, as atitudes e o significado de muitas e muitas coisas. Mas também velhas palavras e termos, como “recorrente”, “em cima da mesa” e outros, a par de americanismos como “vinte e quatro sobre vinte e quatro horas”, se tornaram insistentes num discurso cada vez mais pobre, monótono e desagradável.
Não sou um “modernista” para quem tudo o que é recente é melhor, nem um saudosista dos “bons velhos tempos” que desdenha de tudo o que é novo porque sei que o valor das coisas não depende necessariamente da sua idade, ainda que não seja indiferente às circunstâncias.
Tento adaptar-me à mudança, ser compreensivo quanto aos desejos de diferença mas não consigo deixar de ser conservador quando se trata de princípios e de valores básicos nos quais as “modernices” nunca me convencem.
Respeitar o semelhante, ter especiais cuidados com os mais velhos, com os mais fracos e com os menos dotados, dar-lhes prioridade, ajudá-los, são princípios de respeito e de solidariedade que me ensinaram mas que noto cada vez mais ignorados ou oportunistamente aproveitados.
Tenho, ainda, como exemplos de nobreza Egas Moniz que, de corda ao pescoço, se apresentou ao Rei de Leão como responsável pela rebeldia do seu pupilo Afonso Henriques ao fundar Portugal e, para além de outros, D João de Castro, Vice-Rei da Índia, que fez dos “pelos das suas barbas” penhor da sua honradez. Atitudes “simplórias”, dir-se-á do que para alguns será, à luz dos seus princípios de comportamento, motivo de chacota!
Antes, os homens responsáveis deviam, pelo que eram e pela sua conduta, dar confiança e garantia de seriedade tal como à mulher de César se exigia, para além de ser séria, que séria parecesse, também.
Há muito que lá vai o tempo em que as coisas eram quase o que pareciam, as palavras tinham um significado compreensível e enganar ou dar o dito por não dito era próprio de charlatães.
Frontalidade é agora, demasiadas vezes, o nome que se dá à grosseria, a brejeirice passou a ser o toque chique da linguagem dos pretensiosos, o oportunismo disfarça-se com as virtudes da oportunidade e a vigarice intelectual tornou-se o meio mais eficaz para o sucesso em carreiras em que apenas os competentes deveriam singrar.
Os resultados destas “novidades” começam a notar-se no estado calamitoso de Portugal e da Sociedade Portuguesa, governados pela “esperteza saloia” daqueles que não vivem a vida dos que por ela mais têm de lutar e, por isso, não podem entender o porquê das preferências de investimento em obras de fachada que arruínam o país e do pedido de mais e maiores sacrifícios que mais dura tornam a sua já penosa luta.
Se os “velhos” tem alguma vantagem, será a protecção que a longa vivência lhes dá contra as patranhas dos vendedores de ilusões, o que, infelizmente, não reduz os riscos dos que, por si, estão neste mundo do qual esperavam o que lhes não dá porque, antes, outros o exauriram.
É a “geração à rasca” porque acreditou em promessas dos que, com fome de poder, prometem o que não podem dar, garantem o que sabem não poder fazer e, de malabarismo em malabarismo, criam situações que conduzem a perdas sucessivas de soberania de um país com quase 900 anos.
É o “país à rasca” pelos erros sucessivos de quem não sabe governar para bem dos portugueses, ainda que faça do Estado Social, ao qual não garante os meios nem as condições, uma bandeira que os ventos cada vez mais fortes das evidências vão esfarrapando!
Bom seria que sem arrogância, com atitudes mais sóbrias, palavras mais claras e oportunidade real se voltasse a governar este país, sem sonhos de grandezas impossíveis e com um discurso sério e compreensível como o bom português permite que seja.
Que regresse o orgulho de sermos portugueses, que volte o brio da verdade, que renasça o espírito de causa que já nos fez grandes e se perca, para sempre, o ridículo de querermos ser o que não somos.
Ao longo de mais de dois anos, referi-me aqui aos riscos de uma crise profunda e longa mesmo quando alguns já viam “luzinhas ao fundo do túnel”, critiquei uma governação sem qualidade e perigosa que nos conduziria ao desastre, falei dos perigos de uma geração sem futuro e de um país sem rumo.
Mas é um daqueles casos em que ter razão não nos trás qualquer conforto.
