ACORDO ORTOGRÁFICO

O autor dos textos deste jornal declara que NÃO aderiu ao Acordo Ortográfico e, por isso, continua a adoptar o anterior modo de escrever.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

AFINAL, O QUE SE PASSA NO PAÍS?


O ex-Presidente da República Jorge Sampaio, de quem os jornalistas tentaram saber o que pensava sobre a prisão de Sócrates, limitou-se a dizer estar “muito preocupado com o que se está a passar no país”!
Foi pena não dizer o que se está a passar que tanto assim o preocupa porque considero Sampaio um político em quem o que aconteça não provoca reacções intempestivas mas ponderadas, um homem sensato e com capacidade para analisar os momentos que se vivem, as circunstâncias e os problemas que mereçam particular atenção.
Fiquei sem o saber, mas duvido que Sampaio engrosse as fileiras dos que entendem ser a “operação marquês” apenas uma cabala montada pelos que “estão a empobrecer o país e, em vez de Sócrates, deveriam ser presos”. Talvez por isso se tenha escusado a dizer o que pensa porque mais ainda poderia destacar as intempestivas reacções do seu camarada Soares nesta hora, sem dúvida complicada, que requer mais ponderação e bom senso do que reacções desbocadas.
Tenho entendido o que se vem passando no país não como algo que me preocupe demais mas como uma inflexão que as circunstâncias impuseram num já longo caminho de “desmandos democráticos”, das liberdades sem limites, das leviandades sem contenção e da utopia de um eldorado em que, sem preocupações, todos viveríamos felizes.
Já que a razão não foi capaz de o prever, mostraram as circunstâncias que esse lugar de sonho para que a Constituição aponta nos seus propósitos, não existe. Por isso seria inevitável que chegasse este momento de por as coisas no seu devido lugar, a hora de esclarecer o que tiver de ser esclarecido e de fazer o que tiver de ser feito para endireitar o caminho que teremos de fazer pelo nosso pé. Não às costas de alguém e ser regido por regras democráticas sensatas e justas.
Preocupava-me, sim, a caminhada irresponsável pelos equívocos e pelos excessos em que caímos e nos fez reféns de oportunistas que se foram aproveitando da nossa ingenuidade. Quem são eu não sei ao certo. Mas que há vidas que me surpreendem pelo “sucesso” rápido que alcançaram e que há óbvios privilégios que a maioria de nós sustenta sem deles nem um pouco desfrutar, disso não me restam dúvidas.
Deveria assim continuar?
Penso que, finalmente, o país está a acordar do sonho mirífico da felicidade sem dor, disposto a por um fim nos excessos dos que, à custa de todos nós, apenas se preocuparam com a sua própria felicidade.
Mas teremos de fazer esse caminho com rigor e com prudência, sem excessos e paixões que tudo deitem a perder.
Que a Justiça seja esclarecida e bem sucedida nos seus propósitos é o que mais desejo.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

OS QUE MORREM SEM MORRER



E, aos poucos, vão desaparecendo figuras marcantes do imaginário televisivo dos mais velhos, personagens que deixaram a marca profunda do seu saber em programas de uma enorme qualidade, como agora é bem raro ver. 
Recordo com muita saudade aqueles programas que quase me obrigavam a estar junto da TV às horas certas para os não perder, ao contrário dos que, agora, me fazem fugir de junto da TV a certas horas para os não ver.
Não acredito que tenha passado o tempo dos grandes homens, daqueles que conseguem, pelo que são, distinguir-se dos demais, tal como não acredito que tenha deixado de haver quem goste de os escutar, de aprender com eles. 
Mas, infelizmente, do que me dou conta é que passaram a ser em muito maior número os que mais se interessam pelas brejeirices de certos programas que a televisão comercial nos impinge a toda a hora.

O inigualável programa “Se Bem me Lembro” feito com a voz pausada e de marcado acento açoriano de Vitorino Nemésio, era dos que que nos fazia mandar calar qualquer ruído à nossa volta até ele acabar de falar.

José Hermano Saraiva encantou-nos com o seu jeito único de nos falar das histórias da História, em programas como O Tempo e a Alma, Gente de Bem, a Bruma da Memória,  Histórias que o tempo apagou,  Lendas e Narrativas, Horizontes da Memória e A Terra e a Gente.

Anthímio de Azevedo conseguia fazer de um simples programa de previsão do tempo um momento digno de ser visto e escutado pois era, para além da informação que dava, uma lição de "meteorologia ao alcance de todos".

Sousa Veloso, no seu modo simples de falar e de tratar os temas rurais em inúmeros encontros com o campo, com o que nos dá e com a gente que trabalha a terra, mostrou-nos, ao longo de muitos anos do seu programa TV rural, uma parte mal conhecida deste país multifacetado que merece mais atenção.

Depois do desaparecimento de Vitorino Nemésio, de José Hermano Saraiva e de Anthímio de Azevedo, desaparece do nosso convívio, também, Sousa Veloso.

Que todos estejam naquele lugar que aos grandes Homens é devido, um lugar muito especial nos nossos corações.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

