ACORDO ORTOGRÁFICO

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

QUEM COME FIADO...

Não tenho dúvidas de que esses programa ditos de “antena aberta” são muito escutados porque as pessoas sentem necessidade de falar dos seus problemas que são muitos e encontram ali um lugar onde, falando deles ou despejando os seus rancores, podem aliviar as suas mágoas.
Mas muitos, quem sabe se a maioria, encontra alí o púlpito certo para se ouvir, para dizer a todos o que no café diz aos amigos, aos quais afirma a sua sabedoria sobre como, facilmente, todos os nossos problemas desapareceriam. Bem na senda do que ouve do seu mentor político.
Finalmente há os especialistas convidados, por via de regra economistas que, naquela cátedra de onde falam para muito mais gente do que costumam, debitam a sua teoria, mais uma de tantas que ainda não deram quaisquer resultados.
Se, por um lado, vale a pena saber o que as pessoas pensam sobre o que se passa, por outro sente-se ser esta uma via de contaminação por ideias torpes que já ouvimos a muitos dos nossos políticos que não esclarecem ninguém, porque apenas estão no “jogo do poder” que a democracia do confronto permite. Não passam, por isso, de caixas de ressonância de disparates que em nada ajudam nesta tarefa enorme com que o governo se depara. Pelo contrário!
Não é de admirar que pessoas que não sabem exactamente como as coisas funcionam nem a real situação em que se encontram, debitem ali as alarvidades que dizem sem qualquer ponta de senso.
É natural a revolta de quem, em pouco tempo, viu acabarem-se as facilidades que lhe davam quase tudo em troca de nada, casa própria, carro, férias no estrangeiro, electrodomésticos das melhores marcas, televisores gigantes...., talvez sem nunca se terem perguntado de onde viria o dinheiro que as pagava! Aqui residiu a grande ilusão de uma riqueza que não existia mas que a muitos sabia bem. Agora, a desilusão é grande, o desespero ainda maior e todos clamam pelo regresso de um tempo que passou mas que não pode voltar.
Seria isto que deveria ser dito claramente, sem os rodeios que sempre acabam confundindo as pessoas. Seria este o objectivo que deveria ser alcançado em programas de informação.
Mas isso não acontece quando dizer a verdade merece castigo, ao contrário daqueles princípios de boa conduta social que, no meu tempo, ensinavam às crianças.
Quando Passos Coelho afirmou que teríamos de empobrecer, tinha razão mas usou as palavras erradas, porque o “empobrecer” em dinheiro não significa, necessariamente, ser mais pobre. Mas a teoria do politicamente correcto fe-lo recuar em vez de esclarecer, o que reforçou a esperança na possibilidade do regresso da vida folgada que acabou. E o esclarecimento necessário não foi feito!
Quando Victor Gaspar afirmou que os portugueses pagam pouco por aquilo que exigem do Estado, teve toda a razão mas, tal como Passos Coelho, errou nas palavras e na forma como o disse. E quando assim acontece na política, comete-se o erro de dar trunfos aos adversários que eles usam em seu benefício, iludindo os que, em vez de pensar, preferem ser enganados.
Mas a prova da razão de Gaspar é fácil de fazer, até num velho dito da minha Terra do qual já quase me havia esquecido: “ quem come fiado... caga novelos!”
(Para aqueles para quem este dito não faça muito sentido eu tenho a dizer que a indústria de lanifícios estava bem implantada naquela região onde a lã era tratada e fiada. Daqui resultava o “fiado” que se organizava em meadas ou em “novelos”. A graça vem da confusão que a palavra fiado introduz, sabido que é “fiado” também significa “a crédito”)
Foi isto que me apeteceu dizer após mais uma “antena aberta” que me acompanhou enquanto me barbeava...

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