Rui de Carvalho
10 Março 2011
PUBLICADO NO NOTÍCIAS DE MANTEIGAS DE ABRIL
Há palavras novas que fazem a linguagem mudar ao longo do tempo, como mudam os juízos, as atitudes e o significado de muitas e muitas coisas. Mas também velhas palavras e termos, como “recorrente”, “em cima da mesa” e outros, a par de americanismos como “vinte e quatro sobre vinte e quatro horas”, se tornaram insistentes num discurso cada vez mais pobre, monótono e desagradável.
Não sou um “modernista” para quem tudo o que é recente é melhor, nem um saudosista dos “bons velhos tempos” que desdenha de tudo o que é novo porque sei que o valor das coisas não depende necessariamente da sua idade, ainda que não seja indiferente às circunstâncias.
Tento adaptar-me à mudança, ser compreensivo quanto aos desejos de diferença mas não consigo deixar de ser conservador quando se trata de princípios e de valores básicos nos quais as “modernices” nunca me convencem.
Respeitar o semelhante, ter especiais cuidados com os mais velhos, com os mais fracos e com os menos dotados, dar-lhes prioridade, ajudá-los, são princípios de respeito e de solidariedade que me ensinaram mas que noto cada vez mais ignorados ou oportunistamente aproveitados.
Tenho, ainda, como exemplos de nobreza Egas Moniz que, de corda ao pescoço, se apresentou ao Rei de Leão como responsável pela rebeldia do seu pupilo Afonso Henriques ao fundar Portugal e, para além de outros, D João de Castro, Vice-Rei da Índia, que fez dos “pelos das suas barbas” penhor da sua honradez. Atitudes “simplórias”, dir-se-á do que para alguns será, à luz dos seus princípios de comportamento, motivo de chacota!
Antes, os homens responsáveis deviam, pelo que eram e pela sua conduta, dar confiança e garantia de seriedade tal como à mulher de César se exigia, para além de ser séria, que séria parecesse, também.
Há muito que lá vai o tempo em que as coisas eram quase o que pareciam, as palavras tinham um significado compreensível e enganar ou dar o dito por não dito era próprio de charlatães.
Frontalidade é agora, demasiadas vezes, o nome que se dá à grosseria, a brejeirice passou a ser o toque chique da linguagem dos pretensiosos, o oportunismo disfarça-se com as virtudes da oportunidade e a vigarice intelectual tornou-se o meio mais eficaz para o sucesso em carreiras em que apenas os competentes deveriam singrar.
Os resultados destas “novidades” começam a notar-se no estado calamitoso de Portugal e da Sociedade Portuguesa, governados pela “esperteza saloia” daqueles que não vivem a vida dos que por ela mais têm de lutar e, por isso, não podem entender o porquê das preferências de investimento em obras de fachada que arruínam o país e do pedido de mais e maiores sacrifícios que mais dura tornam a sua já penosa luta.
Se os “velhos” tem alguma vantagem, será a protecção que a longa vivência lhes dá contra as patranhas dos vendedores de ilusões, o que, infelizmente, não reduz os riscos dos que, por si, estão neste mundo do qual esperavam o que lhes não dá porque, antes, outros o exauriram.
É a “geração à rasca” porque acreditou em promessas dos que, com fome de poder, prometem o que não podem dar, garantem o que sabem não poder fazer e, de malabarismo em malabarismo, criam situações que conduzem a perdas sucessivas de soberania de um país com quase 900 anos.
É o “país à rasca” pelos erros sucessivos de quem não sabe governar para bem dos portugueses, ainda que faça do Estado Social, ao qual não garante os meios nem as condições, uma bandeira que os ventos cada vez mais fortes das evidências vão esfarrapando!
Bom seria que sem arrogância, com atitudes mais sóbrias, palavras mais claras e oportunidade real se voltasse a governar este país, sem sonhos de grandezas impossíveis e com um discurso sério e compreensível como o bom português permite que seja.
Que regresse o orgulho de sermos portugueses, que volte o brio da verdade, que renasça o espírito de causa que já nos fez grandes e se perca, para sempre, o ridículo de querermos ser o que não somos.
Ao longo de mais de dois anos, referi-me aqui aos riscos de uma crise profunda e longa mesmo quando alguns já viam “luzinhas ao fundo do túnel”, critiquei uma governação sem qualidade e perigosa que nos conduziria ao desastre, falei dos perigos de uma geração sem futuro e de um país sem rumo.