OS EXCESSOS DE SOARES


Meteu-me dó aquele Mário Soares que me pareceu tão pouco lúcido e muito transtornado à saída do estabelecimento prisional de Évora onde hoje foi visitar José Sócrates.
Com um discurso de racionalidade escassa, alterado por uma emoção excessiva que o levou a confusões profundas, Mário Soares manifestou a ilusão de que todos os portugueses, tal como ele, sabem que Sócrates é uma vítima inocente “desses” que maliciosamente perseguem o homem íntegro que ele é, o primeiro-ministro excepcional que foi, o político a quem Portugal muito deve!
Que está ali preso injustamente em função de factos e não provas apresentadas a qualquer tribunal (!) que o condenasse e sem, sequer, lhe permitirem manifestar o que tivesse para dizer em sua defesa. “Malandrice e bandalheira” é o que Soares entende ser tudo isto que levou Sócrates à prisão.
Mas, pelo que se diz, Sócrates saberia que ia ser detido e para tal se deve ter preparado, assim como consta terem sido longas as horas do interrogatório que antecedeu a sua prisão preventiva.
Para dizer tais coisas e para mandar um “recado” muito crítico ao juiz que, por “vingança” decidiu a prisão preventiva de Sócrates, Soares invocou a sua qualidade de jurista!
Pareceu-me um espectáculo deplorável de quem ainda se julga o dono da verdade e da razão, porventura aquela que o levou, um dia, a dizer que “estes senhores deviam ser todos detidos” referindo-se aos que agora diz perseguirem Sócrates.
Obviamente, não me compete nem posso fazer juízos apenas conhecendo o que todos conhecem, Soares incluído, através da comunicação social. Mas o conhecimento de ter sido Sócrates um personagem sempre ligado a “confusões” e “suspeitas” ao longo da sua vida pública, não me causa grande surpresa que, depois de uma investigação que me dizem ter sido conduzida por quatro magistrados e sessenta agentes da Polícia Judiciária ao longo de meses, aconteça esta “arbitrariedade” que tanto chocou Mário Soares que, conforme declarações que já fez, acharia justa e adequada a detenção imediata “destes” que diz perseguirem Sócrates.
Apesar de uma absoluta ausência de simpatia ou de reconhecimento de grandes méritos a qualquer destes personagens, causa-me profundo pesar quer o que se passa com Sócrates, um ex primeiro-ministro do meu país, quer esta manifestação de decrepitude de alguém que não está a conseguir preservar uma memória adequada às responsabilidades públicas que já teve.
Além de tudo, já me causa autêntica repulsa o aproveitamento que a comunicação faz, a toda a hora e sob todas as formas, deste evento infeliz, o que muita instabilidade pode causar na frágil democracia portuguesa.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

VENDO A QUESTÃO DE OUTRO MODO


Há, sempre, mais do que um modo de ver as coisas, como tão claramente o demonstrou aquela garrafa de whisky que tanto podia dizer-se meia cheia como meia vazia. E assim parece ser.
Apenas temos de nos impor o cuidado de não ir longe demais nestas coisas das “metades” para não tirarmos conclusões erradas à conta de uma matemática que pode ser matreira. É que, não se alterando uma igualdade quando ambos os membros se multiplicam pelo mesmo valor, poderíamos, multiplicando por dois, concluir ser uma garrafa cheia igual a uma vazia! E não é.
É o que me preocupa neste dia em que dois dos mais controversos e verborreicos políticos deste país se colocam naquela “metade” que só critica o modo como a Justiça trata Sócrates que, apesar de ser do modo como trataria qualquer um de nós, vê nisso uma maldade, uma agressão ao segredo de justiça ou um perigoso desrespeito pelos direitos humanos, enquanto a outra “metade” fica chocada com o que poderá ter feito alguém com certos privilégios que o poder lhe concedeu para, como a Justiça diz, ser suspeito de crimes muito graves que a todos nós prejudicam!
E lá se pode fazer o exercício que pode concluir com uma não verdade.
Mas a questão maior é esta: terá Sócrates acrescidos os seus direitos por ter sido um governante e, por isso, ter direito a um tratamento especial ou, pelo contrário, ter aumentadas a suas responsabilidades nos comportamentos que deveria ter como exemplo que não deixa de ser para a “plebe” que governou?


DÚVIDAS TERRÍVEIS


Não escrevo para ninguém me ler, mesmo sabendo que há quem leia o que eu escrevo. Vejo-o nas estatísticas que o “blogger” me mostra. Mesmo assim, vou escrevendo simplesmente à guisa de um diário onde vou registando as sensações que me ficam do que vou sabendo ou aquilo que me sugere o que à minha volta se vai passando. E à minha volta está o mundo inteiro que vejo naquele ecrã que está ali junto à parede ou leio neste pc que, logo pela manhã, me trás as notícias daqui e de dalém, me faz saber o que disse este ou aquele, enfim, que neste tempos de crise raramente me trás boas notícias ou me mostra ideias que me agradem pelo que possam transmitir-me, sobretudo quando leio o que certas pessoas escrevem.
Hoje, ao abrir o primeiro jornal, o das “notícia ao minuto”, dou de caras com estes textos em destaque “O antigo Presidente da República, o histórico Mário Soares comentou, esta terça-feira, na sua coluna de opinião no Diário de Notícias, o caso polémico da detenção de José Sócrates adiantando que esta foi feita sob “um anormal aparato fortemente lesivo do segredo de justiça” e criticando o “espetáculo mediático que a comunicação social tem feito”… “Sábado o país foi confrontado com um acontecimento que deixou todos os democratas intensamente preocupados”… “O que foi feito a um ex-primeiro-ministro com um anormal aparato fortemente lesivo do segredo de justiça não pode passar em vão. Independentemente do que está em causa e da separação de poderes entre a política e a justiça”… “Não pode passar em vão o espetáculo mediático que a comunicação social tem feito, violando também ela o segredo de justiça ao revelar factos que era suposto só serem conhecidos quando um juiz se pronunciasse”.
Com este advogado de quem não conheço causas fiquei a saber que o segredo de justiça impõe que os presumíveis criminosos sejam presos em segredo, haja as razões que houver para o modo de o fazer, sobretudo se for um político porque preocupa os democratas!
Soube, também, que não pode passar em vão o espectáculo mediático que a comunicação social tem feito…”. Já o fizera, e de que maneira, naquela faustosa visita de Estado que Soares fez à India onde andou de elefante e mais que?
Não sei o que pensa fazer Soares quando voltar a ser presidente, provavelmente num regime presidencialista e absoluto, para castigar estes “malandros” que vivem de fazer isto mesmo, de que eu nem gosto muito sobretudo pelo modo como  conseguem saber certas coisas que não deviam, muitas vezes até mentiras que, por interesse, alguém lhes impinge. 
Mas acontece assim quando as fontes não são eles mas outros que a lei lhes impõe o dever de preservar. Quem fez a lei?
Obviamente que se o preso fosse um cidadão comum, daqueles com quem, pelos vistos, os democratas se não preocupam mas que, mesmo assim, é um homem com família e com amigos que por ele sentem estima, enfim gente sem a notoriedade de um político como Sócrates a quem, democraticamente, foi aplicada a lei do país, a comunicação social talvez dissesse apenas, se alguma coisa até dissesse, que “foi preso um homem no aeroporto de Lisboa quando chegava de Paris!” E todos passaríamos adiante na leitura que fizéssemos na diagonal.
Mas o detido foi Sócrates, um primeiro-ministro arrogante que, depois de colocar o país na bancarrota e ter pedido o resgate financeiro (que o próprio Soares tanto insistiu que pedisse) que agora mais dolorosos os efeitos da crise de civilização que atinge todo o mundo “civilizado”, teve o arrojo de perguntar “como puderam fazer isto ao país”?
E eu pergunto: afinal quem fez o que ao país? Quem o pôs na bancarrota? Quem lhe está a dar uma triste “lição de democracia”, o regime em que o povo está primeiro e, por isso, a lisura de procedimentos deve ser a regra?
Ou estarei enganado e a democracia não é igual para todos?


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

CUIDADOS E CALDOS DE GALINHA


Decerto que no entendimento induzido de muitos, a decisão do governo de manter a sobretaxa fiscal de 3,5% em sede de IRS criando um “crédito fiscal” no imposto pago relativo a 2015 em função das receitas de IVA e de IRS ao longo desse ano, será mais um roubo.
Embora naturalmente abrangido por tal decisão que, tal como aos outros contribuintes me afecta, considero de prudência a decisão tomada, porque prefiro a possibilidade de pagar um pouco mais agora à de não poder pagar nada depois porque a capacidade financeira do país estoira e a bancarrota se instala de novo!
Diz-se na minha Terra que “cuidados e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, o que me leva a apoiar as medidas cuidadosas em vez das levianas que antes foram tomadas, porque não vislumbro, ainda, condições de melhoras num mundo a braços com muito sérios problemas.
Obviamente, a oposição que apenas por pura demagogia tem criticado os orçamentos rectificativos a que a volatilidade financeira global obriga mas que atribui à incompetência do governo, sabe bem que não há condições que permitam orçamentar sem grandes cuidados que previnam os efeitos exógenos aos quais a economia global totalmente nos expõe.
Não sou adivinho e, por tal, não sei o que se irá passar nesta economia doente que me não consente qualquer optimismo. Mas sei o bastante para preferir a prudência à leviandade que nos arrastou para este abismo do qual tanto tem custado a sair.
Por isso, tal como critico o que me parece serem decisões erradas do governo, o que, em alguns casos, fiz de modo bem marcado, também me sinto no dever de me manifestar quando as entendo certas ou razoáveis, adequadas à realidade e pautadas pela prudência que as fragilidades financeiras nos recomendam.


RESPONSABILIDADES E IRRESPONSABILIDADES POLÍTICAS


Há uns quantos anos, um ministro demitiu-se porque uma ponte bastante antiga caiu em consequência de cheias excepcionais que, nesse ano, se sucederam no Rio Douro. Na queda, a ponte levou consigo viaturas que nela passavam, com gente que acabou por perder a vida! Uma tragédia enorme pela qual eu esperaria do ministro, em vez do auto-afastamento imediato, o empenhamento sério na procura das causas pelas quais o acidente aconteceu. Havia muita gente que esperava e tinha direito a que da parte do Estado houvesse uma resposta clara e não o abandono que se verificou.
São aos milhares as pontes por todo o país e não é, por certo, o ministro o responsável pelo que se passa com cada uma delas, porque há um serviço especializado para a sua inspecção e manutenção, com gente qualificada e uma direcção à qual o ministro deveria ter pedido responsabilidades. A verdade é que, na rapidez com que pediu a demissão, nem explicações pediu e deixou correr, mal como correu, um processo que seria da sua responsabilidade acompanhar de perto, até terminar no esclarecimento completo que ao povo português era devido mas que nunca foi feito como o deveria ter sido! Só então, depois de tudo esclarecido, faria o que entendesse.
Pareceu-me muito estranho e oportunista como, na política, tanta coisa me parece. Mas que sei eu?
Um outro ministro socialista demitiu-se em consequência de dúvidas que foram levantadas acerca do cumprimento das suas responsabilidades fiscais. Que outra coisa poderia ele fazer perante uma dúvida tão grave, mesmo estando certo de que havia cumprido com os seus deveres de cidadão como, posteriormente, mostrou?
Há poucos dias, um outro ministro, Miguel Macedo, pediu a demissão em consequência do processo “labririnto” no qual estão envolvidas personalidades de quem é próximo ou que conhece e, até, pessoas com responsabilidades no seu próprio ministério, indiciadas da prática de crimes graves na concessão de “vistos gold”. Compreendi a atitude que me parece justificada por relacionamentos próximos com alguns dos indiciados, do que resulta, por certo, um desconforto que lhe retira condições para a continuação no cargo. Além disso, não lhe competia o esclarecimento do que se tenha passado porque a polícia havia já investigado e remetido o caso para os tribunais.
São óbvias as diferenças entre o primeiro e os dois casos seguintes. Mas parecem-me evidentes as semelhanças entre o caso do ministro Miguel Macedo, com o desconforto em que António Costa se deveria sentir pela proximidade política íntima com Sócrates a cujo governo pertenceu como figura destacada e a quem se propunha, agora, reabilitar politicamente.
Mais do que isso, são seus parceiros íntimos nesta campanha de regresso ao poder, os socialistas mais próximos de Sócrates, alguns que, tal como ele, participaram dos seus governos e são os grandes defensores da sua não responsabilidade na grave crise que vivemos. Mesmo, até, aqueles com quem, por certo, mais conta para o governo que espera vir a formar!
Em vez de se escudar na recusa das práticas stalinistas de fazer desaparecer da fotografia personas non gratas, parecer-me-ia melhor Costa reconhecer ser difícil, nestas condições, poder contar com a confiança política que um candidato a primeiro-ministro deve merecer porque, aconteça o que acontecer, Sócrates é, sem qualquer dúvida, o político que mais desconfiança já causou nesta democracia que precisa, urgentemente, de se reabilitar perante os cidadãos.