Mas é um daqueles casos em que ter razão não nos trás qualquer conforto.
Rui de Carvalho
10 Março 2011
PUBLICADO NO NOTÍCIAS DE MANTEIGAS DE ABRIL
domingo, 10 de abril de 2011
O CONGRESSO DO FAZ DE CONTA
Como pode haver evolução sem ideias? Como pode haver ideias sem reflexão? Como pode reflectir-se sem espírito aberto que, sem preconceitos, questione situações e factos?
Estas foram as questões que o congresso do PS me colocou quando, pelas intervenções dos principais responsáveis do partido, verifiquei que nada mais ali aconteceu do que uma ruidosa reunião narcisista, um enorme comício de início de uma campanha que se antevê muito empenhada na reconquista do poder mas despreocupada com os sacrifícios que todos estamos a sofrer e muito mais ainda sofreremos, porque são a consequência do que o governo socialista muito se orgulha de ter feito!
Ao contrário do que o Poeta cantou, “ditosa pátria que tais filhos teve”, parece termos de lamentar estes filhos que a pátria tem!
Estas foram as questões que o congresso do PS me colocou quando, pelas intervenções dos principais responsáveis do partido, verifiquei que nada mais ali aconteceu do que uma ruidosa reunião narcisista, um enorme comício de início de uma campanha que se antevê muito empenhada na reconquista do poder mas despreocupada com os sacrifícios que todos estamos a sofrer e muito mais ainda sofreremos, porque são a consequência do que o governo socialista muito se orgulha de ter feito!
Ao contrário do que o Poeta cantou, “ditosa pátria que tais filhos teve”, parece termos de lamentar estes filhos que a pátria tem!
quinta-feira, 31 de março de 2011
QUANTO PIOR MELHOR
Torna-se evidente, no discurso socialista, a velha tara do quanto pior melhor, pois é a única via que têm para mostrar que estavam certos e que eram a única força política capaz de resolver a crise que criaram!
São, sem a menor dúvida, os magos da manipulação, como o foram nas anteriores eleições e como tentarão sê-lo nas próximas.
Eu pergunto-me como poderá o país esperar, de políticos como estes, o esforço conjunto de que necessita para ultrapassar a situação gravíssima em que o mau governo socialista que se esqueceu das pessoas o lançou.
É mais do que evidente o mote socialista da próxima campanha eleitoral, durante a qual procurará baralhar os factos e confundir as ideias, evitando que os portugueses votem esclarecidos e, deste modo, tenham o governo que julguem mais adequado para defender os seus interesses.
Assim, nem o fim deste governo de “malhadores” nos poderá garantir um futuro mais calmo, com menos verborreia e mais trabalho que nos faça aumentar a produtividade.
Mas agora pergunto: onde já viram um governo socialista fazer o povo feliz? Na União Soviética? Na China? Na Roménia? Em Portugal? Na Espanha?
Pois… não me lembro de nenhum.
São, sem a menor dúvida, os magos da manipulação, como o foram nas anteriores eleições e como tentarão sê-lo nas próximas.
Eu pergunto-me como poderá o país esperar, de políticos como estes, o esforço conjunto de que necessita para ultrapassar a situação gravíssima em que o mau governo socialista que se esqueceu das pessoas o lançou.
É mais do que evidente o mote socialista da próxima campanha eleitoral, durante a qual procurará baralhar os factos e confundir as ideias, evitando que os portugueses votem esclarecidos e, deste modo, tenham o governo que julguem mais adequado para defender os seus interesses.
Assim, nem o fim deste governo de “malhadores” nos poderá garantir um futuro mais calmo, com menos verborreia e mais trabalho que nos faça aumentar a produtividade.
Mas agora pergunto: onde já viram um governo socialista fazer o povo feliz? Na União Soviética? Na China? Na Roménia? Em Portugal? Na Espanha?
Pois… não me lembro de nenhum.
quinta-feira, 24 de março de 2011
COMEÇO DE SOLUÇÃO OU MAIS UM BURACO?
Francamente, penso que foi tarde e a más horas que esta crise política se abriu. Tudo indicava que ela era inevitável e que uma nova era deveria começar.
Passou demasiado tempo, desde as últimas eleições que todos sentimos terem sido influenciadas por um conjunto de habilidades e truques que retiraram aos eleitores a informação que deveriam ter para votarem esclarecidos, tendo o governo ou José Sócrates jogado com uma série de circunstâncias que deram origem aos equívocos que conduziu o país a uma situação complicada.