domingo, 23 de novembro de 2014

MUDANDO DE ASSUNTO: RONALDO, MESSI E PEYROTEU


Não somos um povo que se caracterize por uma grande auto-estima. 
Raramente apreciamos ou, até mesmo, reconhecemos o que de bom possuímos ou tenhamos feito, sendo demasiadas as vezes em que nos deixamos seduzir por feitos alheios dos quais, tantas vezes sem qualquer razão, nos julgamos incapazes.
Mas a verdade que a realidade comprova, mesmo sem regressar ao passado heróico das conquistas e dos descobrimentos, é que somos tão capazes como quaisquer outros, nem sendo raro que, do pouco numeroso povo que somos, sobressaiam factos, feitos ou figuras que o mundo não pode deixar de reconhecer entre os maiores.
E para aliviar um pouco esta tensão com que o Caso Sócrates mais esmaga a pouca consideração em que nos temos e do qual, constantemente, se ouvem ainda as mesmas coisas, olhei um pouco para o lado e deparei-me com uma notícia sobre futebol que me prendeu a atenção.    
No despique constante entre Ronaldo, que parece na calha para bater todos os recordes do futebol, e Messi, já vencedor de quatro bolas de ouro, foi notícia recente que o argentino teria batido o mítico recorde de Zarra no número de golos marcados no campeonato espanhol.
Não gostou da notícia a filha do antigo goleador que contrapõe que seu pai continua a ser o recordista alegando, referindo-se a Messi, que "É um grande jogador, mas participou em mais 12 jogos. Supera o número de golos, mas penso que não é correto dizer que bateu o recorde. Não bateu. O recorde será batido quando alguém marcar 251 golos em 267 jogos. Messi precisou de 280".
Há quanto tempo não ouvia falar de Zarra, o rematador poderoso que vi jogar pela selecção espanhola por duas vezes! Penso, até, que poucos portugueses se lembrarão dele, o que, depois de tanto tempo e por ser estrangeiro, me parece natural.
Menos natural me parece que não conheçam ou não recordem o enorme goleador sportinguista Fernando Peyroteu que tantas vezes vi jogar e que, falando de recordes, supera Messi e o próprio Zarra.
De facto, aos 0,94 golos por jogo de Zarra e aos 0,9 de Messi responde o nome de Peyroteu com os seus 331 golos em 197 jogos de campeonato, o que significa uma média de 1,68 golos por jogo, ainda por ninguém superada!


QUEM NÃO QUER SER LOBO…


Ontem, foi um dia passado a escutar e a ler as mais diversas opiniões e informações sobre a detenção de José Sócrates.
Parecia que nada mais haveria para noticiar ou falar e, quando havia, era sempre de uma forma rápida, fugidia, sem perder muito tempo porque o caso Sócrates não podia esperar.
Era uma repetição maçuda das mesmas coisas que davam para todos os gostos. Umas revelavam amores, outras ódios e raramente, se alguma vez, me apercebi que se falasse dele com indiferença, mesmo quando a intenção era mostrá-la.
Mentiria se dissesse que morro de amores por este personagem que, pessoalmente, apenas conheci de relance numa reunião de professores na UNI (!), a universidade onde acabei a minha carreira de professor uns anos antes da derrocada que, por razões que nada tiveram a ver com a sua qualidade académica, infelizmente, se seguiu.
Como a maioria de nós, conheci-o melhor enquanto foi primeiro-ministro. Então não foi, de todo, alguém cujo modo de ser me encantasse, tendo atitudes e tomando decisões que me deixavam preocupado quanto às consequências no futuro do país.
Eram erros evidentes, graves demais que se somavam a outros mais antigos, numa sequência leviana e perigosa num mundo que, a passos largos, se aproximava do desastre económico do qual ainda não se recompôs.
Mas mentiria também se afirmasse que me sinto confortável com toda esta barafunda que a sua detenção está a causar e com esta vergonha pública que, por isso, todos estamos a passar. Ou não estamos?
Afinal, uma maioria de portugueses depositou nele a sua confiança para conduzir os destinos do país e, com isso, o tornou num personagem de topo, alguém que associava ao seu o nome de Portugal.
Apesar das muitas controvérsias que gerou, dos diversos casos a que o seu nome foi associado, do ridículo daquela licenciatura que não foi mas que parece conservar-lhe o título que ambicionou, pouco tempo se manteve discreto este homem depois da crise financeira extrema em que colocou o país que, sem qualquer espanto, o afastou da governação.
Depressa ressurgiu das cinzas, com vida de fausto e arrogância política, até ao ponto da reentronização que parecia em curso no partido que António Costa passou a liderar, dizendo-se, até, que poderia ser o candidato apoiado pelo PS nas próximas eleições para Presidente da República.
Tornou-se, também, um notável coleccionador de deferências que o levaram a integrar o Conselho Geral da Universidade da Beira Interior (?!) e a ter a “chave da Cidade da Covilhã”.
Mas há um ditado que diz que “quem não quer ser lobo não lhe veste a pele”.
Agora o que se seguirá?


sábado, 22 de novembro de 2014

SERÁ QUE, ASSIM, PODEMOS?


O líder daquele novo partido espanhol cujo nome, Podemos, decerto o célebre slogan de Obhama – yes, we can – inspirou, acaba de dizer que “é preciso deixar a ideologia de lado e concentrarmo-nos nos interesses das pessoas”.
Pablo Iglésias, assim se chama o líder, crê que o Podemos poderá ganhar as próximas eleições legislativas em Espanha, acusando a “esquerda” de não ter percebido que era preciso criar algo de novo.
Esforço-me por entender o que o senhor quer dizer mas, decerto por incapacidade minha, não consigo.
Começo por criar a ideia de que ele, como a maioria dos políticos que conheço, confunde ideologia com crença, tal como se confunde ideias dinâmicas, ajustadas à realidade transitória que se reconheça, com ideias feitas que o tempo não afecta e cuja contestação, por isso, se não consente.
Em seguida, a nova estrela da política espanhola fala dos interesses das pessoas e não das suas necessidades e do modo como as satisfazer com os meios dos quais se disponha o que, em meu juízo, é aquilo que a todos os políticos competiria fazer.
Não me vou perder na repetição de tanta coisa que já escrevi sobre a dinâmica do tempo, das alterações a que dá lugar ou da escassez dos recursos necessários à satisfação das necessidades essenciais da Humanidade quando, em nome do crescimento económico, os esbanjamos na satisfação dos vícios que criamos. 
Limitar-me-ei a transcrever uma frase recente do Papa Francisco que alcança, inteiramente, uma ideia que, dos mais variados modos, me não tenho cansado de repetir: “o homem pode perdoar algumas vezes mas o mundo não perdoa nunca”!
Finalmente, não percebi a crítica de Iglésias à esquerda que, segundo ele, não percebeu que “que era preciso criar algo de novo”. Mas o que? Um partido, um discurso diferente ou uma ideologia adequada ao tempo em que vivemos e às circunstâncias que criámos, bem diferentes das que inspiraram as que as “relatividades políticas” cristalizaram sem se dar conta das mudanças que o tempo gerou?
Que mudança terá realizado Iglésias que mais me não parece ser do que a capitalização do descontentamento natural pelos resultados das políticas, desajustadas da realidade, que têm sido adoptadas e do que, por ser apenas isso, outro descontentamento ainda maior surgirá.
Preocupa-me pensar que o mesmo possa acontecer entre nós.
É bem possível que aconteça.


FINALMENTE A JUSTIÇA ABRIU OS OLHOS PARA SER CEGA COMO O DEVE SER?


A detenção de José Sócrates, ex-primeiro-ministro, é, sem dúvida, a notícia mais propalada neste dia vinte e dois de Outubro de 2014. Será, por isso, a notícia do dia e, pelo menos até agora, a notícia do século em Portugal!
A presunção de inocência que a qualquer “arguido” assiste não permite dizer que seja culpado dos crimes que o Ministério Público suspeita que ele tenha praticado, de corrupção, de fraude fiscal agravada, de branqueamento de capitais e de falsificação de documentos. São, pois, muitos e graves os crimes dos quais Sócrates está indiciado.
Porém, em face dos diversos processos em que o seu nome esteve envolvido ao longo de vários anos e das circunstâncias em que acabou por não ser formalmente integrado, difícil será não fazer das suspeitas quase certezas. Mas, mostra o tempo que o que se passa nas salas de audiências é sempre difícil de prever...
Aos processos de grande relevo como o foram os dos casos Freeport, Monte Branco e Face Oculta, dos quais resultaram condenações severas para um elevado número de arguidos, sempre houve suspeitas de estar envolvido Sócrates e pouca gente se conformou com o modo como deles acabou por ser afastado.
Constituiu-se em forte suspeita para todos o incidente que foi aquela decisão do presidente do Supremo Tribunal de Justiça de mandar destruir escutas em que Sócrates foi apanhado em conversas suspeitas com arguidos por crimes graves porque as julgou sem interesse como prova de culpa, apesar de um juíz de Aveiro haver antes considerado que seriam.
Agora que as malfadadas escutas, depois de longa polémica, foram destruídas (será que foram mesmo?), eu fico a pensar que mais alguém poderá ser suspeito de qualquer procedimento grave…
Mas será muito mais para além de tudo isto o que faz de Sócrates um arguido famoso, ao que não vou fazer referência porque pode ser lido em qualquer jornal.
Se, para além de tudo isto, recordarmos o jamais esquecido caso da sua formatura em engenharia ao Domingo, facto tão caricato como o curso que não fez, teremos um tão extenso rol de suspeitas que dificilmente serão todas injustas. Mas será a Justiça que o esclarecerá.
Sinceramente, espero que, desta vez, esclareça mesmo e não decida apenas!
Apesar de tudo isto, não considero que a detenção de José Sócrates seja o facto mais marcante deste dia porque, depois do que desde há algum tempo vem acontecendo, parece que a Justiça finalmente abriu os olhos para ser cega como o deve ser.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A PROPÓSITO DE GREVES


Apesar de sempre ter sido trabalhador por conta de outrem, nunca concordei com a lei da greve que permite aos trabalhadores faze-la quando, como e pelas razões que quiserem, sem obrigação de justificação alguma ou de uma mediação que tente conciliar as partes, apenas lhes sendo imposto um pré-aviso que nem carece de autorização.
Naturalmente, considero a greve um direito que confere força aos trabalhadores nos seus confrontos legítimos com o capital mas, também, uma atitude particularmente grave pelos efeitos adversos que pode ter sobre os próprios trabalhadores até. Por isso, considero perigosa a falta de outras regras para além do pré-aviso e dos “serviços mínimos” sempre tão contestados.
A greve faz sentido como um confronto de interesses entre as partes em conflito que avaliam os custos financeiros que dela resultam e, em conformidade, decidem entender-se ou não.
Mas o que mais frequentemente sucede não é isso, pois são as greves em que interesses e necessidades sociais são a moeda de troca, sendo os cidadãos comuns mais necessitados os que mais prejuízos sofrem, sem qualquer alternativa para os minimizar.
É o que mostra esta greve de enfermeiros que acontece mesmo enquanto decorrem negociações e, sobretudo, quando um surto anormal de uma doença grave retém, ainda, em cuidados intensivos dezenas de pessoas, para além de outros cuja falta de assistência decerto muito prejudicará ou colocará em risco.
Esta greve parece-me mais uma necessidade de tempo de antena dos sindicalistas da profissão, próprio daquele “em bicos de pés” em que todos andam para terem melhor visibilidade, sem grande respeito pelos interesses comunitários.
Quando, a propósito de justiça tanto de fala de proporcionalidade, que proporcionalidade haverá na justiça de uma greve em que uns poucos prejudicam muitos?
E quando se trata de exigências incumpríveis em face da muito débil situação financeira do país ou por outra razão qualquer, o resultado sempre será o mesmo, dure a greve o que durar, sendo o prejuízo dos que necessitam de cuidados de saúde, tanto maiores quanto mais necessitados.