Se isto comprova um estilo oportunista do governo denota, também, falta de destreza da oposição, sobretudo do PSD que nunca reagiu a tempo às armadilhas que lhe foram armadas. Recheado de razões, nunca as utilizou correctamente nem lhes fez corresponder as consequências que seriam de esperar.
Isto faz temer que a situação de ruptura agora criada possa não atingir objectivos satisfatórios o que, a ser assim, a pode tornar, além de inútil, perversa.
A “maioria” que derrubou Sócrates não é uma maioria homogénea porque não tem um entendimento comum do que seja a via para recuperar o país e nada permite esperar que, de novas eleições, se forme uma maioria com as características de estabilidade política que a solução dos problemas portugueses necessita urgentemente.
Mas, criada que foi, a crise deverá ter uma solução rápida, tão rápida quanto possível para evitar que Portugal tenha de sofrer os males a que dificilmente resistiria.
As declarações dos políticos socialistas, de verdadeiro ressabiamento, não permite esperar o melhor.
Sócrates insiste em não sair da cena política e, com ele, não vejo como constituir a “maioria de salvação nacional” de que o país precisa urgentemente.
Passou demasiado tempo, desde as últimas eleições que todos sentimos terem sido influenciadas por um conjunto de habilidades e truques que retiraram aos eleitores a informação que deveriam ter para votarem esclarecidos, tendo o governo ou José Sócrates jogado com uma série de circunstâncias que deram origem aos equívocos que conduziu o país a uma situação complicada.
Se isto comprova um estilo oportunista do governo denota, também, falta de destreza da oposição, sobretudo do PSD que nunca reagiu a tempo às armadilhas que lhe foram armadas. Recheado de razões, nunca as utilizou correctamente nem lhes fez corresponder as consequências que seriam de esperar.
Isto faz temer que a situação de ruptura agora criada possa não atingir objectivos satisfatórios o que, a ser assim, a pode tornar, além de inútil, perversa.
A “maioria” que derrubou Sócrates não é uma maioria homogénea porque não tem um entendimento comum do que seja a via para recuperar o país e nada permite esperar que, de novas eleições, se forme uma maioria com as características de estabilidade política que a solução dos problemas portugueses necessita urgentemente.
Mas, criada que foi, a crise deverá ter uma solução rápida, tão rápida quanto possível para evitar que Portugal tenha de sofrer os males a que dificilmente resistiria.
As declarações dos políticos socialistas, de verdadeiro ressabiamento, não permite esperar o melhor.
Sócrates insiste em não sair da cena política e, com ele, não vejo como constituir a “maioria de salvação nacional” de que o país precisa urgentemente.
terça-feira, 22 de março de 2011
A MORTE DE ARTUR AGOSTINHO
Poderá já não significar muito para os mais jovens mas, para mim, ele foi de enorme importância. No tempo dos meus dez anos, ainda há pouco tempo a rádio tinha feito o seu aparecimento em Portugal, escutar o seu “programa da manhã” para tomar a sua “vitamina da alegria” era quase indispensável para um bom começo de dia.
Era um programa que dispunha bem.
Também, para “viver” as vitórias do meu Sporting, era de ouvido colado ao rádio que escutava os seus relatos que me contavam as “tropelias” que os meus ídolos faziam aos seus adversários. A bola lá ia de um para outro e outro, até ao golo que ele gritava a plenos pulmões!
Era a voz da rádio portuguesa que gostávamos de ouvir, que gostávamos nos entrasse pela casa dentro sem pedir licença.
Era no seu BDMBD – bom dia, muito bom dia – que nos sentíamos animados para mais um dia que teríamos de enfrentar.
Agora, QDTTED – que Deus te tenha em descanso!
Era um programa que dispunha bem.
Também, para “viver” as vitórias do meu Sporting, era de ouvido colado ao rádio que escutava os seus relatos que me contavam as “tropelias” que os meus ídolos faziam aos seus adversários. A bola lá ia de um para outro e outro, até ao golo que ele gritava a plenos pulmões!
Era a voz da rádio portuguesa que gostávamos de ouvir, que gostávamos nos entrasse pela casa dentro sem pedir licença.
Era no seu BDMBD – bom dia, muito bom dia – que nos sentíamos animados para mais um dia que teríamos de enfrentar.