OS SUSPEITOS DO COSTUME


Começa a ser hora de abrir os olhos para a realidade e estar atento ao que se passa no mundo da política portuguesa porque as eleições legislativas se aproximam e votar sem consciência ou não tomar decisão alguma não é atitude que sirva os interesses de qualquer de nós.
Deveria a história destas últimas dezenas de anos ter-nos mostrado como fomos descuidados nas escolhas que fizemos, nas promessas em que acreditámos, na depredação do património comum que consentimos e, até, nas inconveniências e nas ilegalidades a que fechámos os olhos.
Mas permite-nos a realidade que vivemos reconhecer a gravidade dos erros que cometemos pelos efeitos nefastos que causaram e que tanta infelicidade nos têm custado porque, em vez de pensar, nos deixámos levar pelas “cantigas ao desafio” dos que disputavam o poder, em vez de lhes exigirmos a seriedade de compromissos que a vida de milhões de nós merece.
Deixámos crescer uma classe política oportunista de cujas balelas as nossas palmas foram o ritmo e os nossos aplausos a grandeza que nunca tiveram os discursos da “banha de cobra” que nos impingiam.
É, por isso, chegada a hora de deixar de lado os chavões sonantes que, mesmo em versões melhoradas, sempre dizem o mesmo utilizando as técnicas publicitárias que tiram partido da nossa distracção ou ingenuidade para comprar o que não queremos.
Estar atento e não ir em cantigas é, pois, a primeira atitude sensata num momento em que o futuro de todos nós está em causa pelas graves carências que sentimos, as quais são o resultado de incompetências delapidantes e de manobras de licitude questionável ou mesmo ilícitas que não podemos mais consentir aos que, periodicamente, se apresentam como salvadores da pátria.
As eleições têm de, definitivamente, deixarem de ser a “suspeita periódica de que a maioria tem razão”, para serem a escolha certa que a nossa consciência, não perturbada por contos da carochinha, deve fazer.
Os chavões e as frases feitas, cuidadosamente definidos para se sobreporem às reflexões cuidadas que sempre deveremos fazer para compreender o que se passa, vão encher ecrãs, páginas de jornais e enfeitar cartazes para serem o ruído intenso e a festa que, na falta de ideias que a maioria dos nossos políticos demonstra, nos vai distrair das questões sérias a que é urgente dar resposta.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

UM ESCÂNDALO DESPUDORADO ACONTECEU.

Políticos voltam a ter subvenções vitalícias!
PS e PSD votaram em conjunto o fim da suspensão das subvenções vitalícias a antigos políticos, no que o CDS se absteve e PCP e BE votaram contra.
Imagino o que terá passado pelas cabecinhas tontas que propuseram tal medida e que outras não menos ambiciosas e desavergonhadas aceitaram.
Conheci pessoalmente um dos proponentes, um daqueles a propósito dos quais Marinho e Pinto, num texto que divulguei na minha página do face book, afirmou “Uma das consequências mais nefastas dessa cultura oportunista e predatória foi a castração moral de um sector da juventude portuguesa, precisamente aquele que desde praticamente a adolescência é amestrado nas organizações juvenis partidárias para reproduzir os estereótipos e os clichés político-culturais que fizeram os seus mestres enriquecerem na política”.
Como poderá gente desta conhecer o mundo para além da curta visão que as palas com que os armaram lhes consente?
E por que não haverão de enriquecer também? Pensarão esses políticos de aviário que não têm vergonha de pedirem àqueles a quem constantemente cortam salários e pensões, mais dinheiro para si próprios.
Parece-me um verdadeiro ultraje o que se passou, uma manifestação de falta de pudor de que Couto dos santos e José Lello foram os promotores.

Infeliz país que tem gente desta!


Ó TEMPO VOLTA PARA TRÁS


Diz uma notícia que acabo de ler que a saída de Miguel Macedo do governo está a criar sérios problemas ao PSD cujos dirigentes estão preocupados com a “perda de peso político” que de tal resulta. Afirmam, até, que o partido fica fragilizado, com menos capacidade para a batalha política que se avizinha.
Além disso preocupa-os, também, a escolha feita por Passos Coelho para substituir Miguel Macedo numa pasta que vai exigir muita experiência, sangue frio e decisão num período de tempo, o de campanha eleitoral, em que a agitação social tende a aumentar. Qualidades que a nova ministra, sem experiência política, não terá, apesar de toda a competência técnica que possa ter.
E todas estas preocupações parecem justas de sentir depois de, ao longo de três anos, o PSD tudo ter feito para se auto destruir. É que nem faço ideia do PSD que exista hoje, sobretudo pelas manifestações de fragilidade demonstradas por aqueles a quem, julgaria eu, competia serem a força renovada que o deveria fazer vencer.
Desde a vitória de Passos Coelho que os habituais pesos-pesados do partido, aqueles que eram as caras mais conhecidas, foram desaparecendo das lides partidárias. Alguns deles abandonaram o partido, outros suspenderam a militância e, para além disso, alguns destes têm-no enfrentado com mais força do que aquela de que uma Oposição de muito pouca qualidade mostrou ser capaz.
Aliás, o mesmo acontecera no PS durante o “consulado” de Seguro que substituiu os desacreditados “gerontes” por outra gente a quem competiria, também, renovar as forças de um partido enfraquecido e descredibilizado pelos desgovernos do ambicioso e leviano Sócrates.
Mas, afinal, tudo quanto parecia lógico que acontecesse, uma renovação que o tempo que passa exige que seja feita, não terá sido mais do que um interregno no drama em curso, no qual os actores afastados, aos poucos se reergueram e aparecem agora, quais múmias desmaiadas, para ocuparem, de novo, os seus lugares.
Terá sido um tempo perdido este que vivemos, como que uma pausa no tempo que jamais deixa de avançar, o que significa, naturalmente, mais um atraso na evolução de que não parecemos ser capazes, mais um ficar para trás num pelotão do qual conhecemos bem a cauda.
Quando a evolução que o tempo impõe não acontece, quando são as ideias velhas a dominar as que a novos tempos não conseguiram adaptar-se, a consequência só pode ser mais um penoso equívoco do qual, como desde há muito acontece, mais uma vez, amargamente nos arrependeremos.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A DEGOLA DOS INOCENTES


Nestes tempos em que os extremismos parecem tão convincentes que arrastam legiões de jovens para aventuras perigosas, porventura sem regresso, por que falar apenas do Corão se a Bíblia tem algo, também, a dizer?
Conta-se nela que quando Jesus Cristo nasceu, do que Herodes teve conhecimento pelos Reis Magos que, guiados por uma estrela entretanto escondida, o procuravam, o rei dos judeus ficou temeroso do poder do “Rei dos reis”, como os magos lhe chamaram, decerto imenso se comparado com o da sua fraca subalternidade perante Roma. 
Por isso e por não saber onde encontra-lo, Herodes mandou os seus esbirros matar todos os recém nascidos, uma matança que ficou conhecida como a “degola dos inocentes”.
Não foi uma manifestação de força mas de medo o que o poderio de um exército cruel revelou porque a verdadeira força é serena, comedida, sensata e não comete os erros que a arrogância ou o desespero sempre levam a cometer. 
Sobretudo, a verdadeira força não tira a vida aos mais fracos.
Nunca li os versículos do Corão porque não fez parte da minha educação cristã, mas sei, porque assim mo dizem e nem de outro modo o conceberia em quem através de Deus ame o seu próximo, que eles não instigam à prática do mal, muito menos ao ódio e à insensibilidade que espalha o terror e a morte.
Será outra, pois, a razão pela qual se mata. 
Quem sabe se as desilusões causadas por uma civilização que se desmorona a cada dia mais rapidamente porque não revela valores nem perspectivas que possam seduzir os jovens que nela não vislumbram a possibilidade de viver a felicidade a que, naturalmente, se julgam com direito, é a verdadeira causa?
Será esta mais uma das “doenças da civilização” que ou nos conduzem à razão da procura de uma nova via para o futuro ou nos pode levar à tragédia do “armagedão”, a batalha final que o Apocalipse refere e o profeta Jeremias situa próximo do Rio Eufrates em cujas águas corre, agora, o sangue de outros degolados?


FINALMENTE, A REVOLTA DA JUSTIÇA?


A menos aqueles chavões que inculcam ideias feitas nas cabecinhas menos prevenidas que, por isso, as aceitam como inquestionáveis verdades, não haverá já grande coisa em que alguém acredite realmente.
Neste “salve-se quem puder” que os restos de uma civilização em avançado processo de decomposição inspira, reforçam-se as “precauções” de quem pensa que arrecadando fortunas se põe a salvo das borrascas que se aproximam. Talvez nunca alguém lhes tenha dito que o dinheiro de nada serve na cova. E lá vão vivendo na ilusão.
Sem ir longe numa reflexão que seria longa demais, fiquemo-nos pelas coisas mais caseiras que, mesmo na escala de um país pequeno, podem ser uma amostra significativa de um estado de espírito global próprio do tempo que vivemos: Os ratos, assustados, abandonam o navio, mas os oportunistas não o deixam sem, antes, tentarem recolher todos os proveitos a que a confusão geral lhes permita deitar mão.
De que lhe servirão depois não sei, mas é assim que acontece.
Sem compreender tanta coisa mal esclarecida no processo Casa Pia que parece ter deixado de fora alguns que parecem tão culpados como os que foram condenados, ainda mal refeitos do escândalo asqueroso e dos prejuízos avultados provocados por uns quantos notáveis através do BPN que um regulador apático terá deixado à solta, duvidosos da verdade que o julgamento do caso Alcochete acabou por aceitar, além de outros casos em que o poder estabelecido parece ter ido além das marcas sem que a Justiça o condenasse, cai-nos em cima o escandaloso e brutal caso da falência do BES ou do GES, que importa, e, como se tal fosse pouco, o quase inacreditável caso dos vistos gold dos quais figuras bem situadas na estrutura do poder se terão aproveitado para “fazer uns cobres” e lesar a todos nós que somos o já quase falido “banco” do Estado.
É nesta altura que me lembra o velho dito “ajuda o pai que é velho!”
De tudo isto e porque não acredito que as coisas fiquem por aqui depois do ponto a que chegaram, só “o que mais me irá acontecer” parece ser o receio razoável que uma actuação finalmente firme da Justiça poderá atenuar.
Os resultados das audições da “turma dos vistos gold”, com medidas de coacção pesadas, além de algumas condenações como no caso “face oculta” aconteceram, talvez indiciem procedimentos mais decididos do que os que permitem a tanta gente andar à solta sem o merecer.
Deixa-me muito curioso e expectante esta declaração do advogado de defesa do que, no caso dos vistos gold e por ora, parece ser o mais responsável: "há um tempo certo para falar e sítios próprios para o fazer. Para a defesa, este tem sido e continua a ser o tempo de falar apenas e só no processo" e "o ruído, as palavras fora do processo, especialmente as cirúrgicas e as distorcidas, não atraem a defesa", acrescentando, também, que "além de ser ilegal e repugnante, pode servir apetites, agendas ou interesses, mas não serve nem os interesses do Direito nem os da Justiça".
Será que vai começar a desenrolar-se o novelo que mostrará, finalmente, os podres desta classe de políticos que a liberdade, distraída, escolheu?
Em face do que a Justiça tem deixado para trás, será razoável ter alguma esperança?

Só o futuro o dirá.


OS CRIMES DE “UN” E DE OUTROS


As Nações Unidas aprovaram esta semana uma resolução que, baseada num relatório do Conselho de Direitos Humanos apresentado já no passado mês de Fevereiro, considera a Coreia do Norte responsável por violações dos direitos humanos, pedindo a abertura de um inquérito por “crimes contra a humanidade”.
As “atrocidades indescritíveis” cometidas pelo Estado Norte-Coreano referidas no relatório, transcritas de forma concreta na “resolução”, leva as nações Unidas a recomendar que os responsáveis sejam julgados no Tribunal Penal Internacional, para que sejam alvo se sanções internacionais.
Apesar do conhecimento corrente de tais atrocidade e do relatório que, detalhadamente, as refere, a resolução não foi tomada por unanimidade, apenas recolhendo 111 votos favoráveis. Os outros, 19 foram contra, entre os quais os da Rússia e da China, e 55 foram abstenções. Deste modo, foram 74 os países a quem as evidências não convenceram para que a proposta, bem fundamentada, da União Europeia e do Japão, não valeu de grande coisa. É um número demasiadamente elevado que não permitirá, de todo, que sejam julgados os desumanos que fazem de todo um povo escravo dos seus caprichos, tanto mais que no Conselho de Segurança do qual a China e a Rússia são membros permanentes, os seus vetos não deixarão de impedir o julgamento que as circunstâncias requerem.
É evidente que cada vez mais as Nações Unidas mostram não serem mais do que um fantoche que os membros permanentes do Conselho de Segurança manobram ao seu bel-prazer. Como é evidente, também, que o mundo está, de novo, dividido em dois blocos que, mais cedo ou mais tarde se poderão confrontar de forma mais dramática, como as provocações e as “conquistas” da Rússia para refazer a velha URSS o fazem crer.
Para além destas “pequenas coisas” que deixam todo um povo à mercê dos seus carrascos e numa vida de profunda miséria, a hipócrita “globalização” continua e continuará até que também ela, um dia, estoire.
É assim o carácter dos poderosos do mundo, sobretudo o daqueles para quem os fins justificam os meios, por mais desumanos que sejam.
O papão Coreia do Norte continuará as suas experiências nucleares e os seus ataques a inocentes porque uns não têm coragem para o afrontar e outros, talvez, porque acham bem o que faz.
Talvez uns quantos, os tais 55 sem opinião, apenas tenham medo do que lhes possa acontecer se a expressarem.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