Agora, QDTTED – que Deus te tenha em descanso!
O TEMPO E O HOMEM
Da observação do percurso do astro-rei no firmamento à evolução das sombras que provoca, do isocronismo das pequenas oscilações pendulares à velocidade de escoamento de areia fina na ampulheta que a confina, dos complicados mecanismos dos clássicos relógios suíços aos simples impulsos eléctricos de um pequeno cristal de quartzo, tudo nos faz crer que o tempo corre de um modo uniforme, que o tempo não se adianta nem se atrasa!
Aparentemente é assim. Mas não escandalizarei ao afirmar que o tempo não corre sempre por igual, para o que não vou socorrer-me da teoria da relatividade que fala da sua contracção. Prefiro, em vez de me envolver nos complexos meandros de tal ciência nos quais, por certo, aqui me perderia, falar de coisas simples, de como o tempo corre lento quando a nossa ansiedade espera por coisas importantes como o podem ser um encontro, uma resposta, o resultado de um exame ou, porque não, o primeiro beijo. Pelo contrário, ele parece-nos demasiadamente célere quando tentamos alcançar o que desejamos ou se aproxima o fim do que nos dá prazer!
O tempo parece ter corrido bem lentamente para permitir a Alexandre Magno conquistar meio mundo antes de morrer com pouco mais de trinta anos. Ao contrário, apercebemo-nos de que o tempo foge veloz, se nos escapa por entre os dedos quando, no balanço de cada dia, nos damos conta do que não tivemos tempo para fazer.
Afinal a que velocidade corre este tempo que se mede em unidades que vão desde pequenas e imperceptíveis parcelas de nanossegundos, a segundos, a horas, a dias ou anos, a séculos de séculos até à incomensurável eternidade?
Não é fácil determinar a que velocidade corre o tempo.
Deixei de ver o velho sentado à porta de casa nas calmas noites de Verão, tendo por companhia a bilha de barro que lhe fazia a água fresca. Em vez dele que, num tempo que corria calmo, parecia ter todo o tempo do mundo, passei a ver passar, em atitudes frenéticas, passadas largas e corridas, “gurus” disto e daquilo que fazem de umas dentadas numa sensaborona comida de plástico, intercaladas com ininterruptos telefonemas, o seu almoço, para assim aproveitarem um pouco mais do tempo que nunca lhes é bastante.
Afinal, a que velocidade corre o tempo?
E como o tempo mudou! Corre mais rápido ou passamos mais depressa por ele? Talvez o segundo ponto de vista nos esclareça melhor.
Vou propor-lhes um exercício que, há muito tempo, me propuseram também. Tem por fim dar às coisas uma dimensão que a nossa limitada capacidade de observação possa abranger no seu todo, tal como quando reduzimos um extenso território ou o mundo inteiro a um pequeno mapa.
Estima-se que a Terra, este planeta que habitamos, se formou há cerca de quatro mil e quinhentos milhões de anos, um período de tempo tão longo que, sem referências que possamos reconhecer, nem sequer conseguimos imaginar porque vai muito para além de qualquer experiência que possamos ter vivido! Para o compreender e como em outras circunstâncias o fazemos, vamos utilizar um factor de escala que faça corresponder a idade da Terra ao período de um ano.
Nesta representação, o desaparecimento dos dinossauros, ocorrido há 65 milhões de anos, aconteceu há pouco mais de cinco dias, o Homem moderno apareceu em África há pouco mais de dez horas, enquanto a revolução industrial se iniciou em Inglaterra há menos de dois segundos.
Quanto a mim que já levo vividos mais de três quartos de século, ainda mal terei saído do ventre da minha mãe que a morte já me levou e não terei mais do que uns brevíssimos milissegundos para viver!
É isto que me mostra a medida da insignificância do Homem perante o Universo imenso do qual, apesar de tudo, faz parte.
É esta participação a razão de ser da sua grandeza que apenas algo bem maior do que ele e do qual faz parte, pode justificar.
Haverá, ainda, quem pense que, com o saber que vai acumulando, o Homem se libertará das Leis da Natureza a que pertence, dominará tudo e todos e se tornará, um dia, um deus?
Rui de Carvalho
Lisboa 10 de Fevereiro 2011
rui.m.gaspardecarvalho@sapo.pt
Posfácio
Não é apenas o que se passa à nossa volta que nos faz pensar, que nos pode preocupar porque há dentro de nós um milhão de razões para reflectir e tentar dar uma resposta à Bocagiana pergunta: quem sou, de onde venho e para onde vou?