AS MARÉS DO NADA


Num país onde a política nada mais é do que uma feira de vaidades ou de um leilão de oportunidades que tantos tentam agarrar, todos andam em bicos de pés na tentativa de sobressair dos demais que, também como eles, estão sempre desejosos daqueles minutos de fama que lhes podem render os proveitos que desejam.
E quando o momento acontece, têm já pronto o seu discurso de crítica maldizente que vai ao encontro da multidão que em tudo vê reprováveis propósitos, más soluções e fontes de mais desgraças, pois não é a louvar o que outros façam que mostram como são os mais capazes.
São discursos formatados onde as frases feitas se ligam por outras muitas vezes ditas também. São ataques iguais a tantos outros que vão no sentido que está mais na moda, pois é dos livros que se não avança remando contra a maré! São discursos estéreis como um pano seco do qual, por mais que se esprema, nada escorre.
Foram já muitas as marés que vi subir e baixar, desde aquelas primeiras em que, na esperança de um país novo, todos queriam participar até às que, aos poucos, perderam o interesse para a maioria que, infelizmente, já descrê que haja mudanças que valham a pena porque a charanga, mais ou menos desafinada, toca sempre a mesma moda.
E vejo um país sem ideias e sem rumo, onde mudar, simplesmente mudar, é a solução porque outra não há nas cabecinhas ocas incapazes de pensar para além dos seus interesses que não vão além dos lugares e das situações que os privilegiam nesta terra de oportunistas e de acomodados!
É por isso que o dizer mal dos outros basta para que o maldizente pareça melhor e, portanto, o que se deve preferir. É esta a solução que a democracia sempre tem para os que esperam que ela lhes dê o que só o esforço a que se negam lhes poderia dar. 
E vão mudando na vã esperança de que um milagre aconteça…
É assim num país que se não rege por propósitos bem definidos, que já se esqueceu de si próprio e não sente a necessidade de avaliar as ideias de quem diga ser melhor ou não ser tão mau como o outro, porque ele próprio é um país que ideias não tem.
Então, como vai ser o futuro de um país assim?


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DEMISSÕES


É um facto que o que se passou com o aproveitamento dos vistos gold é reprovável por todas as razões que se agravam quando são responsáveis por altos cargos do Estado que se prestam a actos criminosos dos quais os não julgaríamos capazes.
Não se prestam já os tempos à impunidade que até há bem pouco tempo sempre deixava a culpa solteira nem à irresponsabilidade política por aquilo que aconteça.
O Ministro da Administração Interna reconheceu a situação de fragilidade em que ficou por diversas razões compreensíveis e não por questões de responsabilidade pessoal que tenha assumido, pelo que se demitiu.
O aproveitamento político pelos que reclamam eleições antecipadas foi imediato, com as repercussões que podem ser notadas nestes programas de antena aberta, como o que estou a ouvir neste momento, em que se amplia o eco dos chavões que os mentores da revolta política provocam na massa que os escuta e, depois, confunde alhos com bogalhos, como acontece quando se compara a atitude de Miguel Macedo com a de Jorge Coelho após a queda da Ponte Hintze Ribeiro que lhe não trazia responsabilidade política alguma mas que acelerou as vantagens da condição de ex-ministro.
Finalmente as culpas que são atribuídas a quem tenha imaginado ou legislado os agora famigerados vistos gold que alguns, os inteligentes do costume, já sabiam que daria este resultado, sugerem-me a pergunta simples de saber se será responsável por um atropelamento o construtor do carro que outro conduzia.
Mas recorda-me que, diz o saber de experiência feito, "o bom julgador por si julga".
Mas que outras circunstâncias de responsabilidade e de incompetência política já deveriam ter levado outros ministros a demitirem-se também, é coisa em que não posso deixar de pensar a propósito da atitude de Miguel Macedo.
Pelo que oiço àqueles a quem, depois de quarenta anos, as jogadas políticas mais simplórias ainda enganam, francamente duvido que sejamos um povo já preparado para a democracia!


DIA DO NÃO FUMADOR


Depois de dezenas de anos a fumar, passei a ser um não fumador que se não cansa de recomendar aos que fumem que deixem de fumar!
À maneira do que a anedota conta daquele escocês que não fazia amor porque, dizia, “a posição é ridícula, o prazer é efémero e sai caro”, é fácil dar conta do ridículo que é andar pela rua pendurado num cigarro, ver uma boca que parece uma chaminé, como é desagradável um bafo que cheira a tabaco e não será preciso fazer muitas contas para verificar quão caro sai.
Mas o mais importante de tudo é, sem qualquer dúvida, o mau que é para a saúde a satisfação de um prazer efémero que é das maiores causas de morte em Portugal.
Como deixar de fumar? Pensando em tudo isto, no mal que a nós próprios fazemos e no ridículo que é depender de um vício caro e que nos obriga à figura ridícula de dele andar pendurado!
Fui ao médico que me receitou um medicamento que, fui avisado, não substituiria a força de vontade de que necessitaria para deixar de fumar. O que desagradou profundamente ao meu espírito de contradição.
Tomei religiosamente o medicamento, mas fumei sempre que me apetecia enquanto ia olhando para outros fumadores cuja figura me não agradava.
Um dia, pouco mais ou menos um mês depois, deixei de fumar a olhar para aquele cigarro que, sem qualquer razão válida de ser, estupidamente ia meter na boca.
Diria até que criei uma autêntica aversão a este vício mortal que, mesmo mais de dez anos depois, ainda me cria algum desconforto.