PUBLICADO NO NOTÍCIAS DE MANTEIGAS DE MARÇO
Aparentemente é assim. Mas não escandalizarei ao afirmar que o tempo não corre sempre por igual, para o que não vou socorrer-me da teoria da relatividade que fala da sua contracção. Prefiro, em vez de me envolver nos complexos meandros de tal ciência nos quais, por certo, aqui me perderia, falar de coisas simples, de como o tempo corre lento quando a nossa ansiedade espera por coisas importantes como o podem ser um encontro, uma resposta, o resultado de um exame ou, porque não, o primeiro beijo. Pelo contrário, ele parece-nos demasiadamente célere quando tentamos alcançar o que desejamos ou se aproxima o fim do que nos dá prazer!
O tempo parece ter corrido bem lentamente para permitir a Alexandre Magno conquistar meio mundo antes de morrer com pouco mais de trinta anos. Ao contrário, apercebemo-nos de que o tempo foge veloz, se nos escapa por entre os dedos quando, no balanço de cada dia, nos damos conta do que não tivemos tempo para fazer.
Afinal a que velocidade corre este tempo que se mede em unidades que vão desde pequenas e imperceptíveis parcelas de nanossegundos, a segundos, a horas, a dias ou anos, a séculos de séculos até à incomensurável eternidade?
Não é fácil determinar a que velocidade corre o tempo.
Deixei de ver o velho sentado à porta de casa nas calmas noites de Verão, tendo por companhia a bilha de barro que lhe fazia a água fresca. Em vez dele que, num tempo que corria calmo, parecia ter todo o tempo do mundo, passei a ver passar, em atitudes frenéticas, passadas largas e corridas, “gurus” disto e daquilo que fazem de umas dentadas numa sensaborona comida de plástico, intercaladas com ininterruptos telefonemas, o seu almoço, para assim aproveitarem um pouco mais do tempo que nunca lhes é bastante.
Afinal, a que velocidade corre o tempo?
E como o tempo mudou! Corre mais rápido ou passamos mais depressa por ele? Talvez o segundo ponto de vista nos esclareça melhor.
Vou propor-lhes um exercício que, há muito tempo, me propuseram também. Tem por fim dar às coisas uma dimensão que a nossa limitada capacidade de observação possa abranger no seu todo, tal como quando reduzimos um extenso território ou o mundo inteiro a um pequeno mapa.
Estima-se que a Terra, este planeta que habitamos, se formou há cerca de quatro mil e quinhentos milhões de anos, um período de tempo tão longo que, sem referências que possamos reconhecer, nem sequer conseguimos imaginar porque vai muito para além de qualquer experiência que possamos ter vivido! Para o compreender e como em outras circunstâncias o fazemos, vamos utilizar um factor de escala que faça corresponder a idade da Terra ao período de um ano.
Nesta representação, o desaparecimento dos dinossauros, ocorrido há 65 milhões de anos, aconteceu há pouco mais de cinco dias, o Homem moderno apareceu em África há pouco mais de dez horas, enquanto a revolução industrial se iniciou em Inglaterra há menos de dois segundos.
Quanto a mim que já levo vividos mais de três quartos de século, ainda mal terei saído do ventre da minha mãe que a morte já me levou e não terei mais do que uns brevíssimos milissegundos para viver!
É isto que me mostra a medida da insignificância do Homem perante o Universo imenso do qual, apesar de tudo, faz parte.
É esta participação a razão de ser da sua grandeza que apenas algo bem maior do que ele e do qual faz parte, pode justificar.
Haverá, ainda, quem pense que, com o saber que vai acumulando, o Homem se libertará das Leis da Natureza a que pertence, dominará tudo e todos e se tornará, um dia, um deus?
Rui de Carvalho
Lisboa 10 de Fevereiro 2011
rui.m.gaspardecarvalho@sapo.pt
Posfácio
Não é apenas o que se passa à nossa volta que nos faz pensar, que nos pode preocupar porque há dentro de nós um milhão de razões para reflectir e tentar dar uma resposta à Bocagiana pergunta: quem sou, de onde venho e para onde vou?
PUBLICADO NO NOTÍCIAS DE MANTEIGAS DE MARÇO